Hoje vi um menino palestiniano que gosta de Ronaldo e que perdeu as pernas num bombardeamento israelita. Bastou pouco mais do que essa imagem para perceber que a guerra, em Gaza, não se limita a destruir casas. Rouba infâncias, interrompe futuros e, ainda assim, não consegue apagar por inteiro a vontade de brincar, de sonhar e de pertencer ao mundo.
Mohammed Shaban tem 10 anos. Foi atingido num ataque aéreo israelita e perdeu as duas pernas e a mão direita, mas continua a driblar, a acompanhar o Mundial e a falar de Ronaldo como quem fala de uma promessa acesa no meio da noite. A reportagem da PBS News, a televisão pública dos EUA, mostra-o na tenda onde vive com a mãe, Sondos, que é, ao mesmo tempo, enfermeira, abrigo e companheira de jogo. Cada passe entre os dois vale mais do que um recreio, porque prova que a guerra ainda não conseguiu levar tudo.
A paisagem em que Mohammed vive é de uma terra de betão esmagado, onde crianças jogam sobre vestígios da guerra e onde a normalidade se transformou em sobrevivência. A família foi deslocada uma dúzia de vezes, levando-o ao colo durante quilómetros por não ter cadeira de rodas, enquanto a mãe tenta mantê-lo seguro e afastado, tanto quanto possível, do perigo constante. O que devia ser uma infância tornou-se, na prática, uma travessia sem fim entre destroços, medo e improviso.
A reportagem sublinha também a fragilidade do seu corpo. Mohammed precisa de cirurgias regulares devido a infeções e a tecido cicatricial profundo, e a mãe diz que só quer vê-lo sarar, talvez longe de Gaza, onde o corpo possa finalmente descansar do cerco. Há aqui um detalhe que fere pela sua simplicidade. O menino sonha com próteses, com viajar para fora, com voltar a jogar com os amigos e até com participar num Mundial. É uma ambição que só parece absurda a quem nunca teve de merecer o direito elementar de a sonhar.
Num território onde a celebração se tornou rara, o Mundial surge como uma espécie de refúgio. A reportagem mostra palestinianos em Gaza a reunirem-se para ver jogos, sobretudo os do Egipto, como se a vitória de uma seleção vizinha lhes devolvesse, por instantes, uma pertença colectiva e uma alegria partilhada. Quando o Egipto marca, a festa espalha-se entre paredes destruídas, como se os bombardeamentos tivessem aberto, no meio do pó, pequenas janelas por onde ainda entra alguma luz.
A mãe de Mohammed diz que o filho é talentoso, que adora ver futebol e que o seu jogador favorito é Ronaldo. Acrescenta que o objetivo dele é jogar diante do mundo e não esquecer a dor até lá chegar. Há qualquer coisa de profundamente humano nessa fidelidade a uma figura distante. Ronaldo, para ele, não é apenas um ídolo. É a prova de que o futebol também pode ser um idioma universal, compreendido por uma criança amputada no meio das ruínas.
A reportagem não esconde a violência quotidiana. Há disparos ouvidos durante as brincadeiras, fugas apressadas, medo entre as tendas e funerais que interrompem qualquer tentativa de normalidade. Fala da morte de um trabalhador humanitário ligado à organização das transmissões do Mundial, mais uma lembrança de que, em Gaza, até a alegria é frágil. E, no entanto, mesmo ali, crianças jogam entre tendas, com bolas improvisadas, num campo sem marcações e sem certeza de amanhã.
É isso que torna esta história tão dura e tão necessária. Mohammed não é apresentado como símbolo abstracto, mas como um menino concreto, com nome, mãe, dores, desejo e teimosia. O futebol não lhe devolve as pernas, mas devolve-lhe, por minutos, a condição luminosa de criança. E, num lugar onde tantas vidas foram reduzidas a estatística, essa pequena vitória aproxima-se de uma forma de resistência.
No fim, fica uma imagem impossível de esquecer. Um rapazinho de Gaza a empurrar-se para além das cercas erguidas pela guerra, em direcção a momentos preciosos com os amigos, apenas para jogar o jogo que ama. Não é uma história sobre desporto. É uma história sobre o que resta do ser humano quando tudo o resto falha. E talvez seja precisamente por isso que dói tanto. Mohammed quer tão pouco, quer viver, recuperar, jogar, ser visto, e, ainda assim, o mundo continua a exigir-lhe demasiado.
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