terça-feira, 22 de setembro de 2026

Não mudamos nada...




Sei que pouco mudamos ao longo da vida adulta. Podemos alterar as feições, perder o cabelo, ganhar barriga, mudar na aparência, mas no essencial, continuamos iguais ao que éramos aos 18 ou 20 anos.

Na Marinha conhecemos bem o fenómeno. Sempre que nos reunimos, passados 10, 20, 30, 40, 50 anos sobre a entrada na Escola Naval, repetimos as mesmas brincadeiras, fazemos as mesmas asneiras, dizemos as mesmas piadas, manifestamos as mesmas opiniões, tal e qual como no primeiro dia, na primeira semana, no primeiro mês que nos conhecemos. E o que tem piada é que nunca nos cansamos, e até gostamos, de voltar ao passado vezes sem conta.

Lembrei-me disto ao ouvir o discurso de Guterres hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou, falou, como sempre bem, e de entre tudo o que disse fixei isto: “A paz é o domínio do poder pela lei… Necessitamos de uma multipolaridade em rede, enraizada na Carta da ONU, onde a cooperação prevaleça sobre a força. O poder do direito tem de prevalecer sobre o direito do poder.”

Ao ouvi-lo hoje não pude deixar de regressar a 1968 e ao átrio do Técnico, quando andava a conhecer os cantos à casa e o Guterres veio ter comigo, disse que era da Juventude Universitária Católica e que necessitávamos de solidariedade, de esperança e de princípios morais para juntos superarmos as crises do nosso tempo e fazermos prevalecer a justiça e o direito sobre a força.

Perdeu o bigode, envelheceu, o cabelo embranqueceu e já não cai para a testa, mas continua a falar bem e a defender as utopias em que acredita. E eu, tal como há 58 anos, gostei de o ouvir, mas pensei cá para mim que não será por ali que a crise mundial vai ser resolvida.
De facto, no essencial, não mudamos nada…

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