Facto de viver, de ter vida; existência. Experiência de vida. Processo psicológico consciente no qual o indivíduo adopta uma posição valorizante, sintética, que não é apenas passiva e emocional, pois inclui também uma participação intelectual activa. O conhecimento adquirido através da experiência vivida. Não é lido, não é contado, é experimentado.
segunda-feira, 27 de junho de 2022
Os irmãos Kennedy, Salazar e Mondlane
quarta-feira, 8 de junho de 2022
(In)comunicação
domingo, 22 de maio de 2022
Originalidade ou continuidade?
Porque ocupei uma boa parte da vida profissional em actividades de aquisição e manutenção de navios militares, não podia deixar de notar as notícias que nos últimos tempos têm saído sobre a contratação da IdD Portugal Defence para gerir o programa de aquisição de seis novos navios de patrulha oceânicos (NPO) para a Marinha Portuguesa.
De acordo com uma resolução do anterior governo, de Junho do ano passado, foi autorizada a despesa de quase cinco milhões de euros do Orçamento do Estado para remunerar aqueles serviços da IdD Portugal Defence.
Em entrevista ao DN e à TSF no Dia da Marinha, o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) declarou que estava confortável com a resolução do Governo e considerou útil a ajuda da IdD Portugal Defence na “parte da contratação pública” e na “parte da gestão desses contractos”. E clarificou: “Vejo sempre com utilidade essas ajudas, não vejo que haja qualquer competição sobre as responsabilidades da Marinha, porque a Marinha está envolvida em muitos projetos neste momento.”
Compreendo a resposta do CEMA porque na verdade, no quadro legal que regula os programas de aquisição de novos navios, a Marinha tem pouca margem de manobra. Malgrado a experiência e a competência das suas direcções técnicas, julgo que únicas na administração e nas empresas públicas, os termos e a execução do processo de aquisição de novos navios são estabelecidos pelo Governo e Ministério da Defesa Nacional e a Marinha só tem de cumprir as tarefas que lhe forem atribuídas. Assim sendo, a questão que parece relevante é saber se a IdD Portugal Defence tem as capacidades e competências compatíveis com as responsabilidades que lhe foram atribuídas pelo Governo.
Depois de consultar o site da IdD Portugal Defence, fiquei a saber que é uma sociedade de capitais exclusivamente públicos com tutela conjunta do Ministério da Defesa Nacional e do Ministério das Finanças. Como não refere e não se conhece qualquer experiência ou competência daquela sociedade na gestão e acompanhamento de programas de aquisição de navios militares, procurei perceber como é que IdD Portugal Defence poderia acrescentar valor ao programa e maximizar o impacto positivo na economia nacional, tal como consta na resolução do governo.
Percebi então que os quase cinco milhões de euros do Orçamento do Estado servirão para mobilizar empresas onde o Estado Português tem participação assim como outras que integram a designada “Base Tecnológica e Industrial de Defesa” gerida pela IdD Portugal Defence, para apresentarem propostas para fornecerem serviços e equipamentos para os NPO.
A gestão de um programa de aquisição ou construção de navios militares (refiro militares porque são aqueles onde tenho experiência, mas julgo que com os comerciais se passa o mesmo) é um processo tão dinâmico, complexo e exigente que não se compadece com a partição de responsabilidades por diversas entidades. Quem dirigir tal processo, deve ser responsável por todos os seus componentes e a escolha das soluções técnicas e contratação dos respectivos fornecedores é um dos principais. A quem gere um programa (indivíduo, grupo ou entidade) devem ser definidos os requisitos dos navios, o orçamento, o prazo e o quadro legal e contratual do programa. Depois o gestor deve usar as suas capacidades, competências e autoridade para atingir o objectivo estabelecido para o programa, sem que possa atribuir a outros a culpa dos fracassos.
Por outro lado, se existe em Portugal uma “Base Tecnológica e Industrial de Defesa” constituída por empresas públicas e privadas, pareceria razoável que essas empresas se organizassem autonomamente e apresentassem soluções tão completas e coerentes quanto possível, que satisfizessem os requisitos do programa de construção dos NPO, com o menor risco para o comprador. Na solução adoptada afigura-se estranho o paternalismo do comprador, o Estado Português, ao tentar organizar os fornecedores, assumindo com isso riscos desnecessários e, provavelmente, ainda não avaliados.
Ao longo da minha carreira profissional, tive oportunidade de reflectir sobre a forma de dinamizar a indústria naval militar nacional e estudar as soluções adoptadas por outros países para a gestão e acompanhamento de programas de aquisição de navios. Contudo, devo confessar que não encontrei uma justificação semelhante à apresentada pelo Governo para contratar a IdD Portugal Defense.
Face ao que li, admito duas hipóteses: a primeira é que o governo descobriu uma solução original que vai revolucionar os procedimentos de aquisição de navios das Marinhas militares de todo o mundo; a segunda, talvez mais provável, é que o exíguo Orçamento do Estado Português continua a alimentar os grupos político-partidários que dominam a burocracia estatal, assim como as empresas e entidades públicas e privadas que sobrevivem à sua sombra.
terça-feira, 17 de maio de 2022
"A vingança do chinês"
Sabe-se que a História não se repete, mas será tolo quem não aprender com ela, em especial quando se vivem situações semelhantes às do passado.
A declaração conjunta de Xi Jinping e Vladimir Putin do
passado dia 4 de Fevereiro, a anunciar o que para os dois seria o fim da hegemonia
dos EUA sobre os destinos do mundo, lembrou‑nos o acordo de Mao com Estaline em
1950.
Na altura Mao era o mais fraco, foi pedir a bênção de
Estaline, meteu-se na guerra da Coreia e quem saiu por cima foi Estaline. Os
detalhes do processo só foram conhecidos muitos anos mais tarde quando foram
divulgados documentos secretos de um e outro lado, mas sabemos hoje que Mao se
sentiu atraiçoado por Estaline e que essa traição envenenou as relações
sino-soviéticas durante décadas.
As razões que levaram Estaline a fomentar a invasão da
Coreia do Sul terão sido as que constam de uma carta de Agosto de 1950, só
conhecida em 2005 : "envolver" os EUA numa guerra difícil e cara no
extremo-oriente e "distrair" a sua atenção da Europa Oriental, a
verdadeira preocupação de Estaline.
A resposta imediata de Truman e o empenhamento de forças
norte-americanas e chinesas na guerra da Coreia, sem que os soviéticos se
envolvessem directamente, permitiu que o objectivo de Estaline de distrair os
seus concorrentes principias, os EUA e a China, tenha sido temporariamente atingido.
O que Estaline não previu foi que a NATO, que antes da
guerra da Coreia era apenas uma ideia, se transformasse depois dela numa
poderosa estrutura militar liderada pelos EUA. E também não previu que a China,
setenta anos depois, se transformasse na potência que conhecemos.
Hoje, o mais fraco é Putin. Foi pedir ajuda a Xi Jinping,
invadiu a Ucrânia, aparentemente convencido que poderia vencer uma guerra de
agressão, o que actualmente é quase impossível. Os EUA responderam rapidamente
e desta vez não se envolveram directamente. E a NATO, que estava moribunda,
parece ter ressuscitado.
À semelhança do acordo entre Mao e Estaline, só daqui a
muitos anos saberemos o que se passou antes e depois da declaração de 4 de
Fevereiro. No entanto, arrisco a opinar que estamos a assistir à “vingança do
chinês”, levada a cabo com frieza, setenta anos depois.
E, aparentemente, dos intervenientes principais, só Putin não terá aprendido com a História. Bem, Putin e os que continuam a acreditar em dirigentes políticos que os usam e sacrificam como material descartável, sem qualquer valor.
quinta-feira, 12 de maio de 2022
50 anos do BA - Alocução ao Corpo de Alunos
Senhor Almirante Comandante da Escola Naval,
Oficiais e Cadetes da Escola Naval,
Camaradas do Curso “Almirante Baptista de Andrade”,
Quiseram as circunstâncias que só hoje, quase dois anos
depois da data devida, seja possível celebrarmos os 50 anos do nosso curso na
Escola Naval.
Os que em 1970 transpuseram pela primeira vez a porta de
entrada da Escola Naval e se juntaram a alguns dos que entraram um ano antes,
formaram o curso “Baptista de Andrade”. O BA, ao longo de quatro anos, foi
evoluindo com novas entradas e várias saídas, mas manteve sempre o essencial do
que influenciou decisivamente o que cada um dos nós é hoje.
Frequentar a Escola Naval, mesmo que por um curto período de
tempo como aconteceu com alguns de nós, é um enorme privilégio. Mas frequentar
a Escola Naval integrado num curso como o BA foi um privilégio ainda maior e,
por isso, independentemente da data em que o fazemos, celebrar os 50 anos do
nosso curso, na Escola Naval e sem as restrições impostas pela pandemia, tem um
significado especial para todos e cada um de nós.
Por isso o nosso sentido agradecimento a todos os que hoje
servem e estudam na Escola Naval por nos propiciarem este momento. Um momento
que gostaríamos que seja tão relevante para os cadetes do curso "Chefe de
Divisão da Armada Lopes da Costa e Almeida" como foi para nós convivermos
com elementos do curso que celebrou o cinquentenário no nosso primeiro ano na
Escola Naval. Conhecer oficiais como o almirante Ramos Pereira, um exemplo como
oficial da Armada e cidadão, ou o engenheiro Eduardo Scarlatti, um mestre da
cultura, foi uma experiência marcante para os cadetes do BA.
Como não podia deixar de ser, o BA foi influenciado pelas
condições históricas do País e da Armada nos anos que precederam o 25 de Abril
de 1974. E essas condições muito particulares fizeram de nós os militares que
fomos e os cidadãos que somos.
Na Escola Naval contrariámos as praxes e todas as formas de
abuso. Queixámo-nos de um professor incompetente e requeremos a repetição da
cadeira por ter sido mal-ensinada. Contestámos a forma como eram realizados os
embarques de instrução. Alterámos práticas tradicionais, propondo alternativas
nos órgãos próprios. Quando discordávamos das ordens que recebíamos, cumpríamos
e depois apresentávamos queixa formal.
Cada um de nós aprendeu na Escola Naval a valorizar o rigor
e a liberdade de pensamento e acção. Aprendemos com oficiais e professores que
souberam transmitir os valores e os princípios que devem nortear a profissão de
oficial de Marinha. Aprendemos com os Comandantes Silvano Ribeiro, Oliveira
Lemos, Freire Montez e o Engenheiro Mesquita Dias, para lembrar alguns dos
melhores entre os melhores.
Quando saímos da Escola Naval e nos lançámos no turbilhão da
vida, uns mais cedo que outros, seguimos caminhos muito diversos. Mas todos
procurámos cumprir o melhor que sabíamos e podíamos, exactamente porque foi
isso que nos ensinaram na Escola Naval. Para além das competências
técnico-profissionais, ensinaram-nos a ser cidadãos, a fazer escolhas e a
respeitar as escolhas dos outros.
Nem sempre fomos compreendidos e alguns foram penalizados por assumirem posições que entendiam coerentes com os valores e princípios aprendidos na Escola Naval. Mas todos, na Marinha e fora dela, fomos respeitados como profissionais e como cidadãos, precisamente por reconhecerem em nós esses valores e esses princípios.
Cadetes da Escola Naval,
Nesta celebração dos 50 anos do curso “Baptista de Andrade”,
permitam que expresse um voto singelo: Que a passagem pela Escola Naval seja
para vós tão fundamental e enriquecedora como foi para nós.
Viva a Escola Naval!
Viva a Marinha!
quinta-feira, 5 de maio de 2022
Chimbança
A avó Isabel, uma mulher extraordinária que à semelhança da
esmagadora maioria das meninas da sua geração foi condenada a uma baixa
escolaridade, sempre me impressionou pela forma como usava as palavras para
exprimir o que sentia. Tinha o dom invulgar de, nos momentos e nas
circunstâncias certas, usar palavras que só ela conhecia, sem que isso
diminuísse o respeito que suscitava nos interlocutores.
Não sabíamos se as inventava ou se as tinha aprendido com as
gentes das mais variadas origens que conheceu ao longo da vida. Lembro-me, por
exemplo, de a ouvir usar a palavra chimbança para se referir à altivez
ou prosápia de outros e estava convencido que seria um termo adaptado de um
dialecto moçambicano.
Só hoje, ao percorrer as páginas de um Vocabulário
Madeirense descobri que, afinal, o trouxe da sua terra natal!
segunda-feira, 2 de maio de 2022
Afinal havia outro
Esta de todos os anos andar a falar do 25 de Abril a jovens
dos oito aos oitenta anos, obriga a ter um cuidado especial com o rigor
histórico do que digo ou escrevo. Se é relativamente fácil falar do que vivi
directamente (mesmo assim é preciso cuidado porque a memória humana é
traiçoeira…), já falar de episódios em que não participei é muito complicado,
obriga a recolher os testemunhos dos vários participantes e tentar chegar a uma
narrativa coerente e historicamente tão rigorosa quanto possível. Neste
processo acabo sempre por ter de aprofundar questões e factos a que antes não
tinha dado atenção.
Este ano, no rescaldo da sessão comemorativa do 25 de Abril
realizada na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara em que o meu amigo
Diniz Borges evocou os valores de Abril e o cônsul de Portugal em San
Francisco, Pedro Perestrelo Pinto, lembrou o papel do seu avô no dia 25 de
Abril de 1974, fui questionado e obrigado a revisitar um dos muitos episódios
que marcaram aquele dia e eu não tinha dado atenção.
O avô do cônsul Pedro Perestrelo Pinto, que também se
chamava Pedro Pinto, mais exactamente Pedro Mourão de Mendonça Corte Real da
Silva Pinto, era o Secretário de Estado da Informação e Turismo do governo de
Marcello Caetano. De acordo com o esclarecimento que o cônsul Pedro Perestrelo
Pinto me enviou na sequência de um comentário meu a um post do Diniz
Borges sobre o evento na UC Santa Barbara, foi o seu avô que tomou a iniciativa
de contactar Spínola para apelar a que assumisse o poder, que fez a ponte entre
Spínola e Marcello Caetano que conduziu à transferência do poder e evitou,
segundo ele, a eclosão da violência cujo risco seria elevado. Tratava-se do Dr.
Pedro Pinto que vemos na imagem extraída de um documentário da CBS feito pouco
tempo antes do 25 de Abril, onde realçava o sentido de missão dos portugueses
que, mesmo sem mandato de ninguém, consideravam, na guerra em África, estar a
defender o Ocidente.
Até esta troca de correspondência, por desatenção minha, só
conhecia um mediador e negociador entre Spínola e Caetano, um outro Pedro
Pinto, Feytor de nome do meio. Percebi agora que este Pedro Feytor Pinto era
então director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado de Informação
e Turismo e, portanto, subordinado de Pedro Pinto, secretário de Estado de
Caetano e avô do Pedro Perestrelo Pinto, actual cônsul de Portugal em San
Francisco.
Lembrava-me de ter visto imagens do seu aparecimento no
Largo do Carmo com outro colega da Secretaria de Estado de Informação e Turismo
quando o Salgueiro Maia estava prestes a iniciar a demolição do quartel-general
da GNR a tiro de canhão. Lembrava-me também de ter lido entrevistas em que ele
assumiu o papel de interlocutor entre «revoltosos» e «fiéis», que terá levado à
rendição de Caetano no quartel do Carmo. A primeira de muitas, confirmei agora,
foi logo a seguir ao dia 25, a uma rádio dinamarquesa (?), tendo depois saído
no Século de 28/4/1974! Mas pouco mais sabia.
Claro que se eu tivesse dado importância ao que o Otelo
Saraiva de Carvalho e o Salgueiro Maia publicaram sobre o episódio e, muito em
especial, ao que o Rosado da Luz escreveu no livro “Operação Viragem
Histórica” coordenado pelo Almada Contreiras e editado pela Colibri,
saberia que afinal havia outro Pedro Pinto, o Secretário de Estado da
Informação e Turismo que orientou os seus emissários a partir do restaurante do
Grémio Literário onde tinha ido almoçar e não pôde sair porque o motorista que
o ia buscar foi mandado parar por uma autometralhadora da EPC. Revistado
enquanto a multidão gritava que deveria ser um agente da PIDE, foi-lhe
encontrada uma arma. E não fosse a intervenção do Rosado da Luz, que o mandou
ficar sossegado dentro do carro em frente à Bertrand durante 5 ou 6 horas,
poderia ter sofrido algum dissabor.
Sobre a saga dos Pedros Pintos não vou elaborar mais, mas
convido os interessados a lerem o excelente texto do Rosado da Luz, a partir da página 156 do
“Operação Viragem Histórica”. Asseguro que vale a
pena, quanto mais não seja porque está muito bem escrito. E para os que
quiserem conhecer a versão do outro lado, leiam o livro do António Maria
Pereira, futuro deputado do PSD na AR e membro do Comité Político da Assembleia
Parlamentar da OTAN, que estava no Grémio Literário com o Secretário de Estado
da Informação e Turismo de Caetano e conta alguns detalhes que não foram
contemplados pelo Rosado da Luz. Ficarão a conhecer todo o episódio e a
perceber como é que o Spínola, matreiro, jogou em todos os carrinhos e
aproveitou aquela oportunidade, entre muitas outras, para dar o golpe dentro do
golpe.
No entanto, não resisto a transcrever um pequeno excerto do
texto do Rosado da Luz: “Os regimes são sempre feitos por pessoas e as
pessoas aprendem e adaptam-se. Se as pessoas que detêm o poder forem as mesmas
ou tiverem os mesmos interesses, bem podem rebaptizar os conceitos, bem podem
mudar as palavras ou as formas, que os conteúdos, ou as realidades, não mudam.”
E achei interessante que no último parágrafo do seu
depoimento recorda a visita guiada que fez na manhã do dia 26 à sede da
DGS/PIDE, acabada de ser ocupada pelos fuzileiros, na companhia do Luís Costa
Correia. Uma outra saga de que só costumo falar em tertúlias reservadas com
amigos ou com pessoas interessadas que me convidam para isso.




