domingo, 26 de julho de 2026

Quando o poder deixou de fingir que não é negócio

 


O artigo de hoje do The New York Times mostra que Donald Trump não regressou à Casa Branca; reabriu-a como balcão de um império onde a república entra pela porta de serviço e a caixa registadora ocupa a Sala Oval. O homem que em 2017 acumulava cerca de 594 milhões de dólares viu a fortuna pessoal aumentar para 2,24 mil milhões em 2025, num milagre financeiro que quase pede incenso.

Há em Trump uma versão cintilante do génio americano. Não o da invenção, mas o da alquimia que reduz instituições, bandeiras e bíblias a produto, lucro e espectáculo. No primeiro mandato ainda restava uma réstia de pudor. No segundo, até a cortina que disfarçava foi vendida.

Em 2017, quase 90 por cento das receitas vinham do golfe e da promoção imobiliária interna. Em 2025, essa base parecia uma relíquia sentimental. A receita doméstica rondou os 549 milhões de dólares, enquanto as criptomoedas subiram ao altar como santas padroeiras da opacidade.

Nesse catecismo da ganância com música de casino, a World Liberty Financial terá rendido cerca de 799 milhões de dólares, e o memecoin $TRUMP acrescentou mais 636 milhões ao cofre. A palavra corrupção soa tímida demais; isto já é degradação convertida em marca.

Os negócios internacionais de golfe e imobiliário renderam 125 milhões de dólares, mais do dobro de 2017. A fronteira entre interesse público e privado foi tratada como fita de inauguração, feita para ser cortada perante câmaras e aplausos. O conflito de interesses tornou-se norma.

A procissão prossegue com 117 milhões de dólares em acordos legais, sobretudo de empresas como a CBS e a Meta. Para completar o retábulo, chegam ainda cerca de 17 milhões em merchandising e publicações, de relógios a bíblias. A fé também encontrou o seu preço.

No fim, o escândalo não está apenas na fortuna acumulada, mas na tranquilidade com que o dinheiro domina a linguagem política. Trump não governa apesar do negócio. Governa como negócio. No segundo mandato de Trump à frente do país capitalista mais poderoso do mundo, o poder deixou de fingir que não é negócio e o negócio deixou de fingir que não é poder.

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