Contrariando a opinião de muitos comentadores, sou dos que acreditam que a Europa atravessa um momento histórico. O afastamento dos Estados Unidos da América, que muito teimam em não reconhecer como possível, poderá obrigar os europeus a enfrentar o imperativo de tornar a Europa autónoma e relevante no cenário internacional.
O potencial económico da Europa é inegável, mas não cumpre plenamente o seu papel global devido à falta de coesão política e de coragem estratégica. Apesar de um PIB comparável ao dos EUA, de uma base industrial avançada e da importância no comércio mundial, os principais entraves são internos: bloqueios políticos, duplicação de esforços, especialmente na defesa, e ausência de uma política industrial coordenada. Superar esses obstáculos tornou-se uma necessidade urgente.
A defesa é central para essa transformação. Durante décadas, a Europa confiou na proteção dos Estados Unidos, o que permitiu gastos reduzidos e uma abordagem fragmentada ao sector. Hoje, aumentar as despesas militares para, pelo menos, 2% do PIB não deve ser visto como um fardo, mas como o custo necessário para garantir segurança e autonomia. Essa mudança de paradigma é essencial para dissuadir ameaças e fortalecer o estatuto internacional da Europa.
No entanto, a resposta europeia não pode ser apenas reactiva. Para se tornar um terceiro polo credível e atractivo, a Europa deve investir em inovação, digitalização e políticas industriais robustas, capazes de competir com os gigantes tecnológicos dos EUA e da China. Liderar em inteligência artificial, energias renováveis e mobilidade sustentável pode ser o diferencial necessário para criar uma alternativa genuína às demais grandes potências.
O desafio é mais do que técnico ou económico. Trata-se de um teste existencial para a ideia de Europa. A adversidade pode ser o catalisador para romper impasses e transformar a União Europeia de um projeto essencialmente económico e regulador em uma potência política e militar.
O que está neste momento em causa é o futuro da Europa e a sua atitude relativamente aos EUA. O projecto da coligação de vontades para apoiar a Ucrânia será um bom teste. No cenário de fragmentação e decadência da Europa, ela provavelmente morre. Sem uma frente unida, cada país começa a olhar para o seu próprio umbigo. O apoio à Ucrânia torna-se um fardo pesado demais e a "força de paz" retira-se, deixando Kiev à mercê de Moscovo. Na melhor das hipóteses, a coligação sobrevive, mas como um escudo de papel. Faz o mínimo indispensável: treina soldados ucranianos e paga as contas com os juros dos bens russos congelados, mas evita qualquer ação que possa irritar o Kremlin ou a Casa Branca. Será uma paz frágil e sem ambição. No cenário de alinhamento subordinado aos EUA, o mais provável, a coligação transforma-se num instrumento da política externa americana. Os soldados europeus fazem o trabalho perigoso no terreno (boots on the ground), enquanto Washington dita as regras do jogo e fornece apenas as informações e os satélites. Basicamente, a Europa paga e morre, e os EUA decidem. No cenário menos provável de autonomia estratégica da Europa, a coligação pode tornar-se o embrião de um futuro exército europeu. A força multinacional na Ucrânia deixa de ser uma medida de recurso para ser uma demonstração de força. Será a Europa a dizer que trata da sua segurança.
A crise pode ser o ponto de partida para a transformação. A ruptura geopolítica causada pela nova postura dos EUA é difícil, mas oferece uma rara oportunidade para a Europa se afirmar como uma potência autónoma. Se a Europa mobilizar a sua força colectiva, superar as suas divisões internas e agir com determinação, poderá garantir a segurança e influenciar o equilíbrio global de poder. O risco é grande, mas a maior recompensa é o surgimento de uma Europa forte, autónoma e protagonista. O tempo de decidir é agora, e a História não espera pelos indecisos.
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