sábado, 25 de julho de 2026

A guerra no ecrã e o silêncio das consequências

 

Vivemos um tempo em que a guerra deixou de se limitar ao terreno e passou a instalar-se no ecrã, nas redacções e na linguagem com que a política nos pede para aceitar o inevitável. A escalada das despesas militares é apresentada como destino, quase como uma lei natural, quando na verdade continua a ser uma escolha política, orçamental e moral, feita à custa de outras escolhas que deixam de ser feitas. É esse o grande logro do nosso tempo, transformar o rearmamento numa evidência e o questionamento numa excentricidade.

A comunicação social tem aqui um papel central. Em vez de manter a distância crítica que se exige ao jornalismo, muitas vezes limita-se a reproduzir a gramática da ameaça, dando palco quase exclusivo a vozes militares ou a especialistas em segurança que olham para o mundo através da lente da força, da dissuasão e da capacidade de destruir. O resultado é uma opinião pública educada para o sobressalto, mas desarmada para a reflexão. A guerra aparece como cenário técnico, quase limpo, e perde-se a dimensão essencial do drama humano, político e civilizacional que ela transporta.

Há nesta lógica uma espécie de pedagogia do medo que se alimenta de si própria. Quanto mais se fala de perigo, mais se legitima o aumento de despesa, mais se estreita o espaço para a diplomacia, mais se empurra a sociedade para a ideia de que não há alternativa. E, no entanto, a questão decisiva continua a ser sempre a mesma. O que se sacrifica quando se escolhe gastar mais em armas? O que se retira à saúde, à habitação, à educação, à ciência, à coesão social, quando o orçamento se inclina para a lógica da guerra?

Em Portugal, este dilema ganhou uma nitidez particular. O salto no investimento em defesa não foi apenas um ajuste contabilístico, foi uma alteração de prioridades com consequências reais, ainda que mal explicadas e mais mal debatidas. O problema não está apenas no valor gasto, está no modo como esse gasto é apresentado ao público, como se a obediência às metas atlânticas dispensasse discussão democrática e como se a segurança militar pudesse ser tratada à margem da segurança humana. Mas um país não se protege apenas com fragatas, mísseis ou aquisições sofisticadas. Protege-se também com hospitais funcionais, escolas qualificadas, habitação digna, instituições credíveis e uma cidadania informada.

É aqui que a narrativa dominante revela a sua fragilidade. Enquanto se insiste em falar de capacidades operacionais, de vectores estratégicos e de modernização dos meios, quase nunca se discute com a mesma energia o custo de oportunidade dessas opções. Quase nunca se pergunta quem beneficia, no plano industrial e económico, com esta aceleração do discurso e da despesa. Quase nunca se escrutina o modo como a proximidade entre media, poder político e sector da defesa molda o olhar público e afasta a dúvida. E, sem dúvida, não há jornalismo digno desse nome.

A verdade é que a guerra também se fabrica na linguagem. Fabrica-se quando a ameaça é exagerada, quando o conflito é simplificado, quando o medo substitui o pensamento e quando a normalização da violência passa a ser vendida como realismo. Contra isso, só existe uma resposta séria, que é recuperar o espaço da crítica, exigir transparência, recusar a hipnose militarista e lembrar que a segurança de uma democracia não se mede apenas pela sua capacidade de se defender, mas pela sua capacidade de não abdicar daquilo que a torna humana.

A pergunta, no fim, é incómoda, mas necessária. Estamos a armar-nos para proteger a vida em sociedade ou estamos, pouco a pouco, a aceitar que a guerra se torne a forma de o poder político administrar o medo?

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