Há dias, confesso, quase me deixei comover pelo entusiasmo contagiante com que dois especialistas da guerra — o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando — discorriam sobre o programa liderado por Zelensky e a participação de nove países da chamada Coligação da Boa Vontade no desenvolvimento de um míssil antimíssil. Um clube exclusivo ao qual, a acreditar no tenente-general, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros não terá fechado a porta.
Foi então que o jornalista Rolando, num registo de revelação quase messiânica, pediu licença para sublinhar o que considerava essencial: Portugal enfrenta, nos próximos anos, duas decisões históricas, capazes de transformar profundamente o país nas suas capacidades tecnológica, militar e económica. A primeira seria a adesão a este programa, que — mesmo com uma participação modesta, como prudentemente se antecipa — poderia dar um “impulso tremendo” à ciência, à tecnologia e à indústria de defesa nacionais. A segunda, já aventada pelo Ministro da Defesa, seria a eventual entrada no programa do caça de sexta geração.
Para Rolando, a conclusão era inequívoca: “se estas duas decisões forem tomadas, isto é uma alavancagem tremenda para a indústria, para a tecnologia e para o desenvolvimento económico do país.” E acrescentava, com um realismo resignado: “gostaria que o mundo fosse outro, mas o mundo é o que é.” Seguia-se a tese central, apresentada como axioma: não há desenvolvimento sério — tecnológico, militar, científico ou económico — sem uma forte componente militar. “Não há outra maneira.”
O tenente-general Rafael, naturalmente, não deixou escapar a oportunidade e recordou que a academia portuguesa já possui essa “alavancagem”, graças a cursos aeroespaciais altamente cotados de norte a sul, e que esta vaga poderá ser a oportunidade ideal para absorver o talento jovem que deles sai.
Sem perder fôlego, o jornalista insistiu na metáfora marítima: “é uma onda que está a passar e temos de aproveitá-la agora.” Uma onda que promete elevar Portugal a “um patamar completamente diferente” em termos tecnológicos e económicos, desde que, claro, saibamos surfar estas “oportunidades de uma geração” — essas entidades quase mitológicas que, como se sabe, raramente se repetem.
Se não conhecesse o meio, talvez tivesse aplaudido com ambas as mãos. Mas, depois de deixar a Marinha, trabalhei com empresas públicas da área da Defesa e a experiência esteve longe de ser edificante. E as empresas privadas com que lidei não se revelaram melhores.
Recordo-me de um alto quadro de uma multinacional anglo-americana que, perante as minhas frustrações, me aconselhou a abandonar quaisquer ilusões. Com a frieza cirúrgica que se atribui aos ingleses, disse-me: Jorge, defence business is, and will always be, dirty business.
É por isso que me arrepio quando ouço falar em aumentos do orçamento da Defesa e vejo o entusiasmo quase juvenil de figuras como o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando. Sei bem quem se senta à mesa destes negócios — são sempre os mesmos. E sei também quem fica a assistir, do lado de fora, a pagar a conta de um banquete para que nunca foi convidado: a esmagadora maioria dos portugueses.
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