Facto de viver, de ter vida; existência. Experiência de vida. Processo psicológico consciente no qual o indivíduo adopta uma posição valorizante, sintética, que não é apenas passiva e emocional, pois inclui também uma participação intelectual activa. O conhecimento adquirido através da experiência vivida. Não é lido, não é contado, é experimentado.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
O ardil da memória
segunda-feira, 21 de agosto de 2023
Lugares
Texto escrito e lido pela Catarina na despedida da Avó:
A árvore está enraizada no cimo de um monte perto de uma aldeia perdida no orgulho de quem por lá vive, caiando as casas, podando os pomares e canteiros, mantendo as ruas para que quem os visite, encontre um lugar acolhedor e belo.
Ao som dos sinos da pequena capelinha os netos sobem à vez para o baloiço artesanal pendurado na oficina da casa. O avô encontra em todos os objectos e pequenos seres uma forma de explicar a vida. A avó atarefa-se nos infindáveis afazeres domésticos, que dão ordem e paz ao dia-a-dia. Os netos vivem cada experiência como uma aventura inesquecível e percorrem os trilhos e montes, descobrindo infortunados sapos e frutos apetecíveis.
A casa tem uma adega, símbolo e memória de outros tempos, onde se pisavam as uvas de pés descalços e se cantavam músicas da terra para marcar compassos. Nas salas permanecem molduras imóveis com imagens imóveis de quem deixou marcas e foi marcado pela vida. Num corredor existe uma pequena porta com umas pequenas escadas até um pequeno sótão, onde de uma pequena janela surge, ao longe, a árvore enraizada no cimo do monte.
Quando a lua aparece e o sol se despede, os netos trepam o monte e sentam-se na copa da árvore. Ali encontram a serenidade do campo e o cheiro da terra. Partilham a descoberta da imensidão da paisagem visível a partir daquele lugar e sabem que, aquele é, apenas o início.
quinta-feira, 17 de agosto de 2023
A nossa força
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
Anamnese
terça-feira, 25 de julho de 2023
A minha Marinha
O programa “Sociedade Civil”, com o título “Operação
Crocodilo/Falcão”, transmitido pela RTP2 (Parte 1 e Parte 2), fez-me
regressar à Marinha que vivi intensamente até passar à Reserva, a meu pedido,
no início de 2000. O programa recordou a intervenção da força da Marinha na
Guiné-Bissau, com o objectivo primário de resgatar cidadãos portugueses
ameaçados pela guerra civil. Os protagonistas operacionais sabem melhor do que
eu descrever o episódio, mas confesso que mesmo passados 25 anos, mantenho
vivas algumas memórias daqueles dias de Junho.
Como o Almirante Melo Gomes lembrou, a operação foi possível
graças à prontidão dos militares e dos navios da Marinha. Mas a prontidão dos
navios naquele mês de Junho de 1998, num tempo que já era de indefinição das
políticas governamentais na área da Defesa, deu muito trabalho, disso tenho uma memória muito viva. A memória de quando chefiei o departamento
responsável pela manutenção de toda a esquadra de superfície.
Em 1998 vivíamos um tempo de “vacas esqueléticas”, com vários navios envelhecidos e um orçamento insuficiente para cumprir as missões da
Marinha, mesmo poupando no indispensável. Mas foi o ano em que tivemos de
aprontar a força naval que resgatou os cidadãos portugueses ameaçados pela
guerra civil na Guiné-Bissau; que tivemos de repor a capacidade de vigilância
do estuário do Tejo durante a Expo 98; que tivemos de trazer dos Açores e
recuperar a corveta Afonso Cerqueira, depois de um grave incêndio no Faial,
para citar apenas alguns dos desafios que enfrentámos.
Trabalhava dez, doze e mais horas por dia, com frequência
nos fins-de-semana e feriados, e comigo trabalhava a equipa que liderava. Sem
nenhuma remuneração adicional, fosse por horas extraordinárias ou qualquer
outro motivo. A única compensação que tínhamos era a satisfação de cumprirmos o
que a Marinha nos pedia.
Foi um período duro que permitiu conhecer a qualidade dos
homens e das então poucas mulheres da Marinha. Em especial dos que tinham
responsabilidades na resolução dos problemas nas áreas operacional e técnica.
Contactava com muita frequência, quase diariamente, com toda a hierarquia
superior da Marinha, desde o CEMA até aos que exerciam funções de comando e
direcção em terra e no mar, e sei bem como se fazia muito com muito pouco. Com
humildade e discrição, sem protagonismos e arraiais mediáticos.
Hoje, na reforma e muito afastado do dia a dia da Marinha,
posso ter uma visão errada da realidade actual. Mas que me parece muito
diferente da que vivi em 1998, disso não tenho qualquer dúvida.
quarta-feira, 14 de junho de 2023
Semear Abril
quinta-feira, 27 de abril de 2023
Abrilimagem
Disse Saramago que “nós estamos constantemente a (re)elaborar a nossa memória. Não quer dizer que a transformemos noutra coisa, não quer dizer que as transformemos em memórias diferentes, mas transformamo-las em memórias de memórias.” Foi o que senti quando o motor de busca do Google mostrou, por acaso, uma imagem que me fez recuar a Abril de 1980.
A imagem, mais propriamente a Abrilimagem, é de uma colagem de Marcelino Vespeira de recortes de cartazes da Dinamização Cultural e da serigrafia de António Inverno (o Vespeira marcou bem a diferença entre os dois objectos artísticos), criada para comemorar o 6º Aniversário do 25 de Abril. Foram impressas 150 serigrafias com 54x34 cm assinadas por Vespeira e 1000 miniaturas com 18x27 cm e legenda, tal como a reproduzida na imagem.
A Abrilimagem foi a primeira de uma série de serigrafias de grandes artistas, editadas pelo Clube Militar Naval para comemorar o 25 de Abril. As miniaturas foram entregues a quem veio festejar a noite de 24 para 25 de Abril nesse ano de 1980, nas antigas instalações do CMN no Marquês de Pombal.
Lembro-me particularmente bem das comemorações desse ano no CMN. Acabado de regressar de uma estadia de mais de dois anos nos EUA, fazia parte da recém-eleita Direcção. O Comandante Duarte Costa, meu professor na Escola Naval e meu comandante na corveta “António Enes” onde vivemos os tempos conturbados do Verão de 1975 no Continente e do Inverno de 1975/76 nos Açores, entendeu por bem convidar-me apesar de eu não ser um frequentador do CMN. Como é natural, aceitei sem hesitar e com o espírito de missão que ele me ensinou.
Se nunca fui dado a actividades sociais, naquela altura estava ainda mais afastado de tudo o que era o mundo político e artístico lisboeta e não sabia quem era quem na sociedade da época. Mais de dois anos a estudar na Califórnia, num tempo em que as comunicações em nada se comparavam com as actuais, era como viver noutra galáxia. De Portugal chegava apenas o que a família e os amigos escreviam, mas era inevitavelmente pouco.
Por isso, quando na noite de 24 para 25 de Abril de 1980 estive na porta do CMN, com outros camaradas da Direcção, a receber os convidados e a controlar as entradas de milhares de pessoas que queriam marcar presença no que então era o local mais “in” para celebrar o 25 de Abril, a maioria dos que entravam, muitos acompanhados de cortes numerosas, eram perfeitos desconhecidos.
Ao longo da noite apareceram os mais e os menos famosos, os mais e os menos importantes, os mais e os menos familiares dos famosos, os mais e os menos amigos dos importantes, e nós tivemos de arranjar maneira de evitar que um espaço que se encheu rapidamente nas primeiras horas, se tornasse ainda mais sobrelotado e perigoso. Muitos ficaram na rua e acabaram por desistir. Não sei se contou como marcação do ponto no evento, mas foi inevitável dadas as características do edifício.
Hoje não é fácil descrever o que então se passou. Só quem lá esteve tem ideia do fervor abrilista que muitos procuravam mostrar. E quem viveu essa noite de 1980, não de 1974 ou 1975, não pode deixar de sorrir quando mais de quarenta anos depois, ouve alguns dizerem que só se libertaram do poder dos militares em 1982. Se se sentiam oprimidos pelos militares, não se notava nada...
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| António Pedro da Silva Chora Barroso |
Só mais tarde reconheci a qualidade do seu trabalho. E fiquei com pena de não ter insistido que entrasse. Teria gostado de o ver actuar.










