quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Memórias do Moçambique colonial


O jovem agrónomo tinha sido transferido de Inhambane para Quelimane para chefiar a Repartição de Agricultura e Florestas da Zambézia e a Delegação da Junta de Exportação do Café. Cedo percebeu que a pompa se esgotava nos nomes dos cargos. Tinha de começar do zero, desde logo arranjar umas instalações dignas porque as que existiam eram num barracão dos caminhos-de-ferro e todas as manhãs, ele e os funcionários da repartição, limpavam os excrementos dos morcegos.

Já tinha construído tudo de raiz em Inhambane e no Mangorro, próximo de Inharrime, e voltaria agora a fazer em Quelimane e em Alverca, próximo do Gurué. Para o jovem agrónomo o importante era criar uma estrutura de apoio aos cafeicultores da Zambézia porque para as outras culturas já existiam as grandes companhias. O café era a única cultura que permitia aos pequenos agricultores libertarem-se dos monopólios da comercialização que existiam para produtos agrícolas como o chá, o algodão ou o sisal.

Para fazer o seu trabalho e atingir os objectivos, precisava de muita energia e paciência para lidar com as autoridades administrativas coloniais; em Quelimane com o governador do distrito da Zambézia, um funcionário civil da Metrópole em comissão de serviço; em Lourenço Marques com o governador-geral, um oficial de Marinha que partilhava com o jovem agrónomo as raízes madeirenses. Talvez para vingar as frustrações de tais relacionamentos, pôs alcunhas a ambos: o primeiro era o “Narciso” e o segundo, o “Fadista”.

Se não fossem as eleições presidenciais de 1958, a comissão do “Narciso” teria corrido sem sobressaltos e de Quelimane poderia ter descolado para voos políticos bem mais relevantes. Mas a candidatura de Humberto Delgado exigiu dele uma resposta para a qual não estava preparado e apesar do empenho com que tentou angariar votos para o candidato da União Nacional, este acabou derrotado na Zambézia.

Nas eleições do Estado Novo, os poucos eleitores votavam com os boletins que cada uma das forças concorrentes lhes entregava previamente. A grande dificuldade da oposição era fazer chegar às pessoas os seus boletins de voto. No entanto, em 1958, a oposição em Moçambique estava bem organizada e conseguiu fazer chegar aos sítios mais recônditos os boletins de voto no Humberto Delgado.

Em Ile, por exemplo, bem no coração da Zambézia, o “Narciso” esteve na sede da circunscrição três dias antes da eleição para avisar o administrador do trabalho de sapa da oposição e o administrador garantiu que tudo estava a correr bem, que ficasse descansado, só contava com 6 ou 7 votos da oposição. No entanto o administrador não imaginava que quase todos os funcionários da firma Monteiro & Giro, a maioria dos eleitores da região, iam votar no Humberto Delgado, isto apesar da gerência da firma lhes ter recomendado o voto no almirante Américo Tomaz e de terem prometido ao administrador que iriam cumprir a recomendação. Imagina-se o pânico do homem quando percebeu, durante o acto eleitoral, que afinal estavam a votar no Humberto Delgado e já nada podia fazer para o evitar!

Em Quelimane, o “Narciso” pediu ao jovem agrónomo que convencesse os funcionários da Repartição de Agricultura a votar e lhes entregasse os boletins de voto no almirante Américo Tomaz. O jovem agrónomo aceitou com a condição de também distribuir boletins de voto no general Humberto Delgado, o que naturalmente não foi aceite pelo “Narciso”. Apesar do revés na Repartição de Agricultura, o “Narciso” manteve-se confiante que a vitória era certa.

Depois das eleições e contados os votos, o “Narciso” passou um mau bocado. Como outros governadores dos distritos de Moçambique, teve de justificar a derrota do candidato da União Nacional. Todos apresentaram as suas razões em relatórios classificados para o governador-geral em Lourenço Marques, o “Fadista”, que depois elaborou sobre elas num relatório secreto para o ministro na metrópole.

No relatório de 14 de Junho de 1958 para o “Fadista” (as eleições foram a 8 de Junho), o “Narciso” escreveu: “Logo que se iniciou a campanha eleitoral, conferenciei com os Presidentes das Comissões Distrital e Concelhia de Quelimane e assentámos em que, com vista a permitir que a União Nacional, praticamente reduzida à organização de Quelimane, pudesse ter todo o tempo livre para trabalhar o eleitorado da sede do Distrito, o Governador se encarregaria de toda a restante área, mais se combinando que, mesmo em Quelimane, o Governador, junto das Chefias dos Serviços, das Direcções das Companhias e Empresas importantes e de mais pessoas influentes no meio com quem tivesse boas relações e em quem depositasse confiança pública, exercesse na medida do possível, a sua acção no sentido de se conseguirem eleitores para o candidato da situação.”

E concretizou: “Perdemos a eleição por uma diferença de 15 dos votos entrados e podemos, com a certeza de não nos enganarmos, atribuir este insucesso aos funcionários públicos, principalmente aos do Caminho de Ferro, Correios e Câmara, cuja grande maioria votou contra nós apesar de também a grande maioria deles ter prometido votar favoravelmente.
Como estes procederam muitos funcionários doutros sectores.
Quando, como no caso desta cidade, mais de 50% dos eleitores recenseados é constituído por funcionários públicos, melhor se poderá avaliar a delicadeza da eleição.
Se porventura se tivesse podido formar uma ideia correcta da verdadeira disposição dos funcionários, eu não teria hesitado em lhes falar directamente, sendo de admitir que, assim, das centenas de funcionários que votaram contra, convencesse pelo menos 15 e tantos bastavam para a eleição se não perder, a alinharem connosco.”

E fez o mea culpa:

“Por minha parte reconheço-me responsável de não ter tido a percepção da possível traição duma grande parte dos funcionários, que nos garantiu iriam votar connosco e que foram votar na oposição.
Se a tivesse tido creio que, poderia ter convencido quinze eleitores dos que nos foram desfavoráveis a votarem na lista da União Nacional.
Em último recurso ainda teria a solução, e tinha-a previsto em caso de necessidade, de fazer votar em Quelimane, por meio de certidões, 30 ou 40 eleitores seguros da Assembleia de Namacurra e Secção de voto de Inhassunge que para aqui faria transportar.
Fui atrás do que me disseram e garantiram e esta a minha culpa que não rejeito.”

O “Narciso” foi tão convincente que o “Fadista” escreveu no seu relatório para o ministro: “O (governador) de Quelimane trabalhou bastante, mas confiou infundadamente no eleitorado da sede do Distrito. Pediu a sua exoneração em consequência do resultado eleitoral em Quelimane, mas entendi não dever fazer subir o pedido, porque, se errou, foi sem intenção, e a dura lição deve ter-lhe aproveitado.”

E concluiu: “As últimas eleições, com todos os seus malefícios, tiveram o mérito de pôr em relevo vários pontos fracos da vida nacional, entre os quais, julgo, sobressai a “mentalidade” dos jovens diplomados universitários: advogados, médicos, engenheiros e professores do ensino liceal e técnico-profissional.”

O "Fadista" deixou o cargo no final de 1958 e no ano seguinte foi nomeado administrador por parte do Estado do Banco Nacional Ultramarino. O “Narciso”, aqui fotografado no exercício das suas funções oficiais, manteve-se em Moçambique e foi nomeado Secretário Provincial em 1960.

O jovem agrónomo foi transferido para Angola em 1959, depois da cultura do café ser proibida em Moçambique por despacho ministerial.

domingo, 22 de agosto de 2021

Lições da História

 


A velhice provoca frequentemente esta estranha sensação de que a História está a acontecer de novo, sempre como tragédia e farsa. É o caso da actual saída do poder norte-americano de Cabul, que me faz voltar a 1975, quando retirou de Saigão. Tenho consciência que a observação das duas situações foi e está a ser condicionada pelos mesmos filtros: em 1975, a circunstância de estar embarcado num navio da Marinha dos EUA e de passar a maior parte do tempo a navegar, fazia com que assistisse a filmes americanos quase diariamente e só visse e lesse a comunicação social produzida nos EUA; em 2021, a globalização faz com que continue a ver e ler notícias preparadas por agências dos EUA, embora assista a muito menos filmes, talvez por saturação.

Mas apesar dos filtros associados às circunstâncias, sejam eles os estereótipos instilados pelas notícias e pelos filmes e séries de guerra onde os bons são os heroicos marinheiros, soldados e aviadores americanos e os maus os guerrilheiros cruéis e os políticos locais, corruptos e incompetentes, que (des)governam populações dominadas por malandros, traficantes e prostitutas, e onde as cenas de guerra são quadros de êxtase; ou sejam eles os discursos dos responsáveis políticos dos EUA que com igual à vontade defendem o começo de uma guerra e, dezenas de anos, centenas de milhares de mortos e milhões de milhões de dólares depois, defendem o seu fim; é possível distinguir o que é diferente e o que é comum às duas intervenções americanas, no Vietname e no Afeganistão.

Como por agora só me interessa o que é semelhante, deixarei o que é diferente para outra altura. Comum às duas situações é a crença dos responsáveis políticos e de muitos cidadãos norte-americanos, instigada certamente pelo complexo militar-industrial dos EUA e de outras potências, de que as guerras que eles começam, terminam quando eles declaram o seu fim.

De facto, as guerras no Vietname e no Afeganistão resultaram da arrogância dos governantes dos EUA e da cumplicidade de dirigentes de todo o mundo e começaram quando foi do seu interesse político e económico. Mas quem pagou o maior custo em sofrimento humano foram as populações dos territórios onde foram feitas e nenhuma delas terminou com a declaração política do seu fim e com o espectáculo mediático da retirada das forças militares e do pânico dos que tentam fugir por qualquer meio.

Tal como a guerra do Vietname, a guerra do Afeganistão não terminará tão cedo para as centenas de milhares de refugiados que, tal como em 1975, os EUA e muitos outros países, não querem receber. Para esses refugiados a guerra, com todo o seu sofrimento, vai continuar por muitos anos porque os poderosos do mundo não querem aprender com as lições da História.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Recortes da História

 


Durante um largo período de 1975 e 1976 servi na corveta “António Enes” sob o comando do Comandante Francisco Félix de Lima Duarte Costa. Foram um Verão, um Outono e um Inverno politicamente quentes, primeiro no Continente e depois nos Açores, onde chegámos poucos dias antes do 25 de Novembro de 1975.
 
O Comandante Duarte Costa, com o profissionalismo, o rigor e a seriedade que todos lhe reconhecemos, preparou cuidadosamente a missão nos Açores, compilando toda a informação disponível sobre o arquipélago e a situação político-militar que lá se vivia. Uma das formas de o fazer foi criar uma pasta de recortes de jornais do Continente e dos Açores sobre o tema. Pois foi essa pasta de recortes de 1975 e 1976, de jornais tão díspares como o Diário de Lisboa e o Correio dos Açores, que o Comandante Duarte Costa, sabendo do meu interesse pelos Açores e as suas gentes, teve a gentileza de me oferecer recentemente.
 
Desde que o correio me entregou a oferta do Comandante Duarte Costa, não imaginam como me tenho deliciado com a leitura dos recortes da História vivida e observada a partir da "António Enes". Os recortes merecem outro tipo de tratamento, mas antes que seja possível fazê-lo, permitam-me citar apenas um detalhe da discussão sobre a autonomia político-administrativa dos Açores. É que 1975 foi o ano da discussão dos vários projectos de estatutos que acabaram por ser apresentados e discutidos na Assembleia Constituinte.

O primeiro projecto de estatuto de autonomia dos Açores foi elaborado e aprovado pelo núcleo de Ponta Delgada do PPD, onde pontificava Mota Amaral. Foi apresentado numa conferência de imprensa e publicado no Correio dos Açores ainda em Novembro de 1974. Posteriormente, em conjunto com outros projectos, um do MAPA (onde militavam órfãos do regime deposto) e outro do “Grupo dos Onze” (este viria a ser apresentado na Constituinte pelo MDP/CDE), foi debatido na "I Reunião Insular" (incluindo representantes da Madeira), realizada em Angra do Heroísmo em Março de 1975.

O projecto do PPD sofreu sucessivas alterações, mas na primeira versão desenvolvia os interesses autonomistas na área militar, avançando a ideia de que “as guarnições (…) de qualquer arma estacionada nas regiões autónomas deverão ser compostas exclusivamente por naturais delas”. Ainda bem que esta disposição desapareceu da versão apresentada pelo PPD na Comissão Parlamentar da Assembleia Constituinte, porque teria certamente originado uma guerra mais violenta do que a das bandeiras de 1980 e 2009.

A fotografia que escolhi para ilustrar este texto não é de 1975, embora nela apareça a corveta "António Enes" e o cais do porto de Ponta Delgada que tão bem conhecemos naquele Outono e Inverno. É uma foto actual, de Julho de 2021. Trata-se da rendição do NRP "António Enes" pelo NRP "Viana do Castelo", outro navio que também conheci bem, bastante mais tarde e noutras circunstâncias. É provável que ambos tenham açorianas e açorianos nas suas guarnições. Mas tal como a "António Enes" do Comandante Duarte Costa, neles estarão também embarcados portugueses de muitas outras regiões do país.

E ainda bem que assim é porque que se alguma vez alguém tivesse decretado que as guarnições dos navios estacionados nas diferentes regiões de Portugal deviam ser compostas exclusivamente por naturais dessas regiões, eu nunca teria embarcado em navios da Marinha Portuguesa.

sábado, 3 de julho de 2021

O paquete "Angola"



Camaradas do meu curso e do curso "AC" da Escola Naval assinalaram os 50 anos da travessia do Equador na “Sagres” no final de Junho de 1971. De facto, os cadetes e os aspirantes dos dois cursos atravessaram o Equador rumo ao Brasil e os que supostamente o faziam pela primeira vez, foram devidamente julgados e castigados pelo Rei Neptuno e a sua corte.

Não escapei de ser julgado, mas no meu caso pessoal, e certamente no de outros que nasceram ou viveram nas antigas colónias africanas, aquela não foi a primeira vez que atravessei o Equador num navio. A minha primeira vez tinha sido muito tempo antes no paquete “Angola”, no final de 1956, na viagem de regresso a Moçambique, depois de uma estadia na Metrópole para conhecer os meus avós maternos. A viagem de Lourenço Marques para Lisboa tinha sido feita de avião, mas o regresso foi por mar, no “Angola”.

O quarto navio de bandeira portuguesa, e terceiro paquete, com o nome “Angola” foi encomendado aos estaleiros R & W Hawthorn, Leslie & Co Ltd de Newcastle e entregue à Companhia Nacional de Navegação” (CNN) em Dezembro de 1948, para operar na carreira de África. Com o seu gémeo “Moçambique”, foram os primeiros paquetes portugueses equipados com motores diesel (2 motores “Doxford” de 6 500 HP cada), um salto significativo em termos de economia de exploração.

Em 1956 viajei com a minha mãe e a minha irmã de Lisboa para Luanda para nos reencontramos com o meu pai que estava a fazer um estágio sobre a cultura do café em Angola, com o objectivo de depois dinamizar a sua produção em Moçambique. Embora criança, tenho uma memória muito viva da vida a bordo do “Angola”, da festa de passagem do Equador e, principalmente, do trajecto entre Luanda e Lourenço Marques, depois do meu pai se juntar a nós.

Não há dúvida que as longas viagens de barco nos marcavam de uma forma indelével, em nada comparável com as de avião.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Retratos do Colonialismo Português

Desde miúdo que me lembro de ouvir falar do primeiro emprego da minha mãe na sede da Companhia de Diamantes de Angola na Rua dos Fanqueiros, na conhecida Diamang, e do seu patrão, o comandante Vilhena, o causador de alguns arrufos no namoro com o meu pai. É que o Capitão-de-fragata Ernesto Vilhena, um oficial de Marinha monárquico que foi ministro da República, administrador colonial e de muitas importantes empresas e bancos e próximo de Salazar, era um ditador que obrigava todos os trabalhadores a perguntar-lhe se determinava alguma coisa antes de saírem no fim do dia de trabalho, às 18 horas. O ritual trazido da Marinha fazia com que se formasse uma longa fila à porta do gabinete do patrão e a minha mãe, por mais que fizesse para ser das primeiras a despedir-se, acabava por fazer o meu pai esperar na porta do prédio quando a ia buscar ao emprego. Como o meu pai nunca gostou de esperar, o atraso involuntário acabava por provocar um amuo que só passava algum tempo depois.

Vem esta memória a propósito da primeira apresentação pública de parte do arquivo fotográfico da Companhia de Diamantes de Angola, a Exposição “O Silêncio da Terra: visualidades (pós)coloniais intercetadas pelo Arquivo Diamang”, na Galeria do Paço e no Museu Nogueira da Silva (Universidade do Minho) e patente ao público entre 30 de Junho e 10 de Setembro de 2021.

Trata-se de um acervo fotográfico impressionante que nos conta por imagens o que era na prática um Estado dentro do Estado colonial português. No território concessionado à Diamang na Lunda, os funcionários europeus gozavam de um regime privilegiado (a minha mãe trabalhou na secção de compras no final da década de 1940 e conta que nada lhes faltava, até túlipas eram importadas da Holanda para serem enviadas para a Lunda) enquanto o trabalho forçado dos africanos foi uma constante até finais da década de 1960. E não se verificava só na mineração, ocorria também nos campos agrícolas, onde mulheres e crianças trabalhavam para alimentar milhares de pessoas.

Das muitas fotografias da exposição, escolhi duas pelo seu significado particular. Na primeira fotografia é registada a visita de diplomatas belgas e do governador do distrito de Benguela a um dos sectores da mina. 



A segunda fotografia é da Estação Central de Escolha de Andrada e merece uma explicação mais detalhada.




Nas estações centrais de escolha, onde se separavam os diamantes dos outros resíduos de rocha, o trabalho era muito duro e os homens eram obrigados a lá permanecer sem contacto com o exterior durante três ou mais meses. Para impedir o roubo e o tráfico de diamantes, a vigilância era apertadíssima e os homens só deixavam a central ao fim de meses, nus e sujeitos a uma inspecção corporal rigorosa.

Pois a segunda fotografia é da visita à Estação Central de Escolha de Andrada, em 1951, do sociólogo Gilberto Freyre, o criador do luso-tropicalismo e do mito da benignidade da colonização lusa que a propaganda do Estado Novo adoptou a partir da década de 1950. Nela vemos o visitante a assistir, com outros convidados e funcionários da empresa, a um momento de lazer em que trabalhadores africanos dançam uns com os outros. Separa-os uma rede que parece transformar o pátio onde decorre o “baile” numa jaula.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

O meu Comandante



Digo muitas vezes que não sou um marinheiro competente por incapacidade própria porque a Marinha fez tudo para que frequentasse as melhores escolas e tivesse os melhores mestres. Uma dessas escolas foi o embarque, ainda guarda-marinha, na corveta “António Enes”, sob o comando de um grande mestre, o Comandante Francisco Felix de Lima Duarte Costa. Nos três anos da minha curta mas intensa carreira como oficial embarcado, servi sob as ordens de excelentes comandantes, mas se tivesse de escolher, não hesitaria em apontar o Comandante Duarte Costa como "O Meu Comandante".

Antes de nos reencontrarmos na “António Enes” em 1975, o Comandante Duarte Costa foi meu instrutor de armas submarinas e director de instrução numa das viagens de instrução na Escola Naval. Mais tarde, no início da década de 1980, convidou-me para fazer parte da sua direcção do Clube Militar Naval. Apesar de a engenharia me ter posto numa rota profissional diferente da do Comandante Duarte Costa, nunca deixou de ser uma das minhas referências como ser humano, como militar e como marinheiro. E o Comandante Duarte Costa deu-me sempre a honra da sua amizade, sentimento que é, naturalmente, recíproco.

Pois foi essa amizade que levou o Comandante Duarte Costa a oferecer-me a "Antologia de Crónicas da Vida no Mar", editada pela Colibri, onde João Freire e Carlos de Almada Contreiras recolheram e organizaram as crónicas e textos de 43 autores, na sua grande maioria oficiais de Marinha, sobre as suas vivências náuticas e os navios onde aprenderam a conhecer e respeitar o mar.  Lá está entre as memórias de muitos camaradas e amigos que li com um enorme prazer, a crónica do Comandante Duarte Costa com o inesperado título “Navio versus carro de bois”!

Na sua crónica, o Comandante Duarte Costa recorda o comando de um draga-minas da classe “São Roque”, de que fazia parte o “Ribeira Grande” onde o meu e outros cursos da Escola Naval aprenderam os conceitos de “deitar a carga ao mar” e “prumar à borda”, experiência de que me “vinguei” quando mais tarde fui responsável pelo seu desmantelamento após abate. E eu revi-me nos guardas-marinhas dos draga-minas a quem o Comandante Duarte Costa ensinou a fazer quartos à ponte e a afinar o “olho” e a prática de marinheiro.

É que embora eu já tivesse mais prática que os guardas-marinhas dos draga-minas, o Comandante Duarte Costa, nos quartos à ponte na “António Enes”, também me ensinou a fazer permanentemente “o ponto de situação das luzes que estavam à vista”, “a verificar sempre a variação da marcação dos navios na área, com a giro e o radar”, a não me esquecer que “mesmo que tivesse direito a rumo devia manobrar a tempo de evitar uma manobra de emergência” e “que existia sempre a possibilidade de, em qualquer momento, os navios alterarem o rumo que trazem, como sucedia, muitas vezes, com os navios e embarcações de pesca.”

Devo dizer que tudo o que aprendi e vivenciei na “António Enes” sob o comando do Comandante Duarte Costa, aconteceu num contexto interno de respeito rigoroso pelos valores e pela organização militares, o oposto da descrição que, num outro texto publicado no livro, um outro cronista faz da vida a bordo do mesmo navio, exactamente no mesmo período. É notável como passados quarenta e seis anos, duas pessoas que viveram a mesma realidade, podem ter memórias tão diferentes dessa realidade.

Ou talvez a explicação seja simples e esteja na resposta do marinheiro vigia que deixou o Comandante Duarte Costa completamente “desarmado”: “Nã, Senhor Comandante! Andar com um navio no mar nã é como andar com um carro de bois lá na minha terra!”

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Coelho à maneira da Avó Joana


O Senhor José da crónica de Mayone Dias era um caçador inveterado da Terceira que criava e utilizava furões, mais do que proibidos pela lei californiana, para continuar a caçar coelhos no Vale de San Joaquin. Caçava-os para os confeccionar em vinha d'alhos e comer acompanhado de um vinho da sua lavra, um repasto bem português que choca qualquer americano genuíno. E eu tive a prova disso em Monterey, quando a João decidiu servir “coelho à maneira da Avó Joana” a um casal americano.

As nossas avós eram exímias cozinheiras e por isso, quando fomos para Monterey, a João fez uma recolha das suas melhores receitas para podermos mais tarde matar saudades daqueles sabores. Uma delas foi o coelho feito pela Avó Joana, uma versão frita e refogada depois de generosamente temperada e marinada em vinha d’alhos. E apesar de eu ter avisado que o coelho não fazia parte dos hábitos alimentares dos americanos, a João decidiu fazer o saboroso “coelho à maneira da Avó Joana” para o primeiro jantar dos nossos sponsors em nossa casa.

O programa dos international sponsors da Naval Postgraduate School consistia, e julgo que ainda se mantém, na designação de militares americanos voluntários a frequentar a NPS, para apoiar os estudantes estrangeiros e respectivas famílias durante os primeiros meses de adaptação à escola e ao país. Para além da experiência pessoal, ser sponsor tinha contrapartidas para a carreira do militar americano, em especial se estivesse interessado em ocupar cargos de representação em países estrangeiros. Envolvia não só o militar, mas também o cônjuge. No nosso caso foi designado um jovem oficial da Marinha Americana que, com a sua mulher, eram o estereótipo do casal americano que víamos nos filmes: imaculadamente louros, sem o mínimo traço de ascendência latina, e muito simpáticos.

Lembro-me de nos convidarem para o tradicional Thanksgiving dinner e, em retribuição, convidámo-los para o tal jantar de “coelho à maneira da Avó Joana”. A João decidiu, estava decidido, e com a cumplicidade de outras portuguesas, arranjou os ingredientes e o coelho que partiu em pedaços, temperou e deixou em vinha d’alhos de um dia para o outro. No dia do repasto, fritou-o, refugou-o e preparou o acompanhamento, religiosamente de acordo com a receita da Avó Joana. Quando veio para a mesa, não podia cheirar melhor e faria salivar qualquer português que visse a travessa.

O problema é que estávamos na América com convidados americanos. O nosso simpático casal olhou para o bicho com cara de quem acabava de perceber que estava entre gente estranha que comia rabbits, uns pets tão simpáticos que nunca imaginaram comer. Contudo, aguentaram estoicamente (o dever assim o exigia) e cumpriram as suas funções: comeram o coelho que a João lhes serviu, sempre a sorrir, e no final agradeceram de acordo com as regras de cortesia.

Gafe maior do que o coelho que servimos aos nossos sponsors, só a sardinhada que suscitou o protesto de quem vivia num raio de uma milha da casa do meu camarada Carlos, uma vivência de que já dei conta noutra ocasião. Mas o sacrifício do simpático casal não foi em vão. Quando mais tarde me perguntaram a opinião sobre o seu desempenho, respondi para espanto do meu interlocutor: − Perfeito. Extremamente simpáticos e prestáveis e preparados para qualquer cargo no estrangeiro. Veja lá que até comeram coelho em minha casa…