sábado, 10 de outubro de 2026

É negócio, estúpido!



A forma como a alta geopolítica trata a União Europeia proporciona momentos de uma ironia quase cruel. Durante anos, cidadãos e empresas europeus foram exortados a fazer votos de castidade energética; fecharam-se as torneiras do gás e do petróleo russos, suportaram-se preços dos combustíveis que levaram o gasóleo a ultrapassar os 2 euros por litro na bomba, sacrificou-se a competitividade da indústria e engoliu-se um choque inflacionista sem precedentes. Em Bruxelas e nas capitais do continente, repetia-se, com solenidade moral, que cada cêntimo poupado na factura energética representava um dever cívico e uma vitória na contenção da máquina de guerra do Kremlin.

Contudo, a geopolítica real é pródiga em lições de pragmatismo perverso, e a ilusão europeia ruiu em pleno ano eleitoral americano. Pressionado pela inflação interna e pela subida vertiginosa do preço dos combustíveis às portas das eleições intercalares, Donald Trump não se deixou prender por escrúpulos morais e, perante a fúria dos seus eleitores, executou uma pirueta diplomática espectacular e fechou um acordo directo com Vladimir Putin para a importação de gasóleo russo. Ou seja, enquanto a União Europeia era obrigada a cumprir à risca o regime de sanções e a suportar a escassez de combustível, a Casa Branca contornava as suas próprias directivas para abastecer os automobilistas americanos com gasóleo vindo de Moscovo.

Para tornar o cenário ainda mais humilhante para a diplomacia europeia, este negócio do gasóleo surge em simultâneo com a pressão exercida por Washington sobre a Europa para que o G7 libertasse milhões de barris das suas reservas estratégicas de emergência, sob a ameaça velada de os EUA proibirem a exportação dos seus próprios produtos refinados para o Velho Continente. A Europa cedeu, abriu as suas reservas para acalmar os mercados globais e, como recompensa, viu o seu principal aliado fechar um pacto energético bilateral com o Kremlin.

Como se esta traição comercial não bastasse, o espectáculo atinge o seu auge satírico nos bastidores financeiros. Intermediários de topo — como Jared Kushner, genro de Trump, e Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e homem de confiança de Putin — dedicam-se a negociar a futura distribuição do abastecimento europeu. O plano, traçado em privado, prevê a entrada de investidores norte-americanos e de fundos do Golfo no consórcio do gasoduto Nord Stream, bem como a compra de activos globais da petrolífera russa Lukoil, garantindo que o gás e o petróleo voltem a fluir para a Europa, mas agora com uma generosa comissão de intermediação cobrada por magnatas americanos e russos.

O resultado desta peça teatral é uma verdadeira lição de ingenuidade estratégica. A União Europeia destruiu o seu modelo económico assente em energia acessível, suportou a austeridade e cumpriu religiosamente o papel de baluarte das sanções, apenas para ser tratada como o parente ingénuo de quem todos se aproveitam. No grande xadrez da energia, enquanto Trump garante o gasóleo russo para salvar a sua campanha eleitoral e investidores de Washington e Moscovo negociam a partilha dos lucros da futura infra-estrutura europeia, a Europa alcançou a triste proeza de ser o único jogador a pagar a conta, a cumprir as regras e a ficar sem energia nem influência à mesa do jogo.

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