sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Make America Great Again


Não sei se Trump tem consciência de quanto a linguagem que usa e o seu famoso sloganMake America Great Again” ecoam a retórica do Ku Klux Klan da década de 1920. Dada a sua proverbial ignorância, admito que não, mas para quem conheça a História, a ênfase no patriotismo agressivo e na restrição da imigração faz recuar 90 anos e voltar ao tempo da segunda encarnação do Klan, quando pregava e tentava impor a visão de uma América criada e dominada por brancos protestantes, abençoados pela virtude cristã e pelo orgulho patriótico. Uma América que rejeitava os católicos e os judeus, especialmente os imigrantes mais recentes que apelidava de estrangeiros. Uma América que via o novo fluxo de imigrantes, “mostly scum”, como uma horda perigosa que ameaçava a Nação Americana, que maculava a pureza da Cidadania Americana e destruía o verdadeiro Americanismo. Uma América que se opunha declaradamente à Igreja Católica.

Foi neste tempo que em Provincetown, na Nova Inglaterra, onde uma importante comunidade de imigrantes portugueses, maioritariamente originários dos Açores e de Cabo Verde, constituída por famílias numerosas de católicos devotos, o Klan encontrou terreno fértil para actuar. É que contra os Portugueses, para além do argumento religioso e ideológico, havia um outro: o racismo. Mesmo no poema inocente de Alma Martin sobre Provincetown, The Heavenly Town, a questão da cor é realçada:

“(...)
Dark Portuguese
From far-off seas
Their ships in bay
Pass time of day
(…)
Dark laughing boys,
Dark smiling girls,
With here and there a native son,
With blue eyes full of Yankee fun.
(...)”

Em Agosto de 1925, aproveitando a tensão entre Yankees e Portugueses, o Klan queimou uma cruz no adro da igreja católica de São Pedro, construída para o culto religioso dos imigrantes Portugueses.

O episódio não intimidou os Portugueses, antes pelo contrário. Organizaram-se no St. Peter’s Club a partir do qual dominaram o Knights of Columbus, uma organização fundada 40 anos antes para defender os direitos civis e religiosos dos Católicos. Paulatina mas firmemente, acabaram por afastar democraticamente dos órgãos de governo da cidade todos os Yankees simpatizantes do Klan.

Eu sei que hoje, noventa e tal anos depois, muitos portugueses e luso-descendentes nos EUA seguem o exemplo dos nossos compatriotas de Nova Inglaterra. Mas estranho que alguns outros se deixem encantar pelo discurso de Trump.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Uma geração de atraso


Em Portugal estamos sempre com uma geração de atraso!
Fala-se de incêndios e ouço que são precisos vinte e tal anos para termos uma floresta que lhes resista. Fala-se da seca e dizem-me que leva mais de vinte anos a criar plantações de espécies e variedades que resistam à escassez de água e às pragas trazidas pelas alterações climáticas.

De facto a história do homem mostra que o progresso sustentável se faz continuamente com a transmissão do saber e da experiência de geração para geração. E assumindo que uma geração dura em média os cerca de 25 anos necessários para que o pai esteja em condições de ensinar o filho, esse deveria ser o ritmo do nosso progresso. Um progresso em harmonia com a natureza, em que cada geração aprende com a anterior, acrescenta valor ao que recebeu e transmite tudo à seguinte.

Tenho para mim que assim é nos países desenvolvidos. Lembro-me de olhar para o interior das cápsulas espaciais americanas e reconhecer detalhes técnicos de equipamentos de navios americanos construídos no pós-guerra. Lembro-me de encontrar nas fragatas MEKO do final da década de 80, equipamentos e acessórios que conhecia das corvetas construídas na Alemanha na década de 60. A maioria dos sucessos empresariais nesses países resultam do esforço continuado de geração após geração, mesmo quando ocorrem alterações profundas na propriedade e no modo de operação dos meios de produção.

O desenvolvimento de um país faz-se por um processo contínuo de consolidação do que funciona e de inovação do que deve ser alterado ou recriado. A História mostra que não se faz com mudanças sociais e económicas abruptas que se tornam inevitáveis porque não se inovou e se mantiveram práticas erradas ou, mais frequentemente, porque são instrumento de poder. Em regra nessas mudanças, muitas vezes inspiradas em casos de sucesso noutras paragens, perde-se o que devia ser preservado e nem sempre os novos protagonistas têm o saber e a experiência para criar uma alternativa sustentável e adequada para as condições locais.

Infelizmente e salvo raras excepções, em Portugal prevalecem as mudanças abruptas e as rupturas nas organizações e entre gerações. É por isso que cada geração erra mais do que acerta e estamos sempre com, pelo menos, uma geração de atraso!

sábado, 16 de setembro de 2017

Memórias de 12 futuros



Quando vi esta fotografia chamei-lhe memórias do futuro porque representava os dois elementos fundamentais da vida do meu Pai, o essencial das suas futuras memórias: a prole que criou e fortaleceu, sempre de mãos dadas com a minha Mãe, o amor de uma vida e a companheira com quem percorreu os dias de sol e de chuva e pincelou com as mais variadas cores a vida dos outros; e o projecto profissional que o tornou conhecido mundialmente como um dos maiores cientistas no melhoramento genético do cafeeiro.

Há dois anos ficaram apenas as memórias. Deixaram de ser do futuro para serem de 12 futuros, tantos quanto o meu Pai tinha estabelecido, com a devida antecedência, como condição necessária e suficiente para partir.

Uma partida que não lhe deu tempo para brincar com o décimo segundo bisneto, mas estou certo que também ele voará como o bisavô. A genética tem destes caprichos.

E cada um dos 12 bisnetos saberá escolher uma rota no mapa daquelas memórias.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Parabéns, Mamã!



Um filósofo terá dito que tal como num conto, na vida não é a duração que importa mas a sua qualidade. Contudo a minha mãe conseguiu juntar a qualidade à duração e isso torna-a excepcional. Na realidade a vida da minha mãe é uma colectânea de múltiplos contos, todos eles excelentes, e um longo e belíssimo romance que durou sessenta e seis anos, sem contar com o extenso preâmbulo. 

Muitos, em circunstâncias diversas, participaram naqueles contos, partilharam a vida com a minha mãe. Ficaram sempre a ganhar porque, por herança genética e educação, a minha mãe tem uma qualidade que se sobrepõe a todas as outras, e são muitas: a permanente preocupação de ser útil aos outros, de ajudar os outros. A maior riqueza deixada pelos meus avós maternos foi terem ensinado, pelo exemplo, que o maior valor do ser humano é ser capaz de oferecer o que os outros necessitam, é sacrificar-se, estar presente e ajudar quando os outros precisam. E a minha mãe seguiu rigorosamente os seus ensinamentos em todas as circunstâncias. Preocupou-se em ser útil aos pais e ao irmão. Deu o melhor de si aos filhos. Inquieta-se com os problemas dos cinco netos e dos doze bisnetos. É a amiga com que todos sabem poder sempre contar. Essa é aliás a grande força e lição de vida da minha mãe: sentir-se feliz quando pode ser útil, seja a quem for!

Mas a grande obra, o mais belo romance que conheço, não foi protagonizada apenas pela minha mãe. Teve duas personagens centrais que foram, simultaneamente, os seus autores: a minha mãe e o meu pai. Foi uma narrativa longa, com muitos capítulos e personagens variados, em espaços geográficos tão diferentes como Moçambique, Portugal ou Brasil mas com um fio condutor bem marcado: o amor imenso entre as personagens centrais e a luta permanente pela dignidade e pelo bem-estar da sua família. Com situações dramáticas, sempre ultrapassadas pelo sacrifício, a cumplicidade e o esforço solidário dos dois. O meu pai dizia que a minha mãe era o seu anjo da guarda e nós sabemos que isso ficou provado em várias ocasiões. Mas a grande herança conjunta que nos deixaram foi o exemplo de uma união exemplar e feliz que sobreviveu, sempre mais forte, a todas as tempestades. Mesmo depois da partida do meu pai, a união dos dois mantém-se inalterável na mente e no coração dos filhos, dos netos e dos bisnetos.

Alguém disse que as nossas conquistas interiores modificam a realidade exterior. Não sei se é uma verdade universal mas, no caso da minha mãe, estou certo que a sua força interior, a sua vontade de melhorar o mundo, a sua presença, fazem com a vida de cada um de nós seja bastante melhor. É essa a sua maior riqueza e é esse o seu mais valioso legado.
É por isso que no dia em que celebra noventa anos lhe dizemos: ─ Parabéns, Mamã! Obrigado por tudo!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Desta vez será diferente?



Catástrofes como os incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra são, como as guerras, situações extremas que põem à prova a organização, a preparação, a maturidade e a capacidade de lutar e sofrer de um povo. São situações em que a competência e capacidade dos governantes, dos agentes do Estado e das organizações públicas e privadas, a forma como a sociedade está organizada e os padrões de comportamento social de cada cidadão, são testados numa dimensão que torna quase impossível mascarar a realidade. A força e a generosidade mas também as fragilidades, as carências e os erros ficam à vista de todos os que quiserem ver.

Ninguém no seu perfeito juízo deseja uma guerra ou uma catástrofe para avaliar a qualidade da uma sociedade. Mas quando elas acontecem com consequências trágicas para muitos, não retirar ilações e não melhorar o que deve ser melhorado em todos os sectores e níveis de responsabilidade dessa sociedade é também prova de pouco juízo. Tanto mais que em tempo de paz e ressalvando a área da saúde, a estrutura do Estado só muito raramente tem de demonstrar eficiência e eficácia. Desde que cumpram os mínimos que eles próprios definem e se protejam atrás das barreiras da burocracia, a esmagadora maioria dos agentes do Estado pode fazer uma carreira imaculada sem correr riscos e sem que o seu contributo para o progresso e bem-estar da sociedade seja avaliado.

Infelizmente, desde que há 14 anos passei a observar com mais atenção a questão dos incêndios florestais e da protecção civil por influência do Bouza Serrano e do Leal Martins, tenho dúvidas que a nossa sociedade tenha feito o necessário para se organizar e dar uma resposta eficaz aos sucessivos sinistros. Certamente há muita gente a fazer um trabalho sério mas a minha percepção é que também há muitos que aproveitam as circunstâncias para lucrar com o financiamento significativo, muito dele de fundos europeus, para a prevenção e combate dos incêndios florestais. É uma situação confusa que parece envolver múltiplos protagonistas (responsáveis da administração central e autárquica, técnicos de agricultura e de segurança, dirigentes de bombeiros, vendedores de equipamentos, agentes intermediários, etc.), que tiram partido em proveito próprio da ineficácia da burocracia estatal, da incompetência ou inacção dos técnicos responsáveis, da perversidade da legislação que regula as aquisições públicas e o ordenamento do espaço comum, da inoperância e falta de controlo dos serviços públicos e da impreparação, fragilidade económica ou comportamento menos cívico da população e dos proprietários dos espaços florestais.

Lembro-me de conversar com o meu pai aquando dos grandes incêndios que destruíram o pouco que restava da vegetação da serra de Montejunto. Falava-me ele da necessidade da presença dos técnicos junto dos agricultores, do apoio técnico e financeiro, da selecção correcta das espécies cultivadas, do emparcelamento, dos vários instrumentos de melhoria das condições técnicas e económicas da exploração dos terrenos. Falava-me também da importância da confiança dos agricultores e proprietários nos técnicos das autarquias e da administração central. Ele que sempre trabalhou para o sucesso dos agricultores, dizia que estes não eram ignorantes, que eram exigentes e tinham um espírito crítico muito bom, que não se lhes podia impingir qualquer solução. Se o técnico falhar uma vez, o agricultor nunca mais aceita uma proposta dele. Ora tanto quanto sei nem os serviços que poderiam ajudar os agricultores e proprietários são credíveis nem estes confiam neles.

Depois desta nova tragédia, assisto mais uma vez ao ruído mediático, à luta partidária, ao passa-culpas dos responsáveis, à formação de novas comissões de inquérito, à elaboração de novos relatórios e a outras manifestações que nos desviam do objectivo principal: aprender a lição e evitar novas ocorrências ou, pelo menos, responder melhor caso se tornem inevitáveis. Exactamente o mesmo a que assisti, ano após ano, durante 14 anos.

É por isso que duvido que desta vez vá ser diferente. E como eu gostava de estar enganado e que daqui a 14 anos os portugueses não estivessem a ouvir os discursos, os argumentos e as discussões que se repetem todos os anos, pelo menos desde 2003!

domingo, 25 de junho de 2017

Incêndios e Cidadania

18/06/2017



Nas últimas quatro décadas, uma cultura contra-natura promovida e posta em prática pelos que entendem que a espécie humana é apenas impulsionada pela ganância e o medo deixou a economia, e consequentemente a sociedade, de joelhos. Repetiram-nos até à exaustão os discursos de gente como Thatcher (não existe tal coisa como sociedade, há indivíduos, homens e mulheres, e há famílias!), dos seus seguidores ou da sua caricatura, o Gordon Gekko do filme Wall Street. Mas digam eles o que disserem, a espécie humana, tal como outros animais, sobreviveu em comunidades solidárias. A selecção natural produziu seres sociais e cooperantes que dependem uns dos outros para resistir, cujos cérebros estão em sintonia e os fazem sentir angústia com as angústias dos outros. É por isso que ao invés de colocar os indivíduos uns contra os outros, a sociedade precisa de enfatizar as dependências mútuas.
Que ao menos a tragédia nos ensine essa lição!


19/06/2017


E a natureza humana, não conta?
É certo e sabido. Ocorre uma tragédia, um desaire, um colapso e as comunicação e redes sociais são inundadas de depoimentos de especialistas que desfiam as razões e as culpas do sucedido. Se é um incêndio florestal, lá vem a monocultura, o desordenamento, a extinção de serviços, a desertificação rural. Se é uma crise financeira, lá vem a especulação mobiliária e imobiliária, os riscos irresponsáveis, a falta de regulação. Se é um ataque terrorista, lá vem a política de emigração, a falta de vigilância, o controlo de fronteiras, a restrição da liberdade. E sempre, seja qual for a calamidade, lá vem a incompetência, a ignorância, o compadrio dos governantes. Depois mudam os governantes, mudam os tempos, mas os problemas ocorrem de novo, exactamente pelas mesmas razões e com as mesmas culpas.
E eu, que até posso concordar com alguns diagnósticos, dou comigo a pensar: sendo o homem o actor comum em todas as ocorrências, será que o problema é mais profundo e pode estar relacionado com a forma como a sociedade moderna trata a natureza humana?
Dizem os cientistas que a nossa espécie de Homo sapiens se diferenciou das outras há pelo menos 200 mil anos. É muito tempo para que seja possível ignorar o resultado da selecção natural. Eu sei que os ideólogos sociais e políticos gostam de simplificar ou até negar a importância da natureza humana. Modelam a sociedade humana de acordo com os seus preconceitos e apresentam-na como uma projecção da sua vontade. E no último século, um número significativo desses ideólogos, deslumbrados com os avanços tecnológicos do último milénio, conseguiu impor o individualismo, o egoísmo, a competição, a ambição, o medo, a sobrevivência do forte à custa do fraco, como os únicos factores do progresso humano, como a essência da evolução da espécie humana. Há quem alvitre que essa evolução culminará na criação de uma nova espécie, a que até já chamaram de Homo deus.
Do que conheço sobre alguns exemplares do que poderá ser essa nova espécie, confesso não estar muito optimista quanto ao futuro longínquo. Mas estando eu apenas preocupado com o presente e o futuro próximo, prefiro observar a natureza da espécie que existiu pelo menos até há 199 mil anos e dos primatas que lhe são próximos. E concluo que a espécie humana é altamente social e cooperante, que procura estar em equilíbrio com a natureza, que protege os fracos, que não consegue viver apenas da competição, que não aceita e reage muito mal se é tratado de forma desigual relativamente a um seu semelhante, que se sente bem quando faz bem, que estabelece relações com base na empatia, na solidariedade e na reciprocidade, que age por contágio e imitação, que tende a ajudar e consolar o outro (quem tem crianças sabe que a melhor forma de obter a sua atenção é fingir chorar!). Claro que há o número mágico de 150 acima do qual as relações se complicam e por isso inventou as religiões que tentam estabelecer regras de vida em comunidades numerosas. O cristianismo viu o seu fundador executado e sofreu muitos desvios mas sobreviveu 2 mil anos e hoje tem um líder que é respeitado pela grande maioria.
Não estará na hora de avaliarmos os sistemas políticos e económicos em função da natureza humana e procurarmos os caminhos que a respeitem em vez de a violar?


20/06/2017

I




Só conheço uma forma de resolver um problema, seja ele grande ou pequeno. É estudá-lo até ao ínfimo detalhe, definir uma solução viável e trabalhar, trabalhar, trabalhar para a realizar. Sempre com a lucidez necessária para, em qualquer momento, corrigir o rumo ou, se for errado progredir, parar. No fim, discutir os resultados para os melhorar.
Tudo o resto é inútil e até prejudicial. Vindo de um ignorante, é patetice. Vindo de quem tem obrigação de conhecer o assunto, é falta de seriedade.

II

Perante o luto guardo normalmente silêncio. Por isso gostaria que o luto nacional fosse também de silêncio do cacarejar mediático.

III

Efeitos secundários do cacarejo mediático: queda de um avião espanhol que não caiu, morte de um piloto inglês que não morreu, censura de um responsável que não confirmou a queda do avião que não caiu. Se algum dos efeitos se agravar ou se detectar quaisquer outros não mencionados, evite a comunicação social e leia um livro.


22/06/2017

I


Ontem entretive-me a observar uma das ratazanas falantes que pululam no lixo televisivo nacional. Sem se preocupar muito com a opinião dos quatro comentadores convidados do programa, o pivô foi desfiando uma lista impressionante de escândalos, erros, maus negócios, etc., que, a propósito e a despropósito, associou à tragédia do incêndio de Pedrógão Grande.
A determinada altura mencionou o que para ele é uma característica natural dos políticos: a incompetência. E antes que um dos comentadores pudesse balbuciar a sua discordância, foi implacável: ─ O professor acha que políticos que estão à frente de Portugal desde o 25 de Abril são bons políticos, que não são incompetentes!?
Presumo que o indivíduo em observação entende que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não era político, já que a competência deixava muito a desejar. Eu que me iniciei nestas questões de catástrofes e de tragédias sociais ainda como estudante, ao ajudar em Alhandra as vítimas das cheias de 25 para 26 de Novembro de 1967, sei bem que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não primava pela capacidade de prever, evitar e combater os efeitos dos sinistros. A não ser que a competência fosse avaliada pela capacidade da censura alterar os títulos dos jornais de “centenas de mortos“ para “dezenas de mortos”, proibir referências ao cheiro dos corpos em decomposição, à miséria das vítimas, à ajuda dos estudantes, ao número total de mortos (o total oficial anunciado mais tarde foi de 470 mortos quando sabíamos que morreram mais de 700 pessoas), e por aí adiante. Sei também, porque ajudei a combater incêndios na zona do Oeste, que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não tinha grande competência nessa área. A prevenção e o combate eram feitos pelas populações locais sem qualquer ajuda ou coordenação das autoridades governamentais.
É certo que com o 25 de Abril, por muito que custe ao individuo em observação, passámos a escolher livremente os responsáveis políticos e passaram a existir “políticos.” Claro que não são todos competentes e sérios como eu gostaria mas são o reflexo do que somos como povo e como cidadãos. Quanto melhor formos como cidadãos, melhor serão os políticos que escolhemos.
É por isso que estou disponível para trabalhar, intensa e continuadamente, para ajudar a eliminar o nosso défice cultural e de cidadania. E é também por isso que lutarei sempre contra os saudosistas do obscurantismo e os inimigos da democracia.


II



A tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra trouxe à memória dois camaradas e amigos que já partiram e de quem tenho muitas saudades: o Manuel Bouza Serrano e o Joaquim Leal Martins.
Regressei a Abril de 2003, quando o Leal Martins foi nomeado para dirigir o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, resultante da fusão dos extintos Serviço Nacional de Protecção Civil, Serviço Nacional de Bombeiros e Comissão Especializada em Fogos Florestais. Bem ao jeito da tradição naval, um pequeno grupo de camaradas de outras guerras combinou um almoço em Carnaxide para lhe dar força e manifestar solidariedade.
E lembrei-me do Bouza Serrano, que conhecia por dentro o meio que chamávamos de “bombeiral”, dizer ao Leal Martins que lhe desejava toda a sorte do mundo mas que tinha aceitado uma missão muito difícil, senão mesmo impossível. De facto a nomeação do Leal Martins foi sempre contestada pelos barões do meio e não esperámos muito para ver confirmados os receios do Bouza Serrano.
Em Setembro, na sequência dos muitos e grandes incêndios que devastaram o país num Verão com condições meteorológicas excepcionais, provocando 21 mortos, a destruição de 425 726 hectares de floresta (8% da área florestal portuguesa) e a detenção de cerca de uma centena de pessoas suspeitas de fogo posto, o Leal Martins demitiu-se.
Catorze anos depois, vale a pena revisitar as discussões e os argumentos da época. As fragilidades do sistema de defesa da floresta contra incêndios mantêm-se, os discursos dos actores principais mantêm-se, os interesses nos negócios do “bombeiral” mantêm-se, o sacrifício das populações mantém-se, só faltam o Bouza Serrano e o Leal Martins para o almoço.


25/06/2017


Será um defeito de formação mas gostaria que a ministra falasse muito menos e tivesse dito apenas qualquer coisa como isto: Estive vários dias no local e já tenho uma noção do problema. Agora vou estudá-lo detalhadamente, com o apoio dos serviços do ministério, e dentro de dois meses apresentarei as conclusões a que chegar assim como um plano de acções correctivas.
Repetir o que ouviu de A, B e C, aparentemente sem filtro ou validação, esperar que uma comissão técnica especializada da Assembleia da República possa dar resposta a tudo, está muito longe do que entendo ser uma atitude responsável de um ministro.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O engenheiro que não gostava de Física e detestava Química


O meu neto está hesitante na escolha. Quer estudar engenharia mas como não gosta de Físico-Química e tem medo de baixar a nota, pondera outras áreas.
Compreendo-o porque também nunca gostei de Física e sempre detestei Química. O meu pai dizia-me que para se gostar de Físico-Química, ou de qualquer outra disciplina, digo eu, era importante ter tido um bom professor. No caso dele tinha sido fácil porque foi aluno do professor Rómulo de Carvalho no Camões. Eu não pedia tanto mas de facto nunca apanhei um professor que despertasse o interesse por aquelas disciplinas.
Apesar disso, julgo que a Físico-Química, embora sendo um empecilho, não condicionou as minhas opções académicas. Mas admito que tenham existido outras condicionantes.
Lembro-me que muito cedo pensei ir para o Técnico mas o meu pai, que era um homem que via sempre mais além do que nós, chegou à conclusão que ser oficial de Marinha seria um boa escolha profissional. Estruturou as suas razões e, paciente mas obstinadamente, procurou convencer-me que concorrer à Escola Naval seria a minha melhor opção.
Eu ouvia-o, reconhecia a força dos seus argumentos, e por isso, no momento decisivo, para além dos exames de admissão ao Técnico, fui fazer os exames e as provas de ingresso na Escola Naval. Os exames médicos e as provas físicas correram muito bem mas quando cheguei aos exames de Matemática e de Físico-Química, chumbei. Foi uma grande desilusão para o meu pai, tanto mais que na admissão ao Técnico tirei dezanove a Matemática, para compensar o treze a Físico-Química.
Eu bem tentei convencê-lo que os exames da Escola Naval eram mais difíceis que os do Técnico mas a minha mãe, que me conhece de ginjeira, tinha uma explicação muito mais simples: ─ Sempre fizeste e fazes o que queres, não adianta tentar convencer-te do contrário!
O meu pai depressa aceitou o desaire, lembrando-se certamente da desilusão da mãe quando, trinta anos antes, ele próprio tinha decidido ir para Agronomia e ser “engenheiro das nabiças,” na fala de uma mãe contrariada por o filho não ter ido para medicina ou engenharia civil.
E assim me matriculei em engenharia electrotécnica no IST e por lá andei dois anos, graças ao sacrifício dos meus pais. Se quanto à Física e à Química os ditados do Ilharco e as lagrangeanas do Sales Luís não ajudaram a melhorar a minha opinião, quanto ao resto a experiência universitária também não era particularmente interessante. Por isso, um dia, decidi anunciar aos meus pais, como se fosse a coisa mais natural deste mundo: ─ Amanhã vou à Escola Naval saber o que é preciso para concorrer outra vez. Apesar da surpresa, em especial do meu pai que já me imaginava engenheiro na Efacec, aceitaram a guinada e continuaram a apoiar-me. Não sei se o cenário idealizado inicialmente seria esse mas estou certo que, vinte e um anos depois, no seu dia de aniversário, o meu pai ficou muito feliz por estar comigo em Kiel, na cerimónia de “flutuação” de duas das fragatas da classe Vasco da Gama. Ele sabia que a construção daqueles navios era para mim o topo da carreira como oficial de Marinha engenheiro.
Voltando ao fio da história, o Dâmaso, o Oliveira ou o Lamas na Escola Naval, assim como os vários lentes estrangeiros na pós-graduação em Monterey, não modificaram o meu desamor pela Física e pela Química. Ganhei a cédula profissional de engenheiro mecânico, leccionei na licenciatura de naval do Técnico, convivi com a engenharia de software e do ambiente, mas a aversão original à Físico-Química manteve-se. Profissionalmente, fui e sou engenheiro mas nunca gostei de Física e sempre detestei Química!
Eu sei de fonte segura que os conselhos são para ser contrariados, mesmo que um dia concordemos com eles e se transformem em decisões próprias. Por isso, Tomás, aqui fica um para fazeres dele o que muito bem entenderes. Não deixes que o acessório, seja a Físico-Química ou outra coisa qualquer, condicione a tua vida. A vida é um caminho longo e as pedras e os buracos fazem parte dela. O importante é chegares ao destino que escolheres independentemente deles.