sexta-feira, 17 de julho de 2026

O teatro do populismo




O presidente dos EUA, na homilia política de ontem, conseguiu o prodígio de transformar a realidade numa maratona de autoelogio, num cenário de catástrofe por conveniência. Num só discurso, os EUA passaram de país inquieto a império reconciliado consigo mesmo, com a inflação domesticada, o crime em retracção e as fronteiras fechadas com tal eficácia que a própria estatística parece ter pedido licença para sair.

Há, nesta transformação súbita, qualquer coisa de litúrgico. Segundo o celebrante, o que ontem era um organismo à beira do colapso é apresentado hoje como o mais rico e respeitado país da História, por uma espécie de transubstanciação verbal em que a repetição substitui a prova e a ênfase ocupa o lugar da demonstração. A prosperidade é anunciada com a solenidade de um milagre e até os mercados acompanham o entusiasmo, com a servil obediência dos números quando são convocados para confirmar um relato.

Mas nenhum paraíso político se sustenta sem o seu demónio tutelar. E, neste caso, a China cumpre a função com exemplar utilidade dramática. Terá roubado dados de 220 milhões de eleitores, terá alimentado jornalistas hostis, terá enfim trabalhado, com disciplina asiática e vocação conspirativa, para impedir o triunfo de um homem que, segundo a própria narrativa, já triunfou em tudo o resto. É uma acusação tão vasta que quase dispensa verificação. Quando a suspeita é suficientemente grande, a prova torna-se um detalhe sem importância.

O mesmo se passa com o Estado profundo, essa expressão elástica que serve para explicar o que convém e disfarçar o que incomoda. Funcionários, relatórios, agências, burocratas e sacos de documentos esquecidos entram em cena como figurantes de uma peça mal escrita, em que todos conspiram com fervor, mas ninguém demonstra o cuidado básico de destruir as provas. A grande conspiração americana mantém, assim, uma vulnerabilidade doméstica comovente. É poderosa ao ponto de controlar tudo e imprudente ao ponto de deixar rastos no lixo.

As máquinas de voto, por sua vez, são tratadas como criaturas sem alma, mas com instinto para a corrupção. Ora frágeis, ora omnipotentes, ora vulneráveis, ora decisivas, ocupam o imaginário político como se a democracia fosse um mecanismo defeituoso que só merece confiança quando produz o desfecho conveniente. Se o resultado agrada, o sistema funcionou. Se desagrada, foi sabotado. A lógica, neste domínio, é impecável na sua pobreza.

E então surge a solução, sempre simples, sempre moral, sempre anunciada como se a complexidade fosse um vício de má-fé. O voto por correio torna-se suspeito por natureza. A identificação com fotografia converte-se em sacramento cívico. O “Save America Act” aparece como fórmula de purificação, uma dessas medidas que prometem limpar a democracia com a mesma convicção com que se lava um vidro embaciado. Nada de novo, no fundo. Apenas a velha ambição de reduzir a cidadania a um procedimento de balcão.

O mais notável, porém, é a forma como o discurso de Trump concilia o excesso de triunfalismo com o apocalipse eleitoral. O país está no auge, mas o sistema apodrece. As fronteiras estão seladas, mas a soberania vacila. A economia prospera, mas a legitimidade eleitoral desfaz-se. É uma arquitetura retórica de grande consistência interna e mínima fidelidade ao real. Tudo funciona, menos aquilo que interessa. E é justamente nessa fractura que o populismo encontra a sua matéria-prima e o terreno fértil para medrar.

No fim, sobra a certeza de ter assistido não a um discurso político do presidente do país mais poderoso do globo, mas a uma peça de autocelebração com vilões de serviço. A grandeza do país foi proclamada com a mão direita enquanto a esquerda procurava um culpado externo, um burocrata interno ou uma máquina de voto com mau comportamento. É um teatro útil, porque poupa o esforço de pensar. E é também um teatro antigo. Só mudou o figurino.

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