domingo, 14 de outubro de 2018

O combate



José Francisco Martins
(foto de 1921)

– Vi o projéctil cair e matar o Comandante, perto de mim!

Era assim, com frases curtas e poucas explicações, que o meu Avô se referia ao combate do “Augusto de Castilho” com o cruzador submarino alemão U-139, na madrugada do dia 14 de Outubro de 1918, a cerca de 170 milhas a SE da ilha de Santa Maria. O que para mim era fascinante, para o meu Avô era desagradável. Não gostava de lembrar o combate, e quando o fazia, pressentia nas suas palavras um misto de mágoa e revolta. Com o tempo percebi que aquele momento, o momento da morte do Comandante, o tinha marcado profundamente. Não só pela morte do Comandante Carvalho Araújo, mas também pelas suas circunstâncias e consequências.

O combate de mais de duas horas com o U-139 tinha terminado. O paquete “San Miguel” estava fora do alcance do submarino alemão, a peça de vante irremediavelmente avariada e as munições praticamente esgotadas. Tinha chegado o momento do Comandante se preocupar com a vida dos seus homens. Deu ordem de cessar-fogo e mandou arriar as embarcações para que a guarnição abandonasse o navio. O U-139 também interrompeu o fogo de artilharia contra o “Augusto de Castilho” e aproximava-se para a tradicional abordagem do arrastão da pesca do bacalhau adaptado a navio de guerra.

De repente, da peça de 47 mm de ré do “Augusto de Castilho” foi feito fogo sobre o submarino alemão. Em resposta, o U-139, a uma distância mais reduzida do que a que mantivera durante todo o combate, disparou uma nova salva de projécteis de 150 mm contra o “Augusto de Castilho”. Um deles atingiu mortalmente o Comandante Carvalho Araújo, que tombou a poucos metros do 2º artilheiro Martins.

Três anos antes, ninguém poderia prever que os destinos destes dois homens se cruzariam de forma tão dramática no meio do Atlântico. É certo que ambos tinham raízes em Trás-os-Montes, um em Vila Real e o outro em Chaves, mas essa parecia ser a única afinidade entre eles.

Quando o futuro 2º artilheiro José Francisco Martins nasceu na casa da avó materna em Chaves, já o cadete José Botelho de Carvalho Araújo tinha frequentado os preparatórios na Academia Politécnica do Porto e ingressado na Escola Naval. E enquanto o jovem José Francisco se fazia homem como marçano nas ruas de Lisboa, trabalhando na mercearia e na casa do patrão, subindo escadas de cabaz às costas para entregar produtos aos fregueses e estudando para ser empregado de comércio, o Tenente Carvalho Araújo, republicano convicto, maçon e livre-pensador respeitador dos direitos dos cidadãos, cumpriu uma carreira brilhante como oficial da Armada, esteve na preparação do 5 de Outubro de 1910, foi eleito deputado por Vila Real à Assembleia Constituinte da República, foi deputado do Congresso da República Portuguesa e fez parte da coluna expedicionária ao sul de Angola.

Em 1916 o José Francisco Martins decidiu que queria ir mais longe e assentou praça na Marinha de Guerra como voluntário. Atirador de 1ª classe, recebeu formação militar naval e instrução de artilharia até se apresentar a bordo do “Augusto de Castilho” no último dia de 1917, como 2º artilheiro. Enquanto isto, o Tenente Carvalho Araújo comandou um caça‑minas na defesa do porto de Lisboa e foi Governador do Distrito de Inhambane, em Moçambique, até ser nomeado para o comando do “Augusto de Castilho” em Agosto de 1918.

Presumo que o 2º Artilheiro Martins terá visto o 1º Tenente Carvalho Araújo entrar a bordo, terá conversado com outros elementos da guarnição sobre o novo Comandante, terá notado a fragilidade física resultante do seu estado de saúde. E estou certo que a partir daquele momento, o Tenente Carvalho Araújo passou a ser o seu Comandante, aquele a quem devia total obediência na defesa da Pátria, mesmo com o sacrifício da vida. Já por duas vezes, como artilheiro do “Augusto de Castilho”, tinha lutado contra submarinos alemães e era provável que tivesse de voltar a lutar dadas as missões de escolta normalmente atribuídas ao navio.

Embora só tenha servido dois meses sob o seu comando, o 2º artilheiro Martins foi consolidando admiração e respeito pelo Comandante Carvalho Araújo. Ouvi-o mais tarde afirmar por diversas vezes que o comportamento do Comandante foi sempre exemplar, em especial durante o combate com o U‑139.

Sobre o combate e a bravura do Comandante e da guarnição do “Augusto de Castilho” há também outros testemunhos claros e coerentes e sobre eles não persiste qualquer dúvida. No caso particular dos seis artilheiros do navio, houve quem afirmasse que se distinguiram, “entre toda a guarnição, pela energia, sangue frio e disciplina que mostraram durante todo o combate, não temendo abrir as culatras das peças ao falharem as escorvas, a fim de não haver interrupção no tiro”.

De facto, há precisamente 100 anos, um grupo de quase meia centena de portugueses cumpriu o seu dever em condições extremamente adversas, com o sacrifício da vida de alguns: do próprio Comandante, de outros cinco militares e de um civil. Antes de qualquer outra consideração, é o esforço e o exemplo da guarnição do “Augusto de Castilho” e a forma como cumpriu uma missão quase impossível nas condições extraordinariamente precárias do navio, que é importante realçar.

Mas a morte do Comandante Carvalho Araújo e as circunstâncias em que ocorreu, acabaram por influenciar a forma como a maioria dos participantes e sobreviventes do combate, e até o próprio Comandante Carvalho Araújo, foram depois tratados. Na narrativa que acabou por ser consagrada oficialmente e que sustentou a atribuição de condecorações e as promoções por distinção de alguns, parece que o heroísmo se concentrou nos doze elementos da guarnição que aportaram numa embarcação à Ponta de Arnel, no nordeste de São Miguel. Os outros, os que chegaram a Santa Maria no salva‑vidas do navio, foram transformados em participantes menos corajosos e pouco disciplinados, em figurantes menores de uma “narrativa trágico-marítima” com muita pompa mas circunstância pouco clara. 

Salva-vidas com os sobreviventes que arribaram à Vila do Porto, em Santa Maria

Foi assim que percebi o porquê do meu Avô, que se reformou em 1956 no posto de 1º Tenente, não gostar de falar do combate do “Augusto de Castilho”. Entendia que a história oficial do combate não era rigorosa e que ele e os outros vinte e nove sobreviventes que aportaram a Santa Maria no salva-vidas não foram tratados pela Marinha e pelo Estado Português com justiça.

Mas o carácter e a vida dura blindaram-no contra todas as injustiças e traições, viessem de onde viessem. Soube ultrapassá‑las e concentrar o seu melhor no que para ele era essencial: a dignidade e a honradez pessoal, o cumprimento do dever profissional e o bem-estar da família e dos muitos que procurou ajudar. Teria no entanto gostado de saber que em Janeiro de 1974, dois anos despois da sua morte, o Estado Português reconheceu que o 1º Tenente auxiliar da Armada José Francisco Martins se “notabilizou no combate naval travado em 14 de Outubro de 1918, na defesa do paquete “San Miguel”, e por isso concedeu à sua viúva “a pensão por serviços excepcionalmente prestados ao País.”

O que os homens comandados pelo Comandante Carvalho Araújo conseguiram na madrugada de 14 de Outubro de 1918 foi bem real e prevalece sobre todas as ficções, as boas e as más. Sem o esforço e o sacrifício daquele punhado de homens, a Margarida da Terra Clark Dulmo, ilustre tataraneta do capitão Fernão Dulmo, fidalgo da casa do Infante D. Henrique, e um bela criação de Nemésio, não teria viajado no “San Miguel”, conhecido o estudante de Coimbra e atirado ao mar o anel da serpente cega.

O combate com o U-139 não foi o combate de um homem nem de doze homens. Foi o combate com honra, para defender um paquete com mais de duas centenas e meia de pessoas a bordo, de todos os homens que estavam no “Augusto de Castilho” na madrugada do dia 14 de Outubro de 1918. Foi o combate levado a cabo por 45 militares e 4 civis, cada um com as suas qualidades e os seus defeitos, as suas forças e as suas fraquezas, as suas dúvidas e as suas certezas.

Cem anos depois, os descendentes de um deles, o 2º Artilheiro nº 5242 José Francisco Martins, sentem um imenso orgulho pelo seu feito e pelo seu extraordinário legado. E farão tudo para que o Pai, Avô, Bisavô e Trisavô, esteja onde estiver, se sinta orgulhoso deles.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A prenda


Palhais - Verão de 2018    (foto do Tomás)


“Anda passear, avô!”

Sim, vamos.
Ver os pássaros
procurar as rãs
visitar os dois pinheiros.
Subir à serra
descobrir os moinhos
perceber o fabrico do gelo.

Depois vamos falar do mar
de terras e povos distantes.
De abril e da liberdade
do sonho e da realidade
de gente boa
e dos carapaus de corrida.

Vou tentar lembrar-me
do que os teus outros avôs
me ensinaram.
Os nomes das plantas
enxertar uma árvore
ou ler as nuvens.

Mas acima de tudo
vou aprender contigo.

Parabéns, meu neto!

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Amor



O miúdo teria uns treze, catorze anos e a namorada era dois anos mais nova. Moravam no mesmo prédio em Lisboa mas nas férias grandes iam ambos para casa dos avós, ele para Palhais e ela para Peniche. Durante mais de três meses não se encontravam porque os cinquenta quilómetros entre a serra e o mar eram uma barreira intransponível. Bem, quase intransponível, porque para um adolescente não há impossíveis.

Como a namorada ia fazer anos e há meses não a via, o miúdo decidiu que seria uma boa oportunidade para lhe fazer uma surpresa. Depois de conseguir autorização para a viagem, o que não foi fácil, e de convencer um amigo a fazer-lhe companhia, antes do nascer do sol do dia 3 de Setembro, o dia de aniversário da namorada, o miúdo e o amigo prepararam o farnel, montaram as bicicletas sem mudanças e fizeram-se à estrada. Conheciam bem o caminho até ao Bombarral mas depois entravam no desconhecido. O maior obstáculo foi a subida até à Serra d'El-Rei mas a partir daí foi fácil e, não tardou muito, estavam a bater à porta da casa do Campo da Torre.

Foi uma grande surpresa para todos, em especial para a menina que se preparava para sair com a família. Iam passar o dia fora e tivessem os miúdos chegado uns minutos mais tarde, teriam batido com o nariz na porta e a viagem, tão bem planeada, teria sido um fiasco. Mas não, o objectivo foi plenamente atingido! É certo que não tiveram tempo para conversar mas a troca de olhares e o sorriso de felicidade da namorada, compensou todo o esforço.

Os miúdos despediram-se, foram à praia dar um mergulho, comeram o farnel à sombra de um pinheiro (sim esta estória é do tempo em que havia um pinhal em Peniche), dormiram uma sesta durante o pico do calor e fizeram-se à estrada para os cinquenta quilómetros de regresso a Palhais.

Cinquenta e tal anos depois, o miúdo continua a festejar o aniversário da namorada, mas agora com as filhas e os oito netos. E sem precisar de fazer 100 quilómetros de bicicleta!

sábado, 18 de agosto de 2018

A Raleigh preta roda 26


Marginal de Inhambane, 21.07.1957

Confesso que nunca me libertei completamente da imagem que em adolescente criei da Guarda Nacional Republicana. Para mim eram então os tipos fardados, pouco simpáticos, que andavam aos pares pelas estradas e caminhos rurais e que me pediam os documentos da bicicleta. Sim, leram bem, da bicicleta, porque naquele tempo não se podia andar de bicicleta sem documentos.

Por isso o meu avô, cumpridor escrupuloso da lei, levou-me um dia, a mim e à minha bicicleta Raleigh preta roda 26, à Câmara Municipal do Cadaval para registar o velocípede e tirar a respectiva licença de condução. Depois de ter provado que a bicicleta tinha sido adquirida regularmente e concluído com sucesso o exame teórico e prático de condutor perante o funcionário da Câmara  - mostrei que sabia os sinais de trânsito e fazia um oito sem me desequilibrar -, saí com o livrete e chapa da dita e com a licença de condução de velocípedes número qualquer coisa, com fotografia e tudo o que a lei exigia, sem esquecer o aviso: "Esta licença, passada de harmonia com o disposto no nº1 do art. 54º do Código da Estrada, deve acompanhar sempre o seu titular quando conduzir." Naturalmente que quando tal não acontecia, os guardas da GNR tratavam da autuação do prevaricador.

Bem, disse ter provado que a bicicleta Raleigh preta roda 26 tinha sido sido adquirida regularmente mas o rigor histórico exige uma clarificação. De facto a bicicleta foi adquirida regularmente em Inhambane pelos meus pais, em 1957. Mas quando cinco ou seis anos mais tarde fui com o meu avô  à Câmara do Cadaval, depois de uma mudança para Quelimane e outra para Portugal, já ninguém sabia do paradeiro do documento de compra. E sem ele, nada feito, a burocracia camarária não registava o velocípede!
A solução foi passar pela loja e oficina de bicicletas à entrada do Cadaval e pedir uma factura de venda da Raleigh preta roda 26, uma espécie importada de Inglaterra e muito rara nas terras da Metrópole. O dono amigo fez-nos o favor e lá fomos à Câmara, tudo para que a lei se cumprisse.

Mas mesmo devidamente habilitado, nunca me senti confortável quando era interpelado pelos guardas e tinha de mostrar os documentos e esperar pela conclusão da inspecção do velocípede. Pelo sim pelo não, procurava evitá-los, coisa que não era difícil porque uma rede informal de miúdos e graúdos que passavam a palavra: "Vem aí a Guarda!", controlava a ameaça com eficácia.

Depois percebi que a GNR tinha outras funções, umas sinistras como a repressão política ou a guarda da prisão de Peniche, outras pacíficas como a fiscalização do trânsito, mas a percepção original permaneceu até hoje.

sábado, 12 de maio de 2018

A Cidadania e a Fúria Desmatadora



No regresso do exercício matinal gostei de ver o grupo de jovens que limpava a mata junto ao Centro de Juventude de Oeiras. Desconheço as suas motivações assim como eles também não conhecem as razões do meu contentamento e muito menos a relação do seu acto com o que entendo ser o exercício pleno e bem-sucedido da cidadania.

Como já aqui disse, para mim a cidadania não é um código de boas maneiras, é uma relação de poder que envolve o povo soberano e todos os que, em seu nome, são chamados a governar, a administrar e a julgar. E nessa relação, o povo soberano que somos nós, cidadãos, perde sempre que os que são chamados a governar, a administrar e a julgar em seu nome, impõe a sua vontade contra os nossos interesses. É por exemplo o caso da fúria desmatadora que atingiu governo e autarquias depois da tragédia dos incêndios e que, no meu caso pessoal, obriga a abater pinheiros mansos que há décadas ajudei o meu pai a plantar. Tenho a certeza que o meu pai partilharia comigo a revolta pela destruição, em nome de uma muito suspeita política da floresta, da mata onde quis que depositasse as suas cinzas.

Mas também tenho a certeza que o meu pai ficaria tão contente como eu por ver a mata de Nova Oeiras ser poupada à loucura da desmatação nacional, ser bem preservada por um município que noutros locais não tem a mesma racionalidade e ser cuidada por um grupo de cidadãos jovens. É que foi ele que me ensinou que o exercício da cidadania é uma tarefa dura e que cada vitória, por mais pequena que seja, é conquistada dia-a-dia por cada um de nós, cidadãos deste país.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O exosqueleto




Confesso que no liceu detestava Camões. Descontando o episódio da Ilha dos Amores, que o pensamento medíocre do Estado Novo mantinha afastado dos adolescentes para que não fossem contaminados pela moral pagã, a análise da poesia de Camões era uma tremenda seca. Todos os esquemas eram válidos para lutar contra a ditadura do programa de Português, personificada na pobre professora. A libertação veio com a opção de ciências e os caminhos das engenharias.

Alguns anos mais tarde aprendi a gostar da poesia de Camões. Primeiro timidamente com João Villaret e Amália, depois convictamente com José Mário Branco e, naturalmente, José Afonso. Até que há dias vi um teste de Português do meu neto. As perguntas sobre o soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse” trouxeram-me memórias com mais de cinquenta anos e voltei a sentir a mesma aversão.

Tal como eu, o meu neto tenta sobreviver à provação. Na luta contra as velhas e sempre iguais questões da professora, usa novas e mais sofisticadas artimanhas mas o objectivo é infelizmente o mesmo: libertar-se de Camões e da sua poesia!

Mudaram os tempos mas não mudaram as vontades. Apesar de todas as mudanças do Mundo, parece que o ensino nas nossas escolas tem um exosqueleto cultural que limita o crescimento. E ao contrário dos artrópodes, não tem a capacidade de o substituir, de mudar de forma e de se adaptar a novos ambientes e objectivos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Não, não é Carnaval!



As notícias da passada terça-feira sobre buscas, constituição de arguidos, detenções, acusações, julgamentos, anteciparam duas semanas o Entrudo do meu descontentamento.

É certo que a gravidade dos pecados invocados deveria suscitar atitudes mais próprias da Quaresma, como o recolhimento, a meditação, a penitência, a conversão, que precedem a ressurreição e a vitória do bem e do injustiçado. Mas o circo mediático e das redes sociais, provavelmente inspirado pela fraca e ridícula América de Trump e das Fox e Breibart News, reduziu tudo a um patético cortejo carnavalesco de matrafonas, cabeçudos e zés-pereiras, onde as atitudes e as acções individuais ou colectivas, mais ou menos graves, são caricaturadas ao sabor das paixões, dos ódios e ressentimentos pessoais; e os populares, mascarados ou não, arremessaram uns aos outros toda a espécie de objectos repugnantes ou pestilentos, bem ao estilo de um Entrudo que tudo permite porque "É Carnaval, ninguém leva a mal!” e depois dele tudo é esquecido e volta à normalidade.

Não, não é Carnaval e a corrupção, o tráfico de influências, a fraude, o peculato, o recebimento indevido de vantagens, a ineficácia da justiça, a violência doméstica e nas escolas, as dependências dos jovens, a agressividade e a mortalidade nas estradas, o contágio perigoso de doentes nos hospitais, são realidades da nossa sociedade que devem ser levadas muito a sério. Devem ser investigadas e estudadas com o rigor e a clareza dos relatórios sobre o incêndio de Pedrógão e a violência doméstica, longe das paixões clubistas ou partidárias.

Tudo para que cada um de nós, cidadãos deste país, à sua maneira e na sua esfera de influência, deixe de ser um espectador inconsequente ou um lançador de atoardas e insultos e contribua para a melhoria da sociedade.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A lenda do rei republicano




─ Não precisamos de rei para nada cá em Portugal porque o nosso Presidente da República faz o papel de um extraordinário rei em qualquer parte do planeta!

Calma, a afirmação não é minha, tanto mais que não percebo nada destas coisas de reis e rainhas. Quem o afirmou foi o monárquico progressista José Albano Salter Cid de Ferreira Tavares, que seria barão se vivêssemos numa monarquia. Mais precisamente Barão do Cruzeiro.

Um outro monárquico, o Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança, disse um dia que fazia sentido comparar o progresso dos países europeus que têm reis e rainhas com o nosso atraso por sermos uma república. Mas hoje, no Portugal do presidente que faz de extraordinário rei segundo José Cid, é possível que tal comparação tenha deixado de fazer sentido. O povo português talvez tenha sido mais uma vez inovador e poderá ter juntado o melhor dos dois mundos num país que é uma república e tem um rei. Admito que assim seja mas vou esperar para ver. É que o José Cid já me desiludiu uma vez.

Lembro-me bem do que senti há cinquenta anos quando ouvi pela primeira vez “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, a primeira música criada por um português e cantada em português que o Em Órbita passou. Juntei logo uns trocos e fui à discoteca, era assim que então se chamavam as lojas que vendiam discos, comprar o primeiro EP do Quarteto 1111. O José Cid tinha de facto criado uma música de qualidade que parecia abrir um caminho novo. Depois voltou a compor e interpretar canções boas, muitas abordando temas interessantes que acabaram por espicaçar e ser proibidos pela censura fascista. Mas com o tempo meteu-se em macaquices e a promessa original esfumou-se.

Tal como na lenda que o Quarteto 1111 contou no seu primeiro êxito, podemos estar hoje a viver um novo Sebastianismo colectivo, dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Confissão



Está bem, eu confesso. Pedi e aceitei um convite para o jogo de despedida do Pelé no Maracanã! Se o MP português, ou quiçá brasileiro, quiser investigar possíveis ligações com decisões dos serviços que chefiei, tenho de aceitar.

É certo que posso invocar fortes atenuantes. Nunca fui ver jogos do Benfica ou de qualquer outro clube, aliás aquela ida ao Maracanã foi a única vez que entrei num estádio para ver um jogo de futebol. E não vi o jogo todo. Compromissos sociais em Copacabana fizeram com que o Bebé e eu chegássemos atrasados e não ocupássemos os lugares na tribuna de honra. Também não sei nada de economia ou finanças, não sou ministro de coisa alguma nem presidente de qualquer grupo da união europeia.

Mas as gentes do MP, tão ocupadas que estão com as centenas e centenas de casos de violência doméstica, podem não prestar a devida atenção às minhas circunstâncias. É humanamente compreensível.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Vergonha




"Eles pareciam pessoas normais, como tu e eu."

As conclusões do relatório de análise do homicídio em violência doméstica de uma mulher jardineira por um homem trabalhador da construção civil desempregado, ocorrido em 2015 em Valongo, são a imagem dura mas fiel da ineficácia do Ministério Público e dos valores e atitudes, individuais ou partilhadas, que perpetuam a violência e a discriminação na sociedade portuguesa.

Segundo o relatório, a actuação do Ministério Público, no decurso do inquérito originado por denúncia de violência doméstica apresentada pela vítima, não decorreu de acordo com os procedimentos que estão previstos na lei e ou em instruções que está obrigado a respeitar. Em concreto:
  • O atendimento da vítima foi efectuado por quem não tinha preparação técnica para o efeito;
  • O estatuto de vítima não foi atribuído nem foram prestadas informações sobre os apoios de que podia beneficiar;
  • A avaliação de risco da ocorrência de novos episódios de violência doméstica não foi efectuada;
  • Não foi desencadeada qualquer medida de protecção da vítima;
  • Não foram desenvolvidas diligências tendo em vista a ponderação da necessidade de aplicação de medidas de coacção ao agressor.

Desde que foi apresentada a denúncia por violência doméstica pela mulher, a 29 de Setembro de 2015, até à data da sua morte, a 4 de Novembro de 2015, dia em que prestou declarações no Ministério Público, decorreram 37 dias sem que tivesse sido impulsionada qualquer decisão quanto a medidas de protecção em benefício da vítima ou quanto a medidas de coacção a aplicar ao agressor

Sobre o tratamento noticioso do relatório e apesar deste denunciar duas falhas graves que facilitaram o homicídio da mulher vítima de violência doméstica, sem estabelecer qualquer hierarquia de importância, só a do Ministério Público é notícia na comunicação social. É significativo que o comportamento vergonhoso da comunidade em que a vítima e o agressor estavam inseridos não abra os noticiários nem esteja nos títulos dos jornais. Ainda de acordo com o relatório, embora os comportamentos do homem fossem do conhecimento de algumas pessoas da comunidade local em que a mulher e o homem se encontravam inseridos e com quem mantinham relacionamento pessoal, não há notícia de qualquer reacção no sentido de alertar ou sinalizar a situação junto dos órgãos de polícia criminal, do Ministério Público ou de qualquer entidade que pudesse apoiar a vítima.

Em Valongo, como no resto do país, a violência doméstica continua a ser entendida como uma questão íntima do casal, interior ao agregado familiar, silenciada e tacitamente aceite. Neste como em muitos outros casos que ocorrem diariamente em Portugal, os comportamentos de violência doméstica eram do conhecimento de pessoas que tinham relações próximas com a vítima e o agressor, sem que isso tivesse provocado qualquer efeito negativo para o agressor nem o desencadear de iniciativas que prevenissem o homicídio. Mesmo despois da sua constituição como arguido e depois dos factos provados, não sofreu qualquer tipo de rejeição social.

No período em que vítima e agressor se relacionaram, a violência doméstica sempre teve a natureza de um crime público e bastava uma denúncia feita por qualquer pessoa para desencadear a abertura de um inquérito e todos os instrumentos de intervenção e prevenção.

A instituição Ministério Público errou mas nós todos, como povo, também errámos. E continuaremos a errar se não alterarmos os factores socioculturais negativos que dominam a sociedade portuguesa.
É por isso que o combate à burocracia e à ineficácia da Justiça e o trabalho de desconstrução de crenças, mitos e estereótipos sobre a violência contra as mulheres são prioritários para quem deseja o progresso da sociedade portuguesa.

(Relatório aqui)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O jogo da bola


Jogar futebol, ou melhor, jogar à bola na rua ou no adro da igreja foi uma das minhas escolas na infância. Nela aprendíamos tudo sobre relações sociais: que havia habilidosos e aselhas, magros e gordos, pepe-rápidos e pés-de-chumbo; que uns jogavam calçados e outros descalços porque não tinham botas ou sapatos; que uns escolhiam e lideravam as equipas e outros eram escolhidos; que uns assumiam as consequências dos estragos nas casas dos vizinhos e outros fugiam; e que havia sempre o dono da bola, o tipo que tentava impor as regras!

Depois, à medida que o futebol passou a ser apenas negócio e competição entre adultos, sejam eles jogadores, adeptos, dirigentes, agentes e até pais de crianças candidatas a craques, desinteressei-me.

Hoje, quando o futebol é também uma fonte de instabilidade social instigada por dirigentes e meios de comunicação social irresponsáveis, voltei a interessar-me pelo fenómeno.
Desta vez para o censurar.

domingo, 3 de dezembro de 2017

O Pé-Leve




A imagem que guardo dele é de um homem muito grande e afável, de um bom gigante. Fez parte do meu universo de criança até aos 9 anos. Apesar da perna disforme, consequência da elefantíase, caminhava quilómetros com grande agilidade. Aliás essa característica valeu-lhe uma das alcunhas dadas pela minha avó: o Pé-Leve.

O Pé-Leve era o homem dos setes ofícios e das mil manhas. Por isso a minha avó também o chamava de Manha-Manha, talvez o tratamento que mais usava. A relação do Pé-Leve Manha-Manha com ela, e depois com o meu pai, merece uma explicação mais detalhada.

O Pé-Leve era natural de Inhambane e foi trazido para Lourenço Marques como cozinheiro pelo vizinho dos meus avós na casa da Anchieta. Mas para além da culinária, tinha muitos outros misteres, incluindo o de homem de Deus, pastor de uma igreja protestante. Estivesse onde estivesse, o Pé-Leve não passava despercebido, sempre activo e empreendedor, e talvez por isso criou laços afectivos muito fortes com a minha família paterna. Quando os meus pais foram para Inhambane, tinha eu poucos meses, pediu que o levassem. Apesar da incompatibilidade das suas manhas com o feitio do meu pai, este fez-lhe a vontade e arranjou-lhe um cargo na repartição de agricultura que foi chefiar.

De vez em quando o Pé-Leve, ou melhor, o Manha-Manha, pregava uma partida. Um dia o meu pai preparava uma das habituais deslocações à Malamba, perto de Inharrime, onde tinha instalado uma estação experimental com cerca de uma centena de funcionários, quando o Manha-Manha veio pedir boleia para ele e para a família, porque o Primo que lá trabalhava, está por esclarecer se Primo por parentesco ou nome próprio, tinha falecido. O meu pai disse que sim e indicou-lhe o local e a hora da partida. No dia seguinte lá estava ele, não com meia dúzia de familiares mas com um numeroso grupo que sobrelotou a caixa aberta da carrinha. O meu pai fez os cento e tal quilómetros por estradas e picadas miseráveis até à Malamba com um cacho de gente a dar cabo da suspensão da carrinha que tanto estimava, e mais tarde assistiu furioso aos festejos do funeral, bem regados com muita aguardente. Foi por isso que o Pé-Leve, ou melhor, o Manha-Manha, teve de penar muito até que o episódio fosse esquecido. Desde logo, ficou sem a boleia para regressar a Inhambane!

Quando seis ou sete anos depois o meu pai foi transferido para Quelimane, o Pé-Leve quis ir com ele. Apesar de não dominar o Chuabo, o dialecto da região, criou de imediato uma rede de contactos. Pediu autorização para usar a garagem da nossa casa para as suas celebrações religiosas e o que é certo que ali pregava para muitas dezenas de crentes que o iam ouvir.

E cedo criou nova família e descendência na terra do rio dos Bons Sinais. Quando o novo rebento nasceu, o Pé-Leve, ou talvez o Manha-Manha, baptizou-o, em honra do meu pai, de Engenheiro Aníbal Jardim Bettencourt. Assim mesmo, com título académico e tudo a que tinha direito!

O Rameloso


Aeroclube de Inhambane, 1951

Sempre que não engraçava com alguém, era certo e sabido, punha-lhe uma alcunha. Acontecia com todos mas muito em particular com os representantes do poder colonial. O governador-geral de Moçambique era o Fadista, o governador de Inhambane era o Rameloso, assim como mais tarde o de Quelimane foi o Narciso. Era assim que se referia a eles nas conversas com a mulher e os mais próximos.
Os amigos não estranhavam mas a mulher, cautelosa, avisava:
– Habituas-te a usar alcunhas e um dia ainda te sai sem quereres!
E de facto, o inevitável aconteceu.
Passeavam na marginal com um casal recém-chegado a Inhambane e ele, entusiasmado com a descrição da actividade profissional, começou a referir-se ao Rameloso para aqui, ao Rameloso para acolá, sem se lembrar que os interlocutores não faziam ideia de quem era tal personagem.
Até que um deles perguntou a medo, não fosse a pergunta ser interpretada como demonstração de ignorância:
– Mas quem é o Rameloso?
– É Sua Excelência o Senhor Governador – respondeu com toda a naturalidade, e continuou a conversa.

A foto de 1951 foi a única que encontrei com as duas personagens. O 1.º da direita, em pé, é o protagonista, o meu pai, e Sua Excelência o Senhor Governador, como manda o protocolo, ficou ao centro. Para além do governador, vemos o presidente e os pilotos do Aeroclube de Inhambane que assinaram o verso da fotografia.

domingo, 12 de novembro de 2017

Português universal



Para mim ser Português é sentir, como Miguel Torga, "dividido em cada sítio onde me encontro", ter "a alma inteira em parte nenhuma", sem nunca perder as referências. As minhas foram trazidas de Trás-os-Montes, da Madeira, da Estremadura, de Moçambique. Ganharam raízes em Lourenço Marques, Inhambane e Quelimane, em Lisboa, na serra de Montejunto e na península de Peniche. Revigoraram um pouco por todo o Mundo, na América, na Europa e na Ásia. Foram essas referências, revisitadas em múltiplas vivências, que deram o sentido da universalidade a um português como eu.

Um sentido da universalidade consolidado pela leitura da obra de Miguel Torga e Vitorino Nemésio, dois escritores e homens do Mundo que tão bem trataram os mais importantes regionalismos portugueses: a interioridade e a insularidade, ou acorianidade. Com os “Contos da Montanha” de Torga e o “Mau Tempo no Canal” de Nemésio, aprendi a relação entre o regional e o universal e como essa relação moldou o que somos como povo. Um povo para o qual o universal é o local sem fronteiras, que permanece igual no essencial esteja onde estiver, em Portugal, no Brasil, em França, nos EUA, em Angola, na Alemanha, em Timor, no Canadá, no Havai, no Luxemburgo ou nas Bermudas.

Um povo de mulheres como a Maria Lionça, a cachopa mais bonita, dada e alegre de Galafura que, como muitas mulheres da montanha, no meio do gosto do amor enviuvou com o homem vivo do outro lado do mar, que viu o filho abalar para Lisboa e fazer-se marinheiro, que o foi buscar a Leixões, a exalar o último suspiro, que se meteu no comboio com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, e subiu a serra para que dormisse o derradeiro sono na terra onde nascera. Um povo de homens como o padre João de Vilarinho, que disse ao Bispo que sabia haver outros mais finos que ele, que às fêmeas chamavam criadas e aos filhos, afilhados, mas que ele não largava a mulher, gostava dela, e filhos já tinha cinco e queria criá-los; que tudo fez para que o tragamundos Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras e sempre com desejos do mundo, quase fosse mordomo na festa da Senhora da Agonia.

Um povo representado pelo ti Amaro de Mirateca, trancador de baleias, duplamente universal como português e ilhéu atlântico sempre pronto a emigrar, que andou um ano no Arriôche (Oceano Glacial Árctico), três no Oeste Negrão (Mar das Antilhas) e dois nos Japanis (Mares do Japão), e que com os outros baleeiros contestou o arresto das canoas pela Justiça. E pela Margarida da Terra Clark Dulmo, ilustre tataraneta do capitão Fernão Dulmo, fidalgo da casa do Infante D. Henrique, que foi enfermeira de um criado pestífero, que atravessou o Canal numa canoa rebocada por um cachalote arpoado por caçadores picarotos, que falava com o povo no seu próprio dialecto, que foi madrinha tauromáquica terceirense e que acabou por casar com o pretendente menos interessante, o herdeiro do barão da Urzelina. E não fosse o meu avô transmontano e os homens comandados pelo seu conterrâneo Carvalho Araújo, não teria viajado no San Miguel, conhecido o estudante de Coimbra e atirado ao mar o anel da serpente cega.

Num tempo do patriotismo de lapela, é importante estudar as nossas raízes familiares e culturais e perceber o que somos e qual o nosso papel no mundo. E a ancestralidade descrita por Nemésio e Torga, ajudam-nos nesse processo. Compreender o ti Amaro e a Margarida é tão importante como compreender a Maria Lionça ou o padre João e o Firmo. Em todos o amor à terra é tão absoluto como a relação com a vastidão do mundo.

É isso que torna o Português universal.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Make America Great Again


Não sei se Trump tem consciência de quanto a linguagem que usa e o seu famoso sloganMake America Great Again” ecoam a retórica do Ku Klux Klan da década de 1920. Dada a sua proverbial ignorância, admito que não, mas para quem conheça a História, a ênfase no patriotismo agressivo e na restrição da imigração faz recuar 90 anos e voltar ao tempo da segunda encarnação do Klan, quando pregava e tentava impor a visão de uma América criada e dominada por brancos protestantes, abençoados pela virtude cristã e pelo orgulho patriótico. Uma América que rejeitava os católicos e os judeus, especialmente os imigrantes mais recentes que apelidava de estrangeiros. Uma América que via o novo fluxo de imigrantes, “mostly scum”, como uma horda perigosa que ameaçava a Nação Americana, que maculava a pureza da Cidadania Americana e destruía o verdadeiro Americanismo. Uma América que se opunha declaradamente à Igreja Católica.

Foi neste tempo que em Provincetown, na Nova Inglaterra, onde uma importante comunidade de imigrantes portugueses, maioritariamente originários dos Açores e de Cabo Verde, constituída por famílias numerosas de católicos devotos, o Klan encontrou terreno fértil para actuar. É que contra os Portugueses, para além do argumento religioso e ideológico, havia um outro: o racismo. Mesmo no poema inocente de Alma Martin sobre Provincetown, The Heavenly Town, a questão da cor é realçada:

“(...)
Dark Portuguese
From far-off seas
Their ships in bay
Pass time of day
(…)
Dark laughing boys,
Dark smiling girls,
With here and there a native son,
With blue eyes full of Yankee fun.
(...)”

Em Agosto de 1925, aproveitando a tensão entre Yankees e Portugueses, o Klan queimou uma cruz no adro da igreja católica de São Pedro, construída para o culto religioso dos imigrantes Portugueses.

O episódio não intimidou os Portugueses, antes pelo contrário. Organizaram-se no St. Peter’s Club a partir do qual dominaram o Knights of Columbus, uma organização fundada 40 anos antes para defender os direitos civis e religiosos dos Católicos. Paulatina mas firmemente, acabaram por afastar democraticamente dos órgãos de governo da cidade todos os Yankees simpatizantes do Klan.

Eu sei que hoje, noventa e tal anos depois, muitos portugueses e luso-descendentes nos EUA seguem o exemplo dos nossos compatriotas de Nova Inglaterra. Mas estranho que alguns outros se deixem encantar pelo discurso de Trump.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Uma geração de atraso


Em Portugal estamos sempre com uma geração de atraso!
Fala-se de incêndios e ouço que são precisos vinte e tal anos para termos uma floresta que lhes resista. Fala-se da seca e dizem-me que leva mais de vinte anos a criar plantações de espécies e variedades que resistam à escassez de água e às pragas trazidas pelas alterações climáticas.

De facto a história do homem mostra que o progresso sustentável se faz continuamente com a transmissão do saber e da experiência de geração para geração. E assumindo que uma geração dura em média os cerca de 25 anos necessários para que o pai esteja em condições de ensinar o filho, esse deveria ser o ritmo do nosso progresso. Um progresso em harmonia com a natureza, em que cada geração aprende com a anterior, acrescenta valor ao que recebeu e transmite tudo à seguinte.

Tenho para mim que assim é nos países desenvolvidos. Lembro-me de olhar para o interior das cápsulas espaciais americanas e reconhecer detalhes técnicos de equipamentos de navios americanos construídos no pós-guerra. Lembro-me de encontrar nas fragatas MEKO do final da década de 80, equipamentos e acessórios que conhecia das corvetas construídas na Alemanha na década de 60. A maioria dos sucessos empresariais nesses países resultam do esforço continuado de geração após geração, mesmo quando ocorrem alterações profundas na propriedade e no modo de operação dos meios de produção.

O desenvolvimento de um país faz-se por um processo contínuo de consolidação do que funciona e de inovação do que deve ser alterado ou recriado. A História mostra que não se faz com mudanças sociais e económicas abruptas que se tornam inevitáveis porque não se inovou e se mantiveram práticas erradas ou, mais frequentemente, porque são instrumento de poder. Em regra nessas mudanças, muitas vezes inspiradas em casos de sucesso noutras paragens, perde-se o que devia ser preservado e nem sempre os novos protagonistas têm o saber e a experiência para criar uma alternativa sustentável e adequada para as condições locais.

Infelizmente e salvo raras excepções, em Portugal prevalecem as mudanças abruptas e as rupturas nas organizações e entre gerações. É por isso que cada geração erra mais do que acerta e estamos sempre com, pelo menos, uma geração de atraso!

sábado, 16 de setembro de 2017

Memórias de 12 futuros



Quando vi esta fotografia chamei-lhe memórias do futuro porque representava os dois elementos fundamentais da vida do meu Pai, o essencial das suas futuras memórias: a prole que criou e fortaleceu, sempre de mãos dadas com a minha Mãe, o amor de uma vida e a companheira com quem percorreu os dias de sol e de chuva e pincelou com as mais variadas cores a vida dos outros; e o projecto profissional que o tornou conhecido mundialmente como um dos maiores cientistas no melhoramento genético do cafeeiro.

Há dois anos ficaram apenas as memórias. Deixaram de ser do futuro para serem de 12 futuros, tantos quanto o meu Pai tinha estabelecido, com a devida antecedência, como condição necessária e suficiente para partir.

Uma partida que não lhe deu tempo para brincar com o décimo segundo bisneto, mas estou certo que também ele voará como o bisavô. A genética tem destes caprichos.

E cada um dos 12 bisnetos saberá escolher uma rota no mapa daquelas memórias.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Parabéns, Mamã!



Um filósofo terá dito que tal como num conto, na vida não é a duração que importa mas a sua qualidade. Contudo a minha mãe conseguiu juntar a qualidade à duração e isso torna-a excepcional. Na realidade a vida da minha mãe é uma colectânea de múltiplos contos, todos eles excelentes, e um longo e belíssimo romance que durou sessenta e seis anos, sem contar com o extenso preâmbulo. 

Muitos, em circunstâncias diversas, participaram naqueles contos, partilharam a vida com a minha mãe. Ficaram sempre a ganhar porque, por herança genética e educação, a minha mãe tem uma qualidade que se sobrepõe a todas as outras, e são muitas: a permanente preocupação de ser útil aos outros, de ajudar os outros. A maior riqueza deixada pelos meus avós maternos foi terem ensinado, pelo exemplo, que o maior valor do ser humano é ser capaz de oferecer o que os outros necessitam, é sacrificar-se, estar presente e ajudar quando os outros precisam. E a minha mãe seguiu rigorosamente os seus ensinamentos em todas as circunstâncias. Preocupou-se em ser útil aos pais e ao irmão. Deu o melhor de si aos filhos. Inquieta-se com os problemas dos cinco netos e dos doze bisnetos. É a amiga com que todos sabem poder sempre contar. Essa é aliás a grande força e lição de vida da minha mãe: sentir-se feliz quando pode ser útil, seja a quem for!

Mas a grande obra, o mais belo romance que conheço, não foi protagonizada apenas pela minha mãe. Teve duas personagens centrais que foram, simultaneamente, os seus autores: a minha mãe e o meu pai. Foi uma narrativa longa, com muitos capítulos e personagens variados, em espaços geográficos tão diferentes como Moçambique, Portugal ou Brasil mas com um fio condutor bem marcado: o amor imenso entre as personagens centrais e a luta permanente pela dignidade e pelo bem-estar da sua família. Com situações dramáticas, sempre ultrapassadas pelo sacrifício, a cumplicidade e o esforço solidário dos dois. O meu pai dizia que a minha mãe era o seu anjo da guarda e nós sabemos que isso ficou provado em várias ocasiões. Mas a grande herança conjunta que nos deixaram foi o exemplo de uma união exemplar e feliz que sobreviveu, sempre mais forte, a todas as tempestades. Mesmo depois da partida do meu pai, a união dos dois mantém-se inalterável na mente e no coração dos filhos, dos netos e dos bisnetos.

Alguém disse que as nossas conquistas interiores modificam a realidade exterior. Não sei se é uma verdade universal mas, no caso da minha mãe, estou certo que a sua força interior, a sua vontade de melhorar o mundo, a sua presença, fazem com a vida de cada um de nós seja bastante melhor. É essa a sua maior riqueza e é esse o seu mais valioso legado.
É por isso que no dia em que celebra noventa anos lhe dizemos: ─ Parabéns, Mamã! Obrigado por tudo!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Desta vez será diferente?



Catástrofes como os incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra são, como as guerras, situações extremas que põem à prova a organização, a preparação, a maturidade e a capacidade de lutar e sofrer de um povo. São situações em que a competência e capacidade dos governantes, dos agentes do Estado e das organizações públicas e privadas, a forma como a sociedade está organizada e os padrões de comportamento social de cada cidadão, são testados numa dimensão que torna quase impossível mascarar a realidade. A força e a generosidade mas também as fragilidades, as carências e os erros ficam à vista de todos os que quiserem ver.

Ninguém no seu perfeito juízo deseja uma guerra ou uma catástrofe para avaliar a qualidade da uma sociedade. Mas quando elas acontecem com consequências trágicas para muitos, não retirar ilações e não melhorar o que deve ser melhorado em todos os sectores e níveis de responsabilidade dessa sociedade é também prova de pouco juízo. Tanto mais que em tempo de paz e ressalvando a área da saúde, a estrutura do Estado só muito raramente tem de demonstrar eficiência e eficácia. Desde que cumpram os mínimos que eles próprios definem e se protejam atrás das barreiras da burocracia, a esmagadora maioria dos agentes do Estado pode fazer uma carreira imaculada sem correr riscos e sem que o seu contributo para o progresso e bem-estar da sociedade seja avaliado.

Infelizmente, desde que há 14 anos passei a observar com mais atenção a questão dos incêndios florestais e da protecção civil por influência do Bouza Serrano e do Leal Martins, tenho dúvidas que a nossa sociedade tenha feito o necessário para se organizar e dar uma resposta eficaz aos sucessivos sinistros. Certamente há muita gente a fazer um trabalho sério mas a minha percepção é que também há muitos que aproveitam as circunstâncias para lucrar com o financiamento significativo, muito dele de fundos europeus, para a prevenção e combate dos incêndios florestais. É uma situação confusa que parece envolver múltiplos protagonistas (responsáveis da administração central e autárquica, técnicos de agricultura e de segurança, dirigentes de bombeiros, vendedores de equipamentos, agentes intermediários, etc.), que tiram partido em proveito próprio da ineficácia da burocracia estatal, da incompetência ou inacção dos técnicos responsáveis, da perversidade da legislação que regula as aquisições públicas e o ordenamento do espaço comum, da inoperância e falta de controlo dos serviços públicos e da impreparação, fragilidade económica ou comportamento menos cívico da população e dos proprietários dos espaços florestais.

Lembro-me de conversar com o meu pai aquando dos grandes incêndios que destruíram o pouco que restava da vegetação da serra de Montejunto. Falava-me ele da necessidade da presença dos técnicos junto dos agricultores, do apoio técnico e financeiro, da selecção correcta das espécies cultivadas, do emparcelamento, dos vários instrumentos de melhoria das condições técnicas e económicas da exploração dos terrenos. Falava-me também da importância da confiança dos agricultores e proprietários nos técnicos das autarquias e da administração central. Ele que sempre trabalhou para o sucesso dos agricultores, dizia que estes não eram ignorantes, que eram exigentes e tinham um espírito crítico muito bom, que não se lhes podia impingir qualquer solução. Se o técnico falhar uma vez, o agricultor nunca mais aceita uma proposta dele. Ora tanto quanto sei nem os serviços que poderiam ajudar os agricultores e proprietários são credíveis nem estes confiam neles.

Depois desta nova tragédia, assisto mais uma vez ao ruído mediático, à luta partidária, ao passa-culpas dos responsáveis, à formação de novas comissões de inquérito, à elaboração de novos relatórios e a outras manifestações que nos desviam do objectivo principal: aprender a lição e evitar novas ocorrências ou, pelo menos, responder melhor caso se tornem inevitáveis. Exactamente o mesmo a que assisti, ano após ano, durante 14 anos.

É por isso que duvido que desta vez vá ser diferente. E como eu gostava de estar enganado e que daqui a 14 anos os portugueses não estivessem a ouvir os discursos, os argumentos e as discussões que se repetem todos os anos, pelo menos desde 2003!

domingo, 25 de junho de 2017

Incêndios e Cidadania

18/06/2017



Nas últimas quatro décadas, uma cultura contra-natura promovida e posta em prática pelos que entendem que a espécie humana é apenas impulsionada pela ganância e o medo deixou a economia, e consequentemente a sociedade, de joelhos. Repetiram-nos até à exaustão os discursos de gente como Thatcher (não existe tal coisa como sociedade, há indivíduos, homens e mulheres, e há famílias!), dos seus seguidores ou da sua caricatura, o Gordon Gekko do filme Wall Street. Mas digam eles o que disserem, a espécie humana, tal como outros animais, sobreviveu em comunidades solidárias. A selecção natural produziu seres sociais e cooperantes que dependem uns dos outros para resistir, cujos cérebros estão em sintonia e os fazem sentir angústia com as angústias dos outros. É por isso que ao invés de colocar os indivíduos uns contra os outros, a sociedade precisa de enfatizar as dependências mútuas.
Que ao menos a tragédia nos ensine essa lição!


19/06/2017


E a natureza humana, não conta?
É certo e sabido. Ocorre uma tragédia, um desaire, um colapso e as comunicação e redes sociais são inundadas de depoimentos de especialistas que desfiam as razões e as culpas do sucedido. Se é um incêndio florestal, lá vem a monocultura, o desordenamento, a extinção de serviços, a desertificação rural. Se é uma crise financeira, lá vem a especulação mobiliária e imobiliária, os riscos irresponsáveis, a falta de regulação. Se é um ataque terrorista, lá vem a política de emigração, a falta de vigilância, o controlo de fronteiras, a restrição da liberdade. E sempre, seja qual for a calamidade, lá vem a incompetência, a ignorância, o compadrio dos governantes. Depois mudam os governantes, mudam os tempos, mas os problemas ocorrem de novo, exactamente pelas mesmas razões e com as mesmas culpas.
E eu, que até posso concordar com alguns diagnósticos, dou comigo a pensar: sendo o homem o actor comum em todas as ocorrências, será que o problema é mais profundo e pode estar relacionado com a forma como a sociedade moderna trata a natureza humana?
Dizem os cientistas que a nossa espécie de Homo sapiens se diferenciou das outras há pelo menos 200 mil anos. É muito tempo para que seja possível ignorar o resultado da selecção natural. Eu sei que os ideólogos sociais e políticos gostam de simplificar ou até negar a importância da natureza humana. Modelam a sociedade humana de acordo com os seus preconceitos e apresentam-na como uma projecção da sua vontade. E no último século, um número significativo desses ideólogos, deslumbrados com os avanços tecnológicos do último milénio, conseguiu impor o individualismo, o egoísmo, a competição, a ambição, o medo, a sobrevivência do forte à custa do fraco, como os únicos factores do progresso humano, como a essência da evolução da espécie humana. Há quem alvitre que essa evolução culminará na criação de uma nova espécie, a que até já chamaram de Homo deus.
Do que conheço sobre alguns exemplares do que poderá ser essa nova espécie, confesso não estar muito optimista quanto ao futuro longínquo. Mas estando eu apenas preocupado com o presente e o futuro próximo, prefiro observar a natureza da espécie que existiu pelo menos até há 199 mil anos e dos primatas que lhe são próximos. E concluo que a espécie humana é altamente social e cooperante, que procura estar em equilíbrio com a natureza, que protege os fracos, que não consegue viver apenas da competição, que não aceita e reage muito mal se é tratado de forma desigual relativamente a um seu semelhante, que se sente bem quando faz bem, que estabelece relações com base na empatia, na solidariedade e na reciprocidade, que age por contágio e imitação, que tende a ajudar e consolar o outro (quem tem crianças sabe que a melhor forma de obter a sua atenção é fingir chorar!). Claro que há o número mágico de 150 acima do qual as relações se complicam e por isso inventou as religiões que tentam estabelecer regras de vida em comunidades numerosas. O cristianismo viu o seu fundador executado e sofreu muitos desvios mas sobreviveu 2 mil anos e hoje tem um líder que é respeitado pela grande maioria.
Não estará na hora de avaliarmos os sistemas políticos e económicos em função da natureza humana e procurarmos os caminhos que a respeitem em vez de a violar?


20/06/2017

I




Só conheço uma forma de resolver um problema, seja ele grande ou pequeno. É estudá-lo até ao ínfimo detalhe, definir uma solução viável e trabalhar, trabalhar, trabalhar para a realizar. Sempre com a lucidez necessária para, em qualquer momento, corrigir o rumo ou, se for errado progredir, parar. No fim, discutir os resultados para os melhorar.
Tudo o resto é inútil e até prejudicial. Vindo de um ignorante, é patetice. Vindo de quem tem obrigação de conhecer o assunto, é falta de seriedade.

II

Perante o luto guardo normalmente silêncio. Por isso gostaria que o luto nacional fosse também de silêncio do cacarejar mediático.

III

Efeitos secundários do cacarejo mediático: queda de um avião espanhol que não caiu, morte de um piloto inglês que não morreu, censura de um responsável que não confirmou a queda do avião que não caiu. Se algum dos efeitos se agravar ou se detectar quaisquer outros não mencionados, evite a comunicação social e leia um livro.


22/06/2017

I


Ontem entretive-me a observar uma das ratazanas falantes que pululam no lixo televisivo nacional. Sem se preocupar muito com a opinião dos quatro comentadores convidados do programa, o pivô foi desfiando uma lista impressionante de escândalos, erros, maus negócios, etc., que, a propósito e a despropósito, associou à tragédia do incêndio de Pedrógão Grande.
A determinada altura mencionou o que para ele é uma característica natural dos políticos: a incompetência. E antes que um dos comentadores pudesse balbuciar a sua discordância, foi implacável: ─ O professor acha que políticos que estão à frente de Portugal desde o 25 de Abril são bons políticos, que não são incompetentes!?
Presumo que o indivíduo em observação entende que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não era político, já que a competência deixava muito a desejar. Eu que me iniciei nestas questões de catástrofes e de tragédias sociais ainda como estudante, ao ajudar em Alhandra as vítimas das cheias de 25 para 26 de Novembro de 1967, sei bem que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não primava pela capacidade de prever, evitar e combater os efeitos dos sinistros. A não ser que a competência fosse avaliada pela capacidade da censura alterar os títulos dos jornais de “centenas de mortos“ para “dezenas de mortos”, proibir referências ao cheiro dos corpos em decomposição, à miséria das vítimas, à ajuda dos estudantes, ao número total de mortos (o total oficial anunciado mais tarde foi de 470 mortos quando sabíamos que morreram mais de 700 pessoas), e por aí adiante. Sei também, porque ajudei a combater incêndios na zona do Oeste, que quem estava à frente de Portugal antes do 25 de Abril não tinha grande competência nessa área. A prevenção e o combate eram feitos pelas populações locais sem qualquer ajuda ou coordenação das autoridades governamentais.
É certo que com o 25 de Abril, por muito que custe ao individuo em observação, passámos a escolher livremente os responsáveis políticos e passaram a existir “políticos.” Claro que não são todos competentes e sérios como eu gostaria mas são o reflexo do que somos como povo e como cidadãos. Quanto melhor formos como cidadãos, melhor serão os políticos que escolhemos.
É por isso que estou disponível para trabalhar, intensa e continuadamente, para ajudar a eliminar o nosso défice cultural e de cidadania. E é também por isso que lutarei sempre contra os saudosistas do obscurantismo e os inimigos da democracia.


II



A tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra trouxe à memória dois camaradas e amigos que já partiram e de quem tenho muitas saudades: o Manuel Bouza Serrano e o Joaquim Leal Martins.
Regressei a Abril de 2003, quando o Leal Martins foi nomeado para dirigir o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, resultante da fusão dos extintos Serviço Nacional de Protecção Civil, Serviço Nacional de Bombeiros e Comissão Especializada em Fogos Florestais. Bem ao jeito da tradição naval, um pequeno grupo de camaradas de outras guerras combinou um almoço em Carnaxide para lhe dar força e manifestar solidariedade.
E lembrei-me do Bouza Serrano, que conhecia por dentro o meio que chamávamos de “bombeiral”, dizer ao Leal Martins que lhe desejava toda a sorte do mundo mas que tinha aceitado uma missão muito difícil, senão mesmo impossível. De facto a nomeação do Leal Martins foi sempre contestada pelos barões do meio e não esperámos muito para ver confirmados os receios do Bouza Serrano.
Em Setembro, na sequência dos muitos e grandes incêndios que devastaram o país num Verão com condições meteorológicas excepcionais, provocando 21 mortos, a destruição de 425 726 hectares de floresta (8% da área florestal portuguesa) e a detenção de cerca de uma centena de pessoas suspeitas de fogo posto, o Leal Martins demitiu-se.
Catorze anos depois, vale a pena revisitar as discussões e os argumentos da época. As fragilidades do sistema de defesa da floresta contra incêndios mantêm-se, os discursos dos actores principais mantêm-se, os interesses nos negócios do “bombeiral” mantêm-se, o sacrifício das populações mantém-se, só faltam o Bouza Serrano e o Leal Martins para o almoço.


25/06/2017


Será um defeito de formação mas gostaria que a ministra falasse muito menos e tivesse dito apenas qualquer coisa como isto: Estive vários dias no local e já tenho uma noção do problema. Agora vou estudá-lo detalhadamente, com o apoio dos serviços do ministério, e dentro de dois meses apresentarei as conclusões a que chegar assim como um plano de acções correctivas.
Repetir o que ouviu de A, B e C, aparentemente sem filtro ou validação, esperar que uma comissão técnica especializada da Assembleia da República possa dar resposta a tudo, está muito longe do que entendo ser uma atitude responsável de um ministro.