Por mais que a diplomacia e a política internacional tratem a guerra com o cálculo frio dos bastidores, a realidade no terreno nada tem de ficção ou de espectáculo, pois todos os dias morrem pessoas reais, destroem-se famílias e ceifam-se vidas inocentes sob o fogo dos bombardeamentos. É perante o peso esmagador desta tragédia humana que o cinismo e a encenação dos vários actores globais se tornam ainda mais evidentes.
Em Moscovo, o Kremlin trata a destruição com uma frieza burocrática e desumana. Enquanto a propaganda de Vladimir Putin apresenta tudo como uma fatalidade da redistribuição geopolítica, no terreno essa narrativa traduz-se em mísseis e bombas guiadas contra edifícios residenciais e paragens de autocarro em Kramatorsk e Pryluky, na destruição deliberada da rede eléctrica para lançar milhões de civis no gelo do Inverno e na chantagem nuclear a partir de Kaliningrado. O sofrimento de todo um povo é transformado, sem qualquer escrúpulo, num instrumento de pressão sobre o Ocidente.
Em Kiev, no plano da liderança política, Volodymyr Zelensky e o seu governo travam uma batalha diária pela sobrevivência das instituições e do Estado, gerindo um país em ruínas e um sufocante défice orçamental de dezenas de milhares de milhões de dólares. Entre a dependência do apoio financeiro e militar externo e a necessidade de manter operacional a máquina de defesa — mobilizando tecnologia de ponta e novas estratégias no campo de batalha —, a liderança ucraniana enfrenta o desgaste de uma guerra prolongada, equilibrando-se entre as exigências diplomáticas internacionais e as crescentes tensões políticas internas, ilustradas pelas polémicas em torno de propostas pragmáticas de paz, como a do deputado Oleksiy Goncharenko.
Longe dos gabinetes do poder, para a população anónima ucraniana, a realidade resume-se ao luto diário e à dura luta pela sobrevivência física. Nas cidades sob bombardeamento, nas trincheiras geladas e nos lares destruídos, os cidadãos comuns enfrentam o trauma da perda de entes queridos, a interrupção abrupta dos seus projectos de vida e a incerteza quanto ao amanhã. É no quotidiano das famílias devastadas pelo conflito que a tragédia humana se revela na sua dimensão mais profunda e dolorosa, uma vez que a resiliência deixou de ser um discurso político para se tornar o único meio de sobreviver à devastação.
Do outro lado do Atlântico, em Washington, a tragédia humana é reduzida a linhas contabilísticas e à conveniência eleitoral. Para a administração Trump, o conflito é encarado como um encargo dispendioso de três mil milhões de dólares por mês, que faz disparar o preço dos combustíveis e irrita os eleitores antes das eleições intercalares. Sem qualquer constrangimento moral, a Casa Branca recusa-se a tratar o agressor como um pária, convida-o abertamente para cimeiras num resort de golfe na Flórida e envia emissários para negociar a compra de gasóleo russo e a partilha de lucros no consórcio do gasoduto Nord Stream e na petrolífera Lukoil.
No centro de Bruxelas e nas capitais da Europa Ocidental, os líderes liberais — de Friedrich Merz a Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen — envergam a armadura da virtude moral, enquanto prometem pacotes de armamento e a futura adesão à União Europeia. Contudo, essa mesma solidariedade revela os seus limites práticos no plano da política quotidiana, dado que o trigo e os produtos agrícolas ucranianos continuam a enfrentar restrições de acesso destinadas a proteger os mercados agrícolas de países como a França, a Polónia ou a Irlanda. Fica, assim, evidente que o apoio europeu vacila quando colide com a protecção das suas próprias economias.
Nas bancadas da extrema-direita europeia — da AfD alemã ao Reagrupamento Nacional francês e ao movimento de Roberto Vannacci, em Itália —, o sofrimento humano é encarado como um incómodo que deve ser rapidamente eliminado, cortando-se a ajuda a Kiev para recuperar o gás e o petróleo baratos de Moscovo. Já na extrema-esquerda e em certas correntes do pacifismo abstracto — representadas por figuras como Ségolène Royal ou Jean-Luc Mélenchon —, apela-se a uma mediação imediata através de discursos morais, esquecendo-se que exigir o fim dos combates sem garantias de segurança significa abandonar milhões de civis ao arbítrio de uma ocupação violenta.
Por sua vez, nos bastidores internacionais, mediadores como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e as potências do Sul Global, como o Brasil e a Índia, analisam o conflito à luz do seu impacto no comércio de commodities, nos fertilizantes e nos preços do petróleo, gerindo os seus próprios equilíbrios geopolíticos e económicos.
Perante esta teia de interesses, torna-se imperativo resgatar as iniciativas equilibradas e profundamente humanas que, no meio da devastação na Ucrânia, colocam a vida acima da propaganda. Destaca-se o trabalho imparcial do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), cujas equipas trabalham em Kiev e em Moscovo para apoiar mais de 18 mil famílias ucranianas e russas que vivem a angústia de procurar militares e civis desaparecidos na guerra. Ao cruzarem a linha da frente para fazer chegar dezenas de milhares de mensagens pessoais entre prisioneiros e as respectivas famílias, estas equipas recordam a verdade universal de que a dor de uma mãe ou o desespero de um filho que aguarda notícias não têm cor política nem nacionalidade.
Essa mesma humanidade transparece também em gestos locais, como o do soldado e voluntário Roman Chuhalov, que, na cidade de Oleshki — sitiada e sem electricidade nem água —, utiliza drones não para lançar explosivos, mas para fazer chegar pacotes de comida, medicamentos e pequenas cartas de encorajamento a milhares de civis isolados. A este esforço somam-se os alertas da Missão da ONU liderada por Danielle Bell, que insiste em documentar a tragédia das populações civis para impedir que as vidas humanas sejam reduzidas à designação fria de "danos colaterais".
A verdadeira e mais sombria lição a retirar da guerra na Ucrânia reside neste contraste devastador. Enquanto, nos salões do poder global, se trocam acusações, se delineiam estratégias de campanha e se negoceiam comissões no sector da energia, são as populações anónimas, os voluntários de socorro e as equipas humanitárias que preservam o único alicerce sobre o qual o futuro poderá ser reconstruído, ou seja, a certeza de que nenhuma causa política, nenhum ganho territorial e nenhum interesse financeiro justificam o sacrifício de vidas humanas inocentes.

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