Esta fotografia aérea da Ribeira Velha, também conhecida como Portinho de Revez ou Porto do Meio, captada em 1936 ou 1937 numa maré baixa que deixa a descoberto o areal e o dorso rochoso da baía, abre diante de nós um retrato intenso da alma marítima de Peniche, como se o tempo ali tivesse ficado suspenso entre o sal, a pedra e a memória.
No centro da imagem, sobre o promontório rochoso que avança pelo mar, o Forte das Cabanas, fortificação seiscentista, ergue-se com a solenidade de uma sentinela antiga, guardando o porto de abrigo. No canto superior direito adivinha-se a imponência da Fortaleza, cidadela militar da vila, que então servia de depósito de presos e prisão de segurança máxima do regime do Estado Novo.
A longa rua pavimentada que acompanha o casario branco do lado direito da imagem conheceu, ao longo dos séculos, vários nomes e várias épocas. Foi Rua da Frontaria, Rua do Cais, Rua Conselheiro António José Enes, Rua Almirante Reis e Avenida Engenheiro José Frederico Ulrich, até passar a chamar-se Avenida do Mar em 1975. No tempo desta fotografia, era ao longo dessa artéria e nas rampas de pedra vizinhas que os pescadores estendiam ao sol as grandes redes de cerco, enquanto junto ao Forte das Cabanas se alinhavam os antigos armazéns e a lota do peixe, compondo um cenário de trabalho incessante e vida colectiva.
A linha de muralhas e estruturas defensivas edificadas durante a Guerra da Restauração, que delimitam a vila ao longo do lado direito da imagem, culmina no Forte das Cabanas e integra baluartes estrategicamente colocados para proteger a antiga vila de Peniche de Baixo contra os ataques vindos do mar.
A imagem revela ainda a complexa hierarquia da frota local, como se cada embarcação ocupasse um lugar preciso numa ordem antiga ditada pelo mar e pela necessidade. No racho central, dezenas de gamelas ou chalandras, pequenas embarcações rústicas de fundo chato com quatro a cinco metros, repousam a seco sobre a areia. Eram peças indispensáveis da engrenagem portuária, movidas a remos para transportar marinheiros, mantimentos e peixe fresco entre a praia e os barcos maiores. No areal intermédio distinguem-se embarcações de porte médio, como os batéis e as elegantes lanchas da sardinha, com treze a quinze metros, puxadas para terra para manutenção. Nas águas mais fundas do Portinho de Revez flutuam as grandes unidades da frota, entre elas as traineiras de cerco e os robustos caíques de traquete, que podiam atingir vinte e cinco ou trinta metros e já ensaiavam a passagem para a motorização.
A estrutura social de Peniche nas décadas de 1930 e 1940 assentava numa complementaridade económica rigorosa entre homens e mulheres, embora a narrativa oficial da época tendesse a empalidecer o peso real do trabalho feminino. A divisão de tarefas era nítida e moldava a vida de todos os dias. Os homens enfrentavam a dureza do mar alto, em noites de vigília e esforço hercúleo, sob o frio e as tempestades atlânticas, manobrando artes pesadas em barcos de madeira onde o perigo de morte era uma presença constante.
Em terra, as mulheres eram o motor da economia. Mal os barcos chegavam, tomavam sobre si a despesca, a triagem e o transporte das pesadas canastras. Enquanto os homens descansavam ou preparavam nova saída, as atadeiras de redes sentavam-se no cais soalheiro, visível na fotografia pelas longas tiras escuras de redes estendidas ao sol, para remendar com agulhas de madeira ou corno os estragos da faina. Fora do porto, eram ainda essas mulheres que garantiam o sustento da família, trabalhando nas fábricas de conservas ou entregando-se às rendas de bilros nos meses de inverno e de escassez, com uma persistência silenciosa que sustentava a casa e a comunidade.
No centro do formigueiro humano que dava ao cais da Ribeira Velha o seu pulso mais vivo, a azáfama comercial atingia o auge com o leilão do pescado fresco. Entre os comerciantes de peixe mais influentes e carismáticos da época destacava-se o avô José do Rosário Leitão, conhecido na gíria do porto pela alcunha de "Zé Baterremos". Homem de têmpera forte, possuía diversos prédios urbanos e antigos edifícios militares reconvertidos em armazéns de apoio na zona ribeirinha, sendo uma figura respeitada nas negociações de compra e venda.
Ao seu lado movia-se o indispensável ajudante Zé Raminhos, homem perspicaz que conhecia como poucos os segredos das marés e a qualidade do pescado. Era os olhos atentos e as pernas incansáveis de José do Rosário Leitão no cais. Corria ao encontro das gamelas que traziam o peixe, avaliava a frescura dos lotes e assegurava que as canastras de sardinha ou de espécies demersais nobres de alto valor, como o goraz, o pargo e o sargo capturados nas imediações das Berlengas, seguiam para a pesagem na lota. A dinâmica comercial gerida por estes intermediários era vital para abastecer a população local, os mercados urbanos de Portugal e de Espanha e ainda as indústrias conserveiras.
A aparente harmonia do quotidiano piscatório da Ribeira Velha escondia, porém, uma realidade de extrema precariedade e tensão social, muitas vezes em choque com a autoridade repressiva do regime do Estado Novo. No inverno de 1935, a miséria e a fome provocadas pela escassez de peixe e pelas duras condições de trabalho serviram de rastilho a um levantamento popular de proporções históricas, conhecido como a "Guerra das Espoletas" ou Revolta dos Mestres.
O conflito deflagrou a 12 de novembro de 1935, quando a Capitania do Porto de Peniche condenou dezenas de mestres e proprietários de traineiras a penas de prisão efectiva e aplicou multas exorbitantes aos armadores por infrações menores, confiscando ainda as licenças de pesca das embarcações durante um ano. A resposta da comunidade foi imediata. Na manhã de 13 de novembro, mais de mil pescadores, acompanhados pelas mulheres e pelos filhos, revoltaram-se contra as autoridades. Sob o grito desesperado de "Sem pesca não há pão", os manifestantes ergueram barricadas, cortaram as linhas telegráficas e telefónicas que ligavam a península ao continente e atacaram à pedrada as forças da Guarda Nacional Republicana para impedir a transferência dos mestres presos para a cadeia.
A repressão policial foi implacável. O confronto físico na zona do Juncal resultou na morte de Francisco de Sousa, um jovem marítimo local, e deixou vários feridos civis e militares. Cerca de 60 mestres foram levados sob custódia para a Cadeia do Limoeiro, em Lisboa, paralisando por completo a actividade piscatória de Peniche. Perante o bloqueio económico e a ameaça de fome generalizada na vila, o governo salazarista viu-se forçado a recuar. A 15 de dezembro de 1935, o Presidente da República, General Óscar Carmona, deslocou-se pessoalmente a Peniche para inaugurar as obras de melhoramento do porto de pesca e decretar a amnistia dos revoltosos, proferindo a célebre declaração de que "acima da lei está o coração humano", frase que ficou a ecoar como breve clarão de clemência num tempo endurecido pela repressão.
No entanto, a calma recuperada trouxe consigo um endurecimento do controlo político na região. Em 1936, na sequência desta e de outras revoltas populares, o regime converteu a histórica Fortaleza de Peniche, cuja muralha domina o flanco direito da Ribeira Velha na fotografia, numa prisão política de segurança máxima. A partir desse ano, a faina dos pescadores e as transações de peixe do José do Rosário Leitão e do Zé Raminhos passaram a decorrer sob a vigilância constante e cinzenta das sentinelas do regime, num contraste persistente entre o movimento livre do mar e o silêncio imposto das masmorras da ditadura.
A Ribeira Velha de Peniche em 1936 revela-se, assim, como um microcosmo de notável riqueza etnográfica e de grande complexidade social. Longe de ser apenas uma imagem de postal ilustrado, esta fotografia da zona ribeirinha fixa um tempo em que a sobrevivência exigia esforço colectivo diário e uma resiliência exemplar perante adversidades climáticas, económicas e políticas.
A herança cultural das atadeiras de redes e rendeiras de bilros, a audácia dos pescadores que enfrentavam o mar alto em barcos de madeira e a astúcia comercial de figuras como o avô José do Rosário Leitão e o ajudante Zé Raminhos constituem os alicerces sobre os quais se ergueu a Peniche moderna. Compreender este passado feito de suor, sal e resistência é essencial para reconhecer a identidade de um povo que, perante as provações da terra e os perigos do mar, sempre soube que a liberdade e o sustento batiam ao mesmo compasso do oceano.
Sem comentários:
Enviar um comentário