sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O eco do passado

 


Há palavras que atravessam o tempo e nos trazem um eco distante. Quando, à chegada para uma reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, Luís Montenegro comentou os protestos pelo direito à habitação no Porto e a intervenção da PSP, pediu que partidos e movimentos sociais não caiam na tentação de "importar para Portugal climas de instabilidade" sem "respaldo na sociedade portuguesa", motivados por razões "meramente egoísticas". Adicionalmente, assegurou que o país não vive em turbulência e que os protestos eram a expressão de “escassas pessoas”.

A linguagem não é neutra. Para quem viveu no Estado Novo, é difícil não notar o paralelismo com um expediente discursivo desse tempo. A ideia de que a contestação social é um produto "importado do estrangeiro" remete, inevitavelmente, para a retórica de António de Oliveira Salazar. Durante décadas, a propaganda da ditadura alimentou o mito de um Portugal ordeiro e pacífico — um "oásis de paz" —, onde qualquer sobressalto só podia ser fruto de agitação externa ou de traição aos interesses da Pátria.

A estrutura do argumento é surpreendentemente idêntica. Em primeiro lugar, recorre-se à tese do contágio externo. A tensão não nasceria dos problemas reais do país, como a crise no acesso à habitação, mas da cópia de modas e métodos de protesto vindos de fora. Em segundo lugar, desqualificam-se as intenções de quem protesta, fazendo com que o descontentamento deixe de ser uma exigência legítima para passar a ser uma falha moral individual (egoísmo) e um atentado contra o bem comum. Por fim, nega-se a representatividade ao protesto, traçando uma linha entre uma suposta maioria silenciosa e trabalhadora e uma minoria ruidosa sem respaldo real.

Significa isto que vivemos sob o salazarismo? Evidentemente que não. As diferenças de enquadramento são profundas e essenciais. Salazar usava esta narrativa para fundamentar a ditadura, criminalizar a oposição e justificar a repressão violenta, a censura prévia e a perseguição da PIDE. Hoje, vivemos numa democracia, onde o direito à manifestação e à greve são pilares constitucionais. A frase de Montenegro insere-se no debate político de um país livre, sujeita ao contraditório de jornalistas, da oposição e dos próprios cidadãos.

Ainda assim, o recurso a esta fórmula discursiva merece reflexão, pois a comparação entre a intervenção de Luís Montenegro e a doutrina oficial do Estado Novo mostra a continuidade de um repertório conservador de gestão de conflitos sociais. Confrontado com manifestações no espaço público, o poder executivo recorre a esquemas discursivos que enquadram o protesto como inautêntico, exógeno e egoísta, apelando à preservação da ordem e da tranquilidade.

Quando o poder político prefere colar a etiqueta da "instabilidade importada" ou do "egoísmo" aos movimentos sociais, esquiva-se ao essencial, que é debater as causas profundas que levam as pessoas para a rua. Em democracia, contestar não é um acto de egoísmo nem uma importação indesejada — é o exercício pleno da cidadania.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Como o algoritmo destrói a democracia

 


Houve um tempo em que o debate político se fazia na praça pública, nos jornais e nos parlamentos, espaços onde a contradição, o escrutínio e a ponderação ainda impunham algum travão ao sensacionalismo. Hoje, a arena democrática foi transferida para o ecrã do smartphone, um território governado pela lógica implacável da economia da atenção. Neste novo ecossistema, não vence quem tem a melhor proposta ou o argumento mais sólido, mas sim quem consegue capturar o olhar e inflamar a emoção em breves segundos.

A arquitectura das plataformas digitais não é neutra. Desenhadas para maximizar o tempo de permanência do utilizador, as redes sociais priorizam algoritmos que promovem conteúdos indignados, coléricos e polarizadores. Em busca do clique, a técnica digital descobriu que o ressentimento é o combustível mais rentável do mercado. O resultado é a criação de câmaras de ressonância e filtros-bolha que devolvem a cada indivíduo o eco das suas próprias obsessões e medos, fazendo com que perspectivas radicais e marginais passem a parecer visões hegemónicas e incontestáveis no ecossistema digital.

Esta mutação tecnológica encontrou o seu casamento perfeito com o populismo radical. Como demonstra a investigação do cientista político Vicente Valentim em O Fim da Vergonha, as ideias nativistas e extremistas já habitavam no seio da sociedade, mas eram travadas pelo estigma social. As redes sociais não só quebraram esse isolamento, como legitimaram o indizível. Ao verem líderes políticos comunicar directamente sem o filtro do jornalismo independente, e ao encontrarem milhares de comentários a replicar os seus próprios preconceitos nas redes, os cidadãos perderam a vergonha de assumir posições anteriormente consideradas tabu.

Para operar esta engrenagem, aperfeiçoou-se a estratégia do chamado "efeito trompete". Através de uma táctica cirúrgica, um boato ou conteúdo fabricado nasce na periferia digital e explode exponencialmente quando uma figura política de grande alcance o partilha nas suas redes sociais. Exemplo paradigmático recente foi o vídeo falso gerado por inteligência artificial partilhado por André Ventura, que mostrava duas mulheres muçulmanas de véu a reprovarem ostensivamente o vestuário de uma jovem de saia curta. Editado com cortes intencionais e com a música da série Dexter ao fundo, o vídeo tinha erros técnicos visíveis como uma mão com seis dedos, mas cumpria a função de alimentar a narrativa de uma oposição de costumes entre muçulmanos e o mundo ocidental. Ao ser propagado por um líder político para acentuar a polarização, o conteúdo alcançou vários milhões de visualizações e gerou um alarme social totalmente fabricado. Em sentido contrário, observamos a divulgação nas redes sociais da suposta capa do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA com a deputada Rita Matias, que obrigou a um desmentido da equipa editorial.

A somar a isto, o contágio estende-se às aplicações encriptadas de mensagens como o WhatsApp e o Telegram. Ali, a coberto da privacidade e valendo-se da confiança entre familiares e amigos, a desinformação sobre imigração e subsídios circula sem qualquer contraditório, minando a coesão social à margem dos factos estatísticos oficiais.

Todavia, há quem argumente que o problema essencial não é a democracia em si, mas sim a erosão do pressuposto básico da vida em sociedade — a necessidade de existir uma correspondência mínima e previsível entre o que parece e o que é. Sob esta perspetiva, o algoritmo seria apenas um bode expiatório, comparável à aguardente ou ao haxixe. A culpa, diz-se, não reside no agente viciante, mas na fraqueza de quem não sabe resistir ao vício, e tentar alterar isso seria incorrer no erro histórico de querer fabricar um "Homem Novo" imune à imperfeição humana.

Esta comparação, contudo, assenta numa falsa equivalência. Uma garrafa de aguardente é um objecto estático numa prateleira. Não estuda os nossos dados pessoais, não mapeia as nossas vulnerabilidades emocionais, não envia notificações personalizadas às três da manhã e não altera a sua composição em tempo real para maximizar a dependência. As plataformas digitais não são substâncias passivas, são sistemas dinâmicos de engenharia comportamental concebidos por milhares de engenheiros e financiados por orçamentos multimilionários para reter e modular a atenção. Culpar a fragilidade individual perante uma máquina assimétrica de optimização comportamental é ignorar a escala desproporcional do confronto.

Por outro lado, enquanto o consumo excessivo de álcool destrói a saúde privada do indivíduo, a manipulação algorítmica destrói o bem comum. Se a vida comunitária exige que exista confiança na percepção da realidade, o algoritmo actua como um poluidor que contamina o poço de água pública. Quando a desinformação orquestrada e a raiva fabricada se tornam a moeda de troca no debate público, o prejuízo deixa de ser um vício individual e passa a ser a destruição do solo factual comum que permite a convivência em paz.

Por fim, exigir a regulação das plataformas não é qualquer tentativa utópica de refundar a natureza humana. A humanidade não precisou de criar um "Homem Novo" para proibir a contaminação alimentar pela indústria, impor cintos de segurança nos automóveis ou proibir a publicidade ao tabaco. Regular o ecossistema digital — exigindo transparência nos algoritmos, limitando a microsegmentação agressiva e travando a capitalização do ódio — é apenas aplicar regras elementares de responsabilidade empresarial a um mercado descontrolado.

Quando o ecossistema informativo substitui a verdade factual pelo impacto emocional, a democracia deixa de ser um exercício de deliberação racional entre cidadãos para se converter numa arena digital de paixões orquestradas. Resignarmo-nos a que o problema é das pessoas é uma paralisia que serve apenas os demagogos que lucram com o medo e as gigantes tecnológicas que enriquecem com o caos e não formos capazes de impor limites e resgatar o valor do contraditório, seremos meros figurantes num espectáculo onde o algoritmo decide o que sentimos, o que tememos, como vivemos em sociedade e, em última análise, em quem votamos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A inteligência artificial e a epopeia humana

 


A imagem gerada por inteligência artificial que o matemático francês Hugo Duminil-Copin projectou durante uma intervenção na Société Mathématique de France, transmite um sentimento que transcende a frieza da apresentação. Revelada nas páginas do jornal Le Monde — na reportagem assinada por Hervé Morin no caderno Science & Médecine da edição de hoje —, a ilustração de um coelho prestes a ser esmagado por um camião para descrever o impacto de um recente anúncio da OpenAI, deu voz ao sobressalto de toda uma comunidade científica. A sua confissão pública de ter chorado na noite em que a empresa americana disponibilizou mais de 719 documentos de trabalho científicos na internet, pretendendo resolver centenas de problemas matemáticos por solucionar, é o retrato comovente do confronto entre a sensibilidade humana e a brutalidade dos algoritmos.

O que a OpenAI operou não foi um avanço científico tradicional, mas uma demonstração de força. Ao publicar mais de 3 500 páginas de demonstrações geradas por inteligência artificial — abordando de uma só vez 16 questões essenciais em que Duminil-Copin e a sua equipa trabalhavam —, a gigante tecnológica procurou demonstrar uma capacidade de "massacre" e "desmantelamento" da actividade matemática humana. Mais grave do que a velocidade foi o atropelo ético. Como revela a investigação do Le Monde, a empresa ignorou as recomendações do comité consultivo de investigadores, utilizou modelos internos não comercializados e produziu textos amplamente ilegíveis e sem a devida formalização lógica, vendo-se até forçada a retirar três artigos no dia seguinte devido a erros flagrantes.

Como bem denunciou o matemático francês ao diário parisiense, a OpenAI actuou com uma total indiferença pela comunidade científica, demonstrando que "não quer saber da epopeia humana" e rotulando todo este processo como genuinamente "inhumano". A leitura de uma demonstração matemática perde o seu sabor e o seu sentido quando deixa de ser o fruto da cooperação e do génio de pessoas com rostos conhecidos, transformando-se num produto industrial. Além disso, esta pilhagem algorítmica ameaça destruir o ecossistema de partilha e discussão livre de ideias que sempre fez a riqueza da ciência, forçando investigadores a fecharem-se sobre si mesmos por receio de verem os seus raciocínios capturados por agentes virtuais — uma violência que penaliza, acima de tudo, os jovens cientistas em formação.

Contudo, a resposta de Hugo Duminil-Copin perante este terramoto oferece uma lição de dignidade. Recusando-se a capitular ou a resignar-se a ser um mero leitor de milhares de páginas produzidas por máquinas, o investigador lembra que a verdadeira matemática não reside apenas na acumulação bruta de teoremas, mas na capacidade de compreender, digerir, ensinar e criar comunidade em redor do conhecimento. O futuro da ciência humana continuará a passar pela busca de "pérolas" intelectuais e pela paixão de transmitir aos outros o encanto da descoberta. Se a inteligência artificial consegue produzir milhares de páginas em poucas horas, só o ser humano é capaz de dar sentido à caminhada.

A sombra da dívida francesa

 


Há uma profunda ironia na forma como a história financeira se desenrola. Durante mais de uma década, os manuais de ortodoxia orçamental da Zona Euro foram ditados a partir do eixo central francês e alemão, enquanto os países do Sul carregavam o estigma dos desequilíbrios. Hoje, o cenário inverteu-se de forma dramática, com a França a transformar-se no principal foco de instabilidade da economia europeia, aprisionada numa espiral de dívida, défices fora de controlo e paralisia política.

Os números que inquietam os mercados são inequívocos, destacando-se uma dívida pública de 3,6 biliões de euros, equivalente a 119% do PIB, e um défice orçamental de 5,4%. Com os rendimentos dos títulos do Tesouro francês a dez anos a roçarem os 5% — mínimos de confiança não eram vistos há mais de duas décadas — e o diferencial face às obrigações alemãs a ultrapassar os 140 a 150 pontos-base, assiste-se a um facto histórico e perturbador. Os investidores exigem agora juros mais elevados para emprestar dinheiro a Paris do que a Lisboa, Madrid ou Roma. O risco de contágio sistémico levou mesmo economistas como Paul Krugman a alertar para o pesadelo de uma França que se tornou demasiado grande para falir e simultaneamente demasiado grande para ser salva.

Se o impacto económico é devastador, a forma como a crise é descrita na imprensa internacional permite traçar um fascinante mapa da ansiedade europeia, variando de forma expressiva consoante a geografia dos jornais.

Na imprensa francesa, o tom oscila entre a amargura do orgulho ferido, o escrutínio institucional e o sarcasmo político. O Le Figaro lamenta a perda dolorosa do estatuto privilegiado do país na Zona Euro, enquanto o Le Monde destaca o bloqueio no Parlamento, onde a oposição chumba o orçamento e força o Governo a equacionar governar por lei especial de emergência perante a contestação social nas ruas. Já a imprensa satírica resume a incapacidade governamental com a máxima irónica de que se tornou mais fácil fechar liceus do que fechar um orçamento.

Nas páginas da imprensa portuguesa, sobressai uma mistura de surpresa, alívio cauteloso e inquietação estratégica. O Jornal de Negócios assinala sem rodeios que a perda de credibilidade francesa representa uma ameaça explosiva, destacando com um toque de orgulho contido que Portugal se apresenta hoje com contas equilibradas e saldo nulo, imune ao castigo imediato dos mercados. No entanto, os analistas nacionais não ignoram que um incêndio na segunda maior economia da União Europeia acabará por sobrecarregar os custos de financiamento de todo o bloco.

Por sua vez, a imprensa espanhola, através de jornais como o El Economista, adopta uma linguagem incisiva e puramente financeira. Divulga com pragmatismo o novo e azedo acrónimo criado por gestores de fundos — a sigla FROGS (FRench Over-sized Government and Social Security) — surgida em contraponto ao antigo e pejorativo termo PIIGS para sinalizar que o verdadeiro risco fiscal reside agora no modelo de despesa pública de Paris.

Por fim, na imprensa anglo-saxónica e global, o olhar revela-se clínico, severo e por vezes moralista. O The Wall Street Journal nota que a França continua a cavar o seu próprio buraco, comparando a resistência gaulesa aos cortes com a disciplina nórdica. O Financial Times avisa que os vigilantes dos mercados de obrigações estão de volta para punir a irresponsabilidade fiscal, ao passo que crónicas internacionais denunciam uma recusa da realidade por parte de uma sociedade que exige serviços públicos de excelência, mas recusa pagar a respectiva factura.

Em última análise, a crise da dívida francesa desmonta a ilusão de que o centro do continente está imune às leis da gravidade económica. Enquanto o Sul da Europa já pagou uma conta pesada para reorganizar as suas finanças, o coração do continente aprende agora que, no mundo capitalista, desafiar os mercados e ignorar quem empresta dinheiro é o caminho mais curto para deixar de mandar na sua própria casa e perder o controlo do seu próprio futuro.

Quando as máquinas se calam



Apesar de há várias décadas observar o fecho de empresas e o desmantelamento do tecido produtivo nacional, não consigo ficar indiferente aos dramas humanos quando uma fábrica se cala. Em Oliveira de Azeméis, a Schmidt Light Metal, fundada em 1989, afirmou-se como uma referência da indústria metalomecânica. Da fundição de alumínio a alta pressão saíram mais de 90 milhões de peças para o mercado europeu, transformando a unidade num pilar económico da região. Contudo, o pulsar das máquinas parou a 30 de Setembro.

O encerramento definitivo desta unidade não é um episódio isolado, mas o reflexo visível do efeito dominó da transição energética no sector automóvel. Com a acelerada viragem para a mobilidade eléctrica, a procura por componentes de motores a combustão desabou, estrangulando uma fábrica cuja sobrevivência dependia quase exclusivamente do grupo Volkswagen. A perda de escala e o acumular de um passivo de 94 milhões de euros ditaram a inviabilidade do negócio, arrastando 318 trabalhadores para o doloroso sobressalto do desemprego. Curiosamente, a empresa teve como accionista e principal rosto, até há pouco tempo, o pai do actual presidente do FC Porto, um detalhe que ilustra como os caminhos do capital e do poder empresarial se cruzam com o destino do trabalho.

Por trás dos números frios da insolvência, o verdadeiro drama desenrola-se à mesa das famílias afectadas, muitas de casais operários experientes com mais de 50 anos. É o caso concreto de um operário com 25 anos de casa ouvido pelo JN que, com a cessação do contrato marcada para 7 de Dezembro, tenta abraçar o futuro com esperança, desabafando ainda assim sentir-se abandonado. Para este trabalhador e para tantas famílias atingidas, a transição ecológica global não é uma abstracção de futuro, mas uma dolorosa tempestade do presente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O abraço do urso



Na Europa central, a tentação da direita liberal e conservadora – aquela que partilha o ADN reformista de Passos Coelho – em cruzar a linha vermelha da extrema-direita deixou de ser uma hipótese académica para se tornar num padrão. A fórmula parecia simples e sedutora: instrumentalizar o radicalismo populista para viabilizar maiorias parlamentares, aplicar agendas radicais de flexibilização económica e confiar que a gravidade da governação domesticaria os parceiros imprevisíveis. Os resultados, contudo, revelaram-se devastadores para a direita tradicional.

A experiência da Áustria aos Países Baixos, passando pela Finlândia e por Itália, mostra que a estratégia da integração falhou sistematicamente. Em quase todos os cenários, a direita liberal aceitou ceder na imigração, na justiça e na coesão social para salvar a sua agenda económica. Mas ao validar os temas e o léxico da extrema-direita, em vez de esvaziarem os radicais, legitimaram-nos perante o eleitorado.

A consequência foi a perda da liderança do espaço político. O eleitorado, confrontado com a escolha entre o original e a versão diluída, acabou por preferir o original. Em Itália, os Fratelli d'Italia engoliram a Forza Italia. Na Áustria, o FPÖ ultrapassou o ÖVP nas urnas. Nos Países Baixos, a abertura de portas do VVD acabou por entregar a vitória ao PVV de Geert Wilders em 2023.

Perante este resultado, a direita tradicional procurou redefinir estratégias para evitar a submissão total através de variadas abordagens. Uma dessas tentativas passou pela via do governo extra-parlamentar nos Países Baixos. Após a vitória do PVV, o centro-direita, representado pelo VVD e pelo NSC, recusou um executivo directamente liderado por Geert Wilders, impondo a escolha do independente Dick Schoof para Primeiro-Ministro e mantendo os líderes partidários fora do gabinete. No entanto, esta tentativa de governação tecnocrata acabou por colapsar devido à instabilidade do parceiro radical, culminando em eleições antecipadas e no regresso a uma solução de centro liderada pelos liberais.

Outra abordagem baseou-se na reafirmação do cordão sanitário e em pontes ao centro, tal como sucede na Alemanha, onde a CDU de Friedrich Merz tem mantido a recusa categórica de coligações com a AfD, optando por pactos pragmáticos e acordos pontuais com a social-democracia. Em países como a Grécia e a Polónia, a estratégia assentou na diferenciação pela via da responsabilidade institucional. A Nova Democracia de Kyriakos Mitsotakis e a Plataforma Cívica de Donald Tusk contiveram a proliferação da extrema-direita ao posicionarem-se como garante absoluto de estabilidade macroeconómica.

Finalmente, investiu-se na resolução concreta do descontentamento público. Na Grécia, por exemplo, o centro-direita procurou combater as causas materiais do populismo ao focar-se em aliviar a crise da habitação, baixar impostos sobre rendimentos e dinamizar o poder de compra.

A direita liberal descobriu uma dura verdade. Quando decide alinhar com a extrema-direita para chegar ao poder, não está a alargar a sua base, mas a assinar a sua própria submissão. Evitar o "abraço do urso" exige coragem política para construir maiorias ao centro e mostrar que a eficácia reformista não necessita da extrema-direita para governar.

domingo, 11 de outubro de 2026

Alquimia político-diplomática



Há uma poesia quase tocante na forma como a diplomacia portuguesa consegue conciliar o inconciliável com um sorriso rasgado. Enquanto o Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN) consagra solenemente o primado do Direito Internacional, o multilateralismo e o respeito pela Carta das Nações Unidas como os pilares sagrados da segurança e soberania de Portugal, os governantes portugueses desdobraram-se em vénias e elogios ao Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio — a encarnação viva da doutrina “America First” e do mais puro realismo ofensivo unilateral. É verdadeiramente fascinante observar como a retórica oficial clama por uma ordem internacional baseada em regras enquanto presta vassalagem diplomática a quem encara as alianças globais como meros contratos de protecção mercantilista e de conveniência.

Na conferência de imprensa conjunta, o espectáculo de contorcionismo ideológico roçou o sublime, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a invocar patrioticamente o vinho da Madeira com que se brindou à independência americana há 250 anos e a gabar-se de que Portugal deu um salto vertiginoso para atingir os 2% do PIB em despesas de defesa logo em 2025. Não satisfeito, o chefe da diplomacia portuguesa proclamou com desarmante candura que os Estados Unidos são o "único interlocutor" capaz de resolver o conflito na Ucrânia, arquivando momentaneamente a autonomia estratégica europeia e o multilateralismo que o próprio CEDN coloca no topo das prioridades nacionais. Por sua vez, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro apressou-se a classificar a relação bilateral como "excelente a todos os títulos", celebrando com entusiasmo uma parceria em que a soberania nacional se reduz a conceder "aprovação condicional" para a utilização militar da Base das Lajes na Operação Epic Fury.

Marco Rubio, por seu lado, desempenhou com mestria o papel de patrono benevolente, brindando Portugal com o rótulo de "grande aliado" — um elogio que, no léxico pragmático de Washington, traduz a total disponibilidade de Lisboa para facultar bases e espaço aéreo sem fazer perguntas incómodas sobre a natureza das missões. Confrontado sobre os alertas da Amnistia Internacional e as investigações do Ministério Público português relativamente a eventuais violações do Direito Internacional a partir dos Açores, Rubio despachou a Amnistia Internacional como sendo "uma fraude" e afiançou que o uso das Lajes cumpre escrupulosamente os "protocolos" existentes. Em retribuição por tamanha facilidade geostratégica, o chefe da diplomacia americana acenou com a promessa de transformar Portugal na "porta de entrada ideal" para a tecnologia e o capital dos EUA, aproveitando de passagem para incentivar a compra dos caças norte-americanos F-35 em detrimento de opções europeias.

Consumou-se assim uma admirável alquimia político-diplomática: de manhã, jura-se fidelidade inabalável às instituições multilaterais, à Carta da ONU e à rejeição do domínio das grandes potências; à tarde, estende-se a passadeira vermelha a quem ridiculariza os organismos internacionais e exige 5% do PIB em orçamento militar. No final, resta a lição magistral de diplomacia nacional: os princípios estratégicos de Portugal são absolutamente sagrados e invioláveis — excepto quando entra pela porta um Secretário de Estado norte-americano.

sábado, 10 de outubro de 2026

A lição da guerra na Ucrânia

 


Por mais que a diplomacia e a política internacional tratem a guerra com o cálculo frio dos bastidores, a realidade no terreno nada tem de ficção ou de espectáculo, pois todos os dias morrem pessoas reais, destroem-se famílias e ceifam-se vidas inocentes sob o fogo dos bombardeamentos. É perante o peso esmagador desta tragédia humana que o cinismo e a encenação dos vários actores globais se tornam ainda mais evidentes.

Em Moscovo, o Kremlin trata a destruição com uma frieza burocrática e desumana. Enquanto a propaganda de Vladimir Putin apresenta tudo como uma fatalidade da redistribuição geopolítica, no terreno essa narrativa traduz-se em mísseis e bombas guiadas contra edifícios residenciais e paragens de autocarro em Kramatorsk e Pryluky, na destruição deliberada da rede eléctrica para lançar milhões de civis no gelo do Inverno e na chantagem nuclear a partir de Kaliningrado. O sofrimento de todo um povo é transformado, sem qualquer escrúpulo, num instrumento de pressão sobre o Ocidente.

Em Kiev, no plano da liderança política, Volodymyr Zelensky e o seu governo travam uma batalha diária pela sobrevivência das instituições e do Estado, gerindo um país em ruínas e um sufocante défice orçamental de dezenas de milhares de milhões de dólares. Entre a dependência do apoio financeiro e militar externo e a necessidade de manter operacional a máquina de defesa — mobilizando tecnologia de ponta e novas estratégias no campo de batalha —, a liderança ucraniana enfrenta o desgaste de uma guerra prolongada, equilibrando-se entre as exigências diplomáticas internacionais e as crescentes tensões políticas internas, ilustradas pelas polémicas em torno de propostas pragmáticas de paz, como a do deputado Oleksiy Goncharenko.

Longe dos gabinetes do poder, para a população anónima ucraniana, a realidade resume-se ao luto diário e à dura luta pela sobrevivência. Nas cidades sob bombardeamento, nas trincheiras geladas e nos lares destruídos, os cidadãos comuns enfrentam o trauma da perda de entes queridos, a interrupção abrupta dos seus projectos de vida e a incerteza quanto ao amanhã. É no quotidiano das famílias devastadas pelo conflito que a tragédia humana se revela na sua dimensão mais profunda e dolorosa, uma vez que a resiliência deixou de ser um discurso político para se tornar o único meio de sobreviver à devastação.

Do outro lado do Atlântico, em Washington, a tragédia humana é reduzida a linhas contabilísticas e à conveniência eleitoral. Para a administração Trump, o conflito é encarado como um encargo dispendioso de três mil milhões de dólares por mês, que faz disparar o preço dos combustíveis e irrita os eleitores antes das eleições intercalares. Sem qualquer constrangimento moral, a Casa Branca recusa-se a tratar o agressor como um pária, convida-o abertamente para cimeiras num resort de golfe na Flórida e envia emissários para negociar a compra de gasóleo russo e a partilha de lucros no consórcio do gasoduto Nord Stream e na petrolífera Lukoil.

No centro de Bruxelas e nas capitais da Europa Ocidental, os líderes liberais — de Friedrich Merz a Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen — envergam a armadura da virtude moral, enquanto prometem pacotes de armamento e a futura adesão à União Europeia. Contudo, essa mesma solidariedade revela os seus limites práticos no plano da política quotidiana, dado que o trigo e os produtos agrícolas ucranianos continuam a enfrentar restrições de acesso destinadas a proteger os mercados agrícolas de países como a França, a Polónia ou a Irlanda. Fica, assim, evidente que o apoio europeu vacila quando colide com a protecção das suas próprias economias.

Nas bancadas da extrema-direita europeia — da AfD alemã ao Reagrupamento Nacional francês e ao movimento de Roberto Vannacci, em Itália —, o sofrimento humano é encarado como um incómodo que deve ser rapidamente eliminado, cortando-se a ajuda a Kiev para recuperar o gás e o petróleo baratos de Moscovo. Já na extrema-esquerda e em certas correntes do pacifismo abstracto — representadas por figuras como Ségolène Royal ou Jean-Luc Mélenchon —, apela-se a uma mediação imediata através de discursos morais, esquecendo-se que exigir o fim dos combates sem garantias de segurança significa abandonar milhões de civis ao arbítrio de uma ocupação violenta.

Por sua vez, nos bastidores internacionais, mediadores como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e as potências do Sul Global, como o Brasil e a Índia, analisam o conflito à luz do seu impacto no comércio de commodities, nos fertilizantes e nos preços do petróleo, gerindo os seus próprios equilíbrios geopolíticos e económicos.

Perante esta teia de interesses, torna-se imperativo resgatar as iniciativas equilibradas e profundamente humanas que, no meio da devastação na Ucrânia, colocam a vida acima da propaganda. Destaca-se o trabalho imparcial do Comité Internacional da Cruz Vermelha, cujas equipas trabalham em Kiev e em Moscovo para apoiar mais de 18 mil famílias ucranianas e russas que vivem a angústia de procurar militares e civis desaparecidos na guerra. Ao cruzarem a linha da frente para fazer chegar dezenas de milhares de mensagens pessoais entre prisioneiros e as respectivas famílias, estas equipas recordam a verdade universal de que a dor de uma mãe ou o desespero de um filho que aguarda notícias não têm cor política nem nacionalidade. 

Essa mesma humanidade transparece também em gestos locais, como o do soldado e voluntário Roman Chuhalov, que, na cidade de Oleshki — sitiada e sem electricidade nem água —, utiliza drones não para lançar explosivos, mas para fazer chegar pacotes de comida, medicamentos e pequenas cartas de encorajamento a milhares de civis isolados. A este esforço somam-se os alertas da Missão da ONU liderada por Danielle Bell, que insiste em documentar a tragédia das populações civis para impedir que as vidas humanas sejam reduzidas à designação fria de "danos colaterais".

A verdadeira e mais sombria lição a retirar da guerra na Ucrânia, tal como de muitas outras, reside neste contraste devastador. Enquanto, nos salões do poder global, se trocam acusações, se delineiam estratégias de campanha e se negoceiam comissões no sector da energia, são as populações anónimas, os voluntários de socorro e as equipas humanitárias que preservam o único alicerce sobre o qual o futuro poderá ser reconstruído, ou seja, a certeza de que nenhuma causa política, nenhum ganho territorial e nenhum interesse financeiro justificam o sacrifício de vidas humanas inocentes.

É negócio, estúpido!



A forma como a alta geopolítica trata a União Europeia proporciona momentos de uma ironia quase cruel. Durante anos, cidadãos e empresas europeus foram exortados a fazer votos de castidade energética; fecharam-se as torneiras do gás e do petróleo russos, suportaram-se preços dos combustíveis que levaram o gasóleo a ultrapassar os 2 euros por litro na bomba, sacrificou-se a competitividade da indústria e engoliu-se um choque inflacionista sem precedentes. Em Bruxelas e nas capitais do continente, repetia-se, com solenidade moral, que cada cêntimo poupado na factura energética representava um dever cívico e uma vitória na contenção da máquina de guerra do Kremlin.

Contudo, a geopolítica real é pródiga em lições de pragmatismo perverso, e a ilusão europeia ruiu em pleno ano eleitoral americano. Pressionado pela inflação interna e pela subida vertiginosa do preço dos combustíveis às portas das eleições intercalares, Donald Trump não se deixou prender por escrúpulos morais e, perante a fúria dos seus eleitores, executou uma pirueta diplomática espectacular e fechou um acordo directo com Vladimir Putin para a importação de gasóleo russo. Ou seja, enquanto a União Europeia era obrigada a cumprir à risca o regime de sanções e a suportar a escassez de combustível, a Casa Branca contornava as suas próprias directivas para abastecer os automobilistas americanos com gasóleo vindo de Moscovo.

Para tornar o cenário ainda mais humilhante para a diplomacia europeia, este negócio do gasóleo surge em simultâneo com a pressão exercida por Washington sobre a Europa para que o G7 libertasse milhões de barris das suas reservas estratégicas de emergência, sob a ameaça velada de os EUA proibirem a exportação dos seus próprios produtos refinados para o Velho Continente. A Europa cedeu, abriu as suas reservas para acalmar os mercados globais e, como recompensa, viu o seu principal aliado fechar um pacto energético bilateral com o Kremlin.

Como se esta traição comercial não bastasse, o espectáculo atinge o seu auge satírico nos bastidores financeiros. Intermediários de topo — como Jared Kushner, genro de Trump, e Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e homem de confiança de Putin — dedicam-se a negociar a futura distribuição do abastecimento europeu. O plano, traçado em privado, prevê a entrada de investidores norte-americanos e de fundos do Golfo no consórcio do gasoduto Nord Stream, bem como a compra de activos globais da petrolífera russa Lukoil, garantindo que o gás e o petróleo voltem a fluir para a Europa, mas agora com uma generosa comissão de intermediação cobrada por magnatas americanos e russos.

O resultado desta peça teatral é uma verdadeira lição de ingenuidade estratégica. A União Europeia destruiu o seu modelo económico assente em energia acessível, suportou a austeridade e cumpriu religiosamente o papel de baluarte das sanções, apenas para ser tratada como o parente ingénuo de quem todos se aproveitam. No grande xadrez da energia, enquanto Trump garante o gasóleo russo para salvar a sua campanha eleitoral e investidores de Washington e Moscovo negociam a partilha dos lucros da futura infra-estrutura europeia, a Europa alcançou a triste proeza de ser o único jogador a pagar a conta, a cumprir as regras e a ficar sem energia nem influência à mesa do jogo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O chão secreto de Lisboa

 


Atravessar as portas de madeira e vidro dos Armazéns Braz & Braz na Rua Dom Antão de Almada, num sábado de Outono no final dos anos 50, foi para a criança um choque sensorial avassalador.

Apenas duas semanas antes, a sua realidade era o calor húmido e constante de Quelimane, as ruas largas com sombra de acácias e mangueiras, as casas de alvenaria térrea, a terra vermelha da Zambézia e a pequena escola primária onde concluíra a 4.ª classe. Na Quelimane de finais dos anos 50, o comércio que a criança conhecia estava moldado pelo ritmo do porto e pelas grandes firmas locais. A maior referência da cidade era o império da Monteiro & Giro, com os seus imponentes armazéns de importação e máquinas, a par das casas comerciais indianas como a Gani e das cantinas de bairro — espaços de penumbra fresca, com portas de fole abertas para a rua, onde se pedia a mercadoria por cima de um balcão de madeira simples e onde a variedade era contida e familiar. Não existia em Quelimane nada, absolutamente nada, que a preparasse para a monumentalidade, a vertigem e a multidão de Lisboa.

Ao lado da mãe, que lhe segurava a mão com uma firmeza nova — fruto do receio de que o filho se perdesse na confusão da metrópole —, a criança pisava um mundo que parecia saído de uma vertiginosa ficção.

Foi então que se impôs o primeiro impacto: o frio, o som e a escala.

A primeira diferença foi a luz e a temperatura. Vinda do sol forte e macio do Índico, a criança sentiu no rosto o ar frio, denso e húmido da Baixa lisboeta. Ao cruzar a entrada do armazém, o cheiro que a envolveu foi uma mistura absolutamente inédita para o seu nariz habituado ao cheiro da maresia do rio dos Bons Sinais, da poeira e do óleo de coco; no Braz & Braz cheirava intensamente a cera de chão, a metal polido, a plástico novo, a borracha sintética, a petróleo de limpeza e a um fundo poeirento de pedra antiga e mofo.

O ruído também era ensurdecedor e claustrofóbico para quem vinha do ritmo pausado da Zambézia; o murmúrio constante de centenas de vozes a ecoar nas abóbadas, o chiar dos sapatos no chão de pedra, o bater seco de panelas de alumínio e o tinir contínuo de moedas e caixas registadoras.

Para um menino habituado aos edifícios do Moçambique natal, a arquitectura do Braz & Braz parecia assustadora e mágica. Olhando para cima, não via os tectos de zinco ou as varandas de madeira de Quelimane; via arcos gigantescos de pedra de cantaria e abóbadas de tijolo escuro que pareciam as de uma fortaleza ou de uma igreja imensa. Incrédulo, percebia que aquela igreja não tinha altares nem santos, mas sim prateleiras metálicas até ao tecto, carregadas de objectos que nunca tinha visto todos reunidos num só lugar.

Mas era diante da abundância e do ritual meticuloso das compras que a vertigem se tornava maior.

Se mesmo nos grandes armazéns da Monteiro & Giro, em Quelimane, a mercadoria estava guardada ou encaixotada por encomenda, no Braz & Braz a criança ficou paralisada perante o espectáculo da superabundância em exposição directa. Primeiro, a montanha de alumínio e esmalte; ver centenas de panelas, caçarolas, sertãs e testos empilhados até ao tecto, a brilhar sob a luz eléctrica, parecia-lhe uma exibição de riqueza quase inacreditável. Pendurados em ganchos no tecto, passadores, funis, baldes de zinco e candeeiros a petróleo de vidro polido flutuavam sobre as cabeças das pessoas. Depois, a revolução do plástico: ao chegar ao antigo claustro coberto — uma imensa nave central sob uma clarabóia —, a criança deparou-se com uma explosão de cores sintéticas que nunca vira na África Oriental: bacias, baldes, garrafas térmicas, caixas e cuvetes em tons berrantes de encarnado, amarelo, azul-bebé e verde-alface.

A forma como compravam parecia-lhe um teatro de precisão. Os empregados de bata azul, com um lápis atrás da orelha, preenchiam o talão em papel químico; a mãe dirigia-se à cabine elevada da Caixa Central, onde uma senhora, diante de uma caixa registadora metálica gigante, carimbava o papel com um estrondoso “tique-clac!”; e o regresso ao balcão culminava com o empregado a embrulhar tudo em papel pardo e a atar o pacote com um nó cego de cordel de ráfia.

Havia, porém, um segredo silencioso sob os seus pés — a dimensão antropológica de um ritual que ninguém ali podia adivinhar.

Enquanto a mãe e a criança caminhavam pelos corredores do claustro coberto, maravilhadas com o brilho dos plásticos e a profusão de utilidades domésticas, pisavam o chão de lajes calcárias e mosaico sem imaginarem a imensa tragédia e a devoção que ali jaziam sepultadas. Sob as solas dos seus sapatos, a escassos palmos de profundidade, repousavam em absoluto silêncio os esqueletos de cerca de três mil crianças e recém-nascidos — uma necrópole infantil secreta que permaneceria desconhecida do mundo durante mais de meio século.

Como explicam os arqueólogos e antropólogos biológicos que mais tarde escavaram o local, a análise dos contextos funerários e do registo ósseo revela muito mais sobre a vida e a cultura dos vivos do que propriamente sobre a morte. Entre o século XVI e o início do século XIX — antes da proibição dos enterramentos dentro dos templos pelo decreto de Costa Cabral (1844) —, a igreja e o claustro do Convento de São Domingos funcionavam como o epicentro espiritual e social das famílias mais humildes de Lisboa.

Numa cidade marcada por taxas avassaladoras de mortalidade infantil, subnutrição e infecções recorrentes, os esqueletos ali depositados revelam uma faixa etária muito específica: perto de 90% das crianças tinham menos de um ano de idade. Sem recursos financeiros para suportar os custos de um funeral formal e impelidas pela devoção popular aos frades dominicanos, centenas de mães amortalhavam cuidadosamente os corpos dos seus bebés falecidos.

Nas caladas da noite, levavam os pequenos corpos até às portas do convento. Os religiosos recolhiam-nos devotamente e sepultavam-nos no solo do claustro — um espaço sagrado onde se acreditava que a proximidade às relíquias e às orações diárias da comunidade dominicana garantiria a protecção das almas infantis. Durante as escavações, a preservação de pequenos alfinetes de bronze junto aos esqueletos revelou o cuidado minucioso com que essas mães envolveram os seus filhos no pano da mortalha antes de os entregarem à terra.

Ali permaneceram, lado a lado, durante séculos, enquanto, por cima, o mundo mudava, o convento era dessacralizado e os Armazéns Braz & Braz instalavam as suas prateleiras de ferro, espanadores e garrafas térmicas.

A revelação só chegaria décadas mais tarde.

Ao sair dos Armazéns Braz & Braz com a mãe, segurando o pequeno pacote atado com cordel, a criança trazia os olhos arregalados e o coração a acelerar. Aquela visita marcara a sua entrada em Lisboa — uma cidade monumental, fria, ruidosa e cheia de mistérios.

Passaram-se décadas. O rapaz cresceu, fez a sua vida, os Armazéns Braz & Braz acabaram por fechar as portas e o próprio tempo transformou o rapaz de Moçambique num avô com netos da idade que ele tinha naquele sábado de Outono dos anos 50.

Foi só depois de 2020, quando os jornais noticiaram as escavações arqueológicas realizadas para a reconversão do antigo edifício no hotel Convent Square, que aquele homem, agora grisalho, leu a notícia, estupefacto. Descobrira-se a maior necrópole infantil do mundo sob o solo do antigo armazém, revelando o perfil biológico e a história social daquela população anónima.

Ao ler a reportagem, o avô fechou os olhos e regressou instantaneamente a 1959; viu-se de novo pequeno, pela mão da mãe, recém-chegado da soalheira Quelimane, a caminhar sobre as lajes frias daquele labirinto de abóbadas. Só então compreendeu que, no dia em que descobriu a vertigem do mundo moderno e do comércio da metrópole, pisava sem saber o chão onde repousava o sono silencioso de três mil crianças lisboetas do passado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Bem-vindos ao Principado de Cascais



Parecia uma partida de 1 de Abril fora de época, mas é mesmo a mais recente pérola da engenharia financeira autárquica. A Câmara Municipal de Cascais quer municipalizar a Estrada Marginal (EN6) e instalar portagens para quem não tiver no Cartão de Cidadão uma morada do concelho.

A ideia é digna de um tratado geopolítico da Idade Média. Imagine-se a cena: o cidadão sai despreocupado de Oeiras e, de repente, ao chegar a Carcavelos, depara-se com um pórtico de portagem e uma guarita de controlo fronteiriço.
— Documentos e passaporte, por favor. Motivo da viagem?
— Vou só ali comprar pão à Parede e apanhar um pouco de sol em São Pedro do Estoril…
— Muito bem. São 2,50 € de taxa de trânsito, mais 1,00 € de suplemento pela vista para o mar.

A lógica é simplesmente deslumbrante. Um residente de Oeiras — que durante décadas partilhou a EN6 para ir trabalhar, passear ou levar os miúdos à praia — passa de vizinho de toda a vida a forasteiro poluidor assim que atravessa a fronteira invisível do concelho. Para tomar um café no Estoril, terá de pagar taxa de entrada no Principado, como se estivesse a entrar numa auto-estrada alpina ou a atravessar o Mónaco — mas com mais rotundas.

Resta saber até onde levará esta luminosa visão da gestão territorial. Cobrança automática por via Via Verde em Carcavelos, com tarifa agravada nas horas de ponta? Apresentação de atestado de residência para ir à farmácia em São Pedro sem pagar direitos aduaneiros? Acordos bilaterais entre Oeiras e Cascais, trocando direitos de circulação por lugares de estacionamento?

A Marginal, concebida como uma travessia aberta ao mar e à contemplação, corre assim o risco de se tornar a primeira estrada de bairro do mundo com portagens selectivas por código postal. Uma ideia verdadeiramente inovadora — sobretudo para quem ainda julgava, com enternecedora ingenuidade, que a livre circulação era um direito constitucional e não um bem sujeito a facturação autárquica.

Lado a lado contra o ódio




Três anos após os trágicos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, dois homens marcados por perdas devastadoras decidiram transpor o abismo da divisão e encontrar-se em Nova Iorque para um diálogo promovido pelo programa norte-americano PBS NewsHour.

De um lado, está Jonathan Dekel-Chen, residente no kibutz Nir Oz, em Israel, cujo filho, Sagui Dekel-Chen, foi baleado, raptado e mantido refém pelo Hamas em Gaza durante quase 500 dias, até ser finalmente libertado.

Do outro lado, está Jaser Abu Mousa, um palestiniano natural de Khan Yunis, na Faixa de Gaza. A 15 de Outubro de 2023, um ataque aéreo israelita destruiu-lhe a casa e matou a mulher e dois dos filhos, Hmaid e Abdulrahman. Os dois filhos sobreviventes tiveram de ser evacuados para os Emirados Árabes Unidos, onde foram submetidos a cirurgias complexas. Mais tarde, um novo bombardeamento tirou também a vida à mãe de Jaser.

Apesar do sofrimento avassalador, Jonathan e Jaser recusaram-se a ceder ao ressentimento e à espiral de vingança. Questionado sobre a razão pela qual decidiram expor-se publicamente em conjunto, Jaser formula a questão essencial: "Qual é o custo de não termos esta conversa?" Lembra, assim, que o preço do silêncio e da ausência de diálogo já é dolorosamente conhecido por todos nas vidas destruídas de ambos os lados da fronteira.

Para estes dois pais, a raiz da tragédia reside no facto de extremistas e exércitos deixarem de ver o ser humano por detrás do conflito, reduzindo pessoas reais a alvos ou a meros danos colaterais. Como adverte Jonathan, as populações não podem dar-se ao luxo de esperar que líderes políticos ou ideólogos resolvam o problema, pois continuar a alimentar o ódio por razões políticas apenas garantirá que os seus filhos e netos voltem a enfrentar os mesmos horrores no futuro.

Num mundo cada vez mais polarizado, em que o debate público é frequentemente dominado pela desumanização do outro, pelo desejo de vingança e pela divisão em facções irreconciliáveis, a atitude de Jonathan e Jaser constitui uma lição de enorme coragem cívica. Mostra-nos que a verdadeira força não reside em perpetuar o conflito, mas na capacidade de reconhecer a humanidade de quem se encontra do outro lado e de romper o ciclo da dor. Se dois homens que perderam quase tudo conseguem sentar-se lado a lado para construir pontes de entendimento, que desculpa temos nós para continuar a erguer muros no nosso quotidiano?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que a luz revela quando a memória se apaga

 


Quando soube que o Prémio Nobel da Medicina tinha sido atribuído a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pelo desenvolvimento da optogenética, senti um interesse muito pessoal. Para muitas pessoas, foi apenas mais um marco científico noticiado nos jornais. Para mim, porém, esta distinção ajudou a compreender um episódio recente da minha vida.

Há pouco tempo, como aqui contei, sofri uma hiponatremia aguda grave, provocada pela preparação para uma colonoscopia. O nível de sódio no sangue desceu para 120 mmol/L, um valor perigosamente baixo, e o cérebro desenvolveu edema, ou seja, inchaço. Quando recuperei, percebi que a memória tinha sido afectada de duas formas. Uma amnésia retrógrada apagou o mês anterior ao exame. Além disso, uma amnésia anterógrada acompanhou-me durante cerca de três semanas após o episódio. Três semanas em que o presente parecia escapar-me entre os dedos, em que o que vivia hoje não fixava amanhã e guardar uma memória recente era como tentar escrever na água.

É neste contexto que o trabalho destes três cientistas ganha, para mim, um significado especial. Em termos simples, a optogenética é uma técnica que permite controlar a actividade de células do cérebro através da luz. Deisseroth, Hegemann e Nagel descobriram como usar, em neurónios específicos, proteínas sensíveis à luz, originalmente identificadas em algas e outros microrganismos. Essas proteínas funcionam como um interruptor e um feixe de luz pode activar ou desactivar determinados neurónios com grande precisão temporal.

Esta técnica também tem sido aplicada ao estudo das redes de memória, conhecidas como engramas. A investigação sugere que, em certas situações, uma memória pode não estar destruída, mas apenas temporariamente inacessível. O edema e as alterações na actividade eléctrica do cérebro podem perturbar a comunicação entre as células e tornar alguns circuitos difíceis de activar. É o que se descreve como “engramas silenciosos”, em que a informação poderá continuar armazenada, embora o cérebro não consiga aceder-lhe normalmente. Em experiências com optogenética, os investigadores conseguiram reactivar alguns desses circuitos e recuperar memórias que pareciam perdidas.

Conhecer esta possibilidade ajudou-me a olhar para a experiência com mais serenidade. Pensar que o mês anterior ao exame e as três semanas seguintes podem corresponder a uma falha temporária no acesso ou na formação de memórias, e não necessariamente a uma perda definitiva, altera a minha perspectiva. Este trabalho mostra como o cérebro pode reorganizar-se e recuperar funções à medida que o equilíbrio do organismo é restabelecido e a neuroplasticidade entra em acção.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Uma guerra, cinco espelhos



Quando um jornal noticia uma guerra distante, nunca fala apenas do campo de batalha. O enquadramento do conflito transforma-se num espelho geopolítico e nele reflectem-se as ansiedades, os interesses económicos e a cultura política do país onde a notícia é publicada. A cobertura do conflito entre os EUA e o Irão nas edições de hoje, oferece uma reveladora lição de psicologia global. Por detrás das manchetes sobre bloqueios navais, ataques com mísseis e preços dos combustíveis, cada país está, no fundo, a falar de si próprio.

Ler a imprensa norte-americana — de publicações como o USA Today e o The Wall Street Journal ao The New York Times — é observar uma superpotência inevitavelmente voltada para dentro. O conflito no Médio Oriente depressa se converte numa narrativa de consumo interno, dominada pelo preço do gasóleo na factura dos camionistas, por custos militares que já ultrapassaram os 43 mil milhões de dólares e pela aproximação das eleições intercalares. A retirada de bombardeiros de bases no Reino Unido, devido a ameaças de sabotagem, expõe uma nação poderosa, mas hipervigilante e profundamente polarizada. Aqui, a política externa mede-se sobretudo pelo que pesa no bolso do eleitor — e pelo que pode custar à sobrevivência política da Casa Branca.

Ao atravessar o Atlântico e entrar nas páginas do Le Monde e do Le Figaro, o tom muda e a ambição militar dá lugar à ansiedade económica. A imprensa francesa transmite a inquietação de um continente que sofre os danos colaterais de um incêndio que não ateou. Com o gasóleo a atingir os 2,24 euros por litro e a inflação na zona euro a subir para 3,8%, a Europa surge como um espectador vulnerável, dividido entre a solidariedade transatlântica e o receio de asfixia energética. O destaque dado às reuniões de emergência do G7 e à libertação de reservas petrolíferas revela uma Europa obcecada com a estabilidade social e o custo de vida, aberta à diplomacia, mas cada vez menos tolerante perante o unilateralismo imprevisível de Washington.

Mais a leste, a imprensa chinesa — através de títulos como o China Daily e o South China Morning Post — lê o confronto por um prisma geopolítico frio e calculista. A guerra não é apresentada como uma crise de segurança regional, mas como a expressão acabada do “militarismo” e da “coerção económica unilateral” dos Estados Unidos. Ao amplificar a recusa iraniana de aceitar imposições norte-americanas e ao sublinhar o impacto do conflito nas rotas marítimas globais, Pequim transforma a crise num instrumento de erosão da legitimidade internacional de Washington. A narrativa espelha uma potência em ascensão que procura afirmar-se como guardiã do multilateralismo e do comércio livre, contrapondo a sua promessa de estabilidade ao caos atribuído à intervenção norte-americana.

Em Israel, nas páginas do The Jerusalem Post e do Haaretz, a guerra deixa de ser uma abstracção para se tornar uma realidade quotidiana e existencial. A atenção constante aos ataques dos rebeldes houthi no Mar Vermelho, às ameaças das milícias regionais e às falhas de segurança na aviação comercial reflecte um país onde a segurança nacional é o filtro absoluto da vida pública. As críticas severas do Haaretz às falhas burocráticas e de vigilância revelam uma sociedade sob tensão permanente, na qual política externa, defesa e sobrevivência diária são, na prática, indissociáveis.

Por fim, na imprensa estatal cubana — representada pelo Granma e pelo Trabajadores —, o conflito é elevado à condição de cruzada ideológica. Enquadrada na linguagem clássica da resistência ao “imperialismo norte-americano”, a guerra no Médio Oriente converte-se também numa explicação oficial para as dificuldades internas. Ao ligar directamente a escassez global de petróleo, provocada pelo bloqueio ao Irão, aos apagões diários e aos cortes de água que atingem Havana, a imprensa cubana transforma a geopolítica distante numa narrativa de coesão revolucionária — e numa justificação para a degradação dos serviços públicos.

Assim, a cobertura do conflito entre os EUA e o Irão pela imprensa mundial é muito mais do que um relato de manobras militares, é uma cartografia das prioridades do planeta. Em Washington, vê-se a ansiedade eleitoral; em Paris, a vulnerabilidade energética; em Pequim, a rivalidade estratégica; em Jerusalém, o imperativo da sobrevivência; em Havana, a narrativa ideológica. Perante a mesma guerra, cada nação julga observar o mundo — mas acaba por encontrar o seu próprio reflexo.

sábado, 3 de outubro de 2026

A Marinha e o Azores Ocean



Confesso que estranhei o anúncio da Marinha Portuguesa no Facebook sobre a "assunção" do Comandante do navio Azores Ocean, o Capitão-de-fragata Pedro Vieira. A cerimónia foi presidida pelo Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada, Vice-almirante Pedro Sousa Costa, que a considerou “um momento de particular significado para a Marinha”.

O anúncio distinguia-se dos vários contextos em que a Marinha Portuguesa operou, armou, comandou ou projectou forças militares a partir de embarcações que não integravam o património da Armada, quer por requisição de navios civis — sendo, para mim, particularmente marcante o caso do arrastão Elite, convertido no NRP Augusto de Castilho —, quer pelo destacamento de forças de fuzileiros em navios de Marinhas estrangeiras.

O navio de investigação científica Azores Ocean, apresentado pelo Presidente do Governo Regional dos Açores como um “investimento estratégico” no futuro da Região, é uma plataforma de 46 metros, financiada em cerca de 30 milhões de euros pelo Plano de Recuperação e Resiliência, que representa um avanço no estudo do Atlântico Norte. Baseado no Porto da Horta, dispõe de tecnologia para investigar o mar profundo e de um veículo submarino operado remotamente (ROV).

A sua operação assenta num modelo de gestão tripartido: o Governo Regional dos Açores, através do Tecnopolo MARTEC, é o proprietário e gestor científico; a empresa pública Atlânticoline assegura a logística e a manutenção, ao abrigo de um contrato-programa de dois milhões de euros; e a Marinha Portuguesa assume o comando e a guarnição militar ou militarizada, responsáveis pela operação, manobra, navegação e segurança da embarcação. A transição levou já à desactivação do navio Arquipélago, com risco real de despedimento colectivo dos seus dez tripulantes civis, gerou atritos com os investigadores e implica um elevado custo diário de 18 mil euros. Existe ainda o risco de conflito entre a rigidez militar e a flexibilidade exigida pela investigação científica.

A cooperação entre a Região e a Marinha assenta na doutrina de duplo uso e baseia-se no Protocolo de Cooperação celebrado com o Governo Regional dos Açores em 15 de Outubro de 2025. O documento previa que as condições concretas de operação — incluindo o planeamento anual das missões, o modelo de ressarcimento das despesas e o número de dias de mar atribuídos à Marinha como contrapartida dos encargos com a guarnição — fossem formalizadas num contrato interadministrativo. O prazo máximo de 180 dias fixado para a celebração desse contrato terminou em Abril de 2026. Assim, o contrato continua por assinar, mantendo sob escrutínio o número exacto de dias de mar cedidos à Marinha para missões próprias de soberania e vigilância, bem como os critérios de compensação financeira entre a Região e a Marinha.

Perante este cenário, coloca-se a questão: será este modelo tripartido, que envolve a Marinha, uma simbiose inovadora capaz de reforçar a soberania e a ciência nacionais, ou corre o risco de ficar paralisado pela indefinição contratual e pela pressão financeira?

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma vivência e um alerta

 


Hoje quero partilhar uma experiência pessoal recente — daquelas que nos apanham completamente de surpresa — e que traz consigo uma lição valiosa que todos devemos ter presente.

Há umas semanas, preparei-me para realizar um exame médico absolutamente rotineiro e habitual para muitos de nós: uma colonoscopia. Tudo parecia perfeitamente banal e sob controlo. No entanto, o que deveria ter sido um procedimento simples transformou-se, em poucas horas e sem que eu sentisse a menor dor física, numa situação crítica de saúde que me ensinou como o nosso organismo pode ser traiçoeiro nos momentos mais inesperados.

O que aconteceu foi algo silencioso. Durante a preparação para o exame, a combinação de uma solução de limpeza intestinal forte (à base de sulfatos), a ingestão de água simples e o facto de ter tomado um anti-inflamatório uns dias antes para uma dor na coluna (o conhecido Voltaren) provocou uma queda abrupta e severa do sódio no meu sangue — aquilo a que os médicos chamam hiponatremia ou hiponatrémia aguda grave.

O aspecto mais impressionante e perigoso desta situação é que a queda do sódio não dá pontadas, não dá febre nem provoca dor física. Ataca directa e fortemente o cérebro através de um edema e manifesta-se de forma muito subtil através de comportamentos que, para quem está de fora, podem parecer apenas "cansaço", "stresse" ou "distração", mas que são, na verdade, um verdadeiro grito de alarme do organismo.

No meu caso, os sinais foram evidentes para a minha família, embora eu estivesse totalmente alheado de tudo o que se passava:
  • A apatia e o silêncio: No caminho de carro para a clínica e no tempo que lá estive, limitei-me a dormir e a manter um mutismo contínuo, completamente fora do meu comportamento habitual.
  • A perda da memória recente: Quando cheguei à recepção e perguntei o que estava ali a fazer, e a minha mulher me explicou que ia fazer a colonoscopia, respondi-lhe com toda a convicção do mundo que isso era impossível porque eu "não tinha feito preparação nenhuma" — quando tinha passado a noite inteira nisso! O cérebro tinha simplesmente apagado as últimas horas.
  • A quebra do raciocínio lógico: Pedi na recepção da Imagiologia para falar com a minha médica de Radioterapia — uma médica e um serviço que acompanho há anos noutro contexto totalmente diferente —, sem que houvesse qualquer lógica em chamá-la para aquele exame. Perante a confusão mental, o meu cérebro procurou automaticamente a referência de maior familiaridade e segurança.
Felizmente, a atenção da minha família e a intervenção médica a meio do dia permitiram identificar o problema e dar entrada na urgência do hospital São Francisco Xavier, onde a administração de soro salino hipertónico travou a emergência e repôs os níveis de sódio.

Ao contrário do que gostaria, hoje ainda não estou plenamente recuperado. Na realidade, este episódio deixou marcas: sofro actualmente de amnésia retrógrada, com uma falha de memória que cobre pelo menos todo o mês que antecedeu o evento. Contudo, mantenho um esforço diário e faço tudo o que está ao meu alcance para recuperar totalmente a agilidade mental e a capacidade intelectual do costume.

Partilho isto convosco porque sei que todos nós, ou os nossos familiares mais próximos, fazemos exames deste género com regularidade. E há cuidados e regras de segurança fundamentais que todos devemos fixar:
  • Cuidado com os anti-inflamatórios antes de exames: Se tiverem de fazer uma preparação intestinal ou jejum rigoroso, evitem tomar anti-inflamatórios (como Voltaren ou ibuprofeno) nos dias anteriores, pois eles alteram a capacidade do rim para gerir a água e o sódio.
  • Não bebam apenas água pura em excesso na preparação: Ingerir grandes volumes de água simples sem sais ou sem caldos salgados pode diluir perigosamente o sódio do corpo.
  • A desorientação mental é um sinal de alerta real: Se alguém que vos é próximo estiver a fazer uma preparação ou jejum e começar a parecer confuso, sonolento, a esquecer-se do que fez há poucas horas ou a dizer coisas sem nexo, isso exige avaliação médica imediata, de preferência em urgência hospitalar. Não é "cansaço do jejum".
  • Suspensão imediata de exames e sedação: Perante qualquer sinal de desorientação ou confusão mental, o exame e a sedação anestésica devem ser categoricamente suspensos até que seja feita uma avaliação clínica fiável e segura.
  • Valorizem sempre a intuição de quem está convosco: Quem convive connosco é quem primeiro nota quando "não estamos normais".
Se esta minha experiência servir para que um de vós ou um familiar vosso identifique a tempo uma situação destas e evite complicações maiores, todo este susto terá valido a pena.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O poder do Direito ou o direito do Poder




Quando as superpotências paralisam as instâncias internacionais, a defesa da paz, da integridade das nações e da cooperação global desloca-se para a sociedade civil, para os tribunais e para o plano local.

O palco da Assembleia Geral das Nações Unidas expôs, uma vez mais, a ferida aberta da geopolítica contemporânea. De um lado, a visão abertamente transacional e intervencionista do presidente norte-americano Donald Trump, assente na coerção, no unilateralismo e no desrespeito pela soberania alheia; do outro, o apelo urgente do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, à primazia do Direito Internacional, ao repúdio categórico das intervenções militares e ao respeito escrupuloso pela integridade territorial de todas as nações. Para quem assiste a este choque a partir de Portugal, a perplexidade é inevitável: valerá a pena continuar a defender o multilateralismo quando a força armada parece ditar as regras do jogo?

A tentação do desânimo e do cinismo é enorme, mas seria um erro trágico. A História demonstra que, quando os governos centrais entram em paralisia e o Conselho de Segurança da ONU é bloqueado pelo exercício reiterado do direito de veto, a defesa da Carta das Nações Unidas — e do seu princípio basilar de inviolabilidade das fronteiras — não desaparece: redesenha-se. O multilateralismo não morreu; tornou-se policêntrico, descentralizado e dependente da acção da sociedade civil.

Em vez da resignação, abrem-se caminhos concretos de resistência ética e jurídica. No campo da justiça internacional, organizações independentes e redes de juristas devem accionar a jurisdição universal em tribunais nacionais para julgar crimes de guerra, actos de agressão e atrocidades, garantindo que a violação armada da soberania dos povos não fica impune. Na crise climática, a jurisprudência dos mais altos tribunais globais faculta hoje o enquadramento necessário para litígios estratégicos contra governos e corporações poluidoras, exigindo reparações sob a premissa de que o poluidor tem de pagar.

Ao mesmo tempo, as cidades e regiões assumem o leme da diplomacia subnacional. Os municípios portugueses têm nas suas mãos o poder real de acelerar a descarbonização, implementar compras públicas sustentáveis e integrar alianças internacionais de autarquias, provando que a cooperação e o progresso não ficam reféns das decisões ou de aventuras militares decididas em Washington ou Moscovo.

Paralelamente, como cidadãos e eleitores, cabe-nos exigir da diplomacia portuguesa e europeia uma postura de absoluta firmeza moral: o repúdio inequívoco de qualquer intervenção militar unilateral, a defesa intransigente da integridade territorial e da igualdade soberana dos Estados e a recusa absoluta de duplos critérios na condenação de agressões externas.

Defender uma ordem internacional fundada na lei, na paz e no respeito pela soberania de todos os povos não é uma utopia romântica, mas uma exigência pragmática. A força militar de uma superpotência pode violar fronteiras e impor a sua vontade no imediato, mas a estabilidade duradoura do planeta continuará a depender da recusa obstinada em substituir o império da lei pela lei do mais forte.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Não mudamos nada...




Sei que pouco mudamos ao longo da vida adulta. Podemos alterar as feições, perder o cabelo, ganhar barriga, mudar na aparência, mas no essencial, continuamos iguais ao que éramos aos 18 ou 20 anos.

Na Marinha conhecemos bem o fenómeno. Sempre que nos reunimos, passados 10, 20, 30, 40, 50 anos sobre a entrada na Escola Naval, repetimos as mesmas brincadeiras, fazemos as mesmas asneiras, dizemos as mesmas piadas, manifestamos as mesmas opiniões, tal e qual como no primeiro dia, na primeira semana, no primeiro mês que nos conhecemos. E o que tem piada é que nunca nos cansamos, e até gostamos, de voltar ao passado vezes sem conta.

Lembrei-me disto ao ouvir o discurso de Guterres hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou, falou, como sempre bem, e de entre tudo o que disse fixei isto: “A paz é o domínio do poder pela lei… Necessitamos de uma multipolaridade em rede, enraizada na Carta da ONU, onde a cooperação prevaleça sobre a força. O poder do direito tem de prevalecer sobre o direito do poder.”

Ao ouvi-lo hoje não pude deixar de regressar a 1968 e ao átrio do Técnico, quando andava a conhecer os cantos à casa e o Guterres veio ter comigo, disse que era da Juventude Universitária Católica e que necessitávamos de solidariedade, de esperança e de princípios morais para juntos superarmos as crises do nosso tempo e fazermos prevalecer a justiça e o direito sobre a força.

Perdeu o bigode, envelheceu, o cabelo embranqueceu e já não cai para a testa, mas continua a falar bem e a defender as utopias em que acredita. E eu, tal como há 58 anos, gostei de o ouvir, mas pensei cá para mim que não será por ali que a crise mundial vai ser resolvida.
De facto, no essencial, não mudamos nada…

Neutralidade, memória histórica e protecção democrática




A consagração constitucional do princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, expressa no Artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa e reiterada na Lei de Bases do Sistema Educativo, estabelece categoricamente que o ensino público não pode ter natureza confessional.
 
A observância rigorosa deste preceito ganha uma relevância particular quando confrontada com eventos formais como a inauguração oficial da nova Escola Secundária de Cascais, onde a bênção das instalações pelo Patriarca de Lisboa figurou no protocolo oficial ao lado do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Ministro da Educação.
 
A presença proeminente de um ritual católico e a ausência de qualquer outra representação confessional ou laica geram inevitavelmente margem para desconfianças sobre a equidistância e a imparcialidade do Estado. Embora se argumente que a bênção constitui um mero gesto de cortesia sociocultural desprovido de força coerciva, a participação dos titulares dos órgãos de soberania confere ao acto um aval institucional que compromete o dever de neutralidade pública.
 
Esta ambiguidade é tanto mais problemática quanto evoca inevitavelmente a ritualidade do Estado Novo, período em que a bênção episcopal e a afixação obrigatória do crucifixo nas salas de aula — imposta pela reforma de Carneiro Pacheco em 1936 — serviam como instrumentos de sacralização do regime autoritário e de submissão do ensino à dogmática católica.
 
A sobrevivência formal deste ritual nos actos do Estado contemporâneo cria uma penumbra simbólica que pode ser lida como uma continuidade com a praxe salazarista. Num tempo em que grupos extremistas reactivam discursos saudosistas da ditadura e procuram reabilitar narrativas autoritárias, a tolerância de ambiguidades confessionais na esfera escolar enfraquece a barreira de protecção democrática.
 
A laicidade estrita afirma-se, assim, não como um gesto de hostilidade contra a religião, mas como a única garantia de que o espaço escolar permanece invulnerável a tentativas de instrumentalização ideológica ou tradicionalista.
 
Erradicar definitivamente qualquer ritual ou presença confessional dos actos oficiais e do espaço físico da escola pública é a medida mais sensata e necessária para assegurar que a instituição educativa se mantenha rigorosamente neutra, universal, inclusiva e plenamente comprometida com a igualdade de todos os cidadãos.

Neutralidade, memória histórica e protecção democrática



A consagração constitucional do princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, expressa no Artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa e reiterada na Lei de Bases do Sistema Educativo, estabelece categoricamente que o ensino público não pode ter natureza confessional.
A observância rigorosa deste preceito ganha uma relevância particular quando confrontada com eventos formais como a inauguração oficial da nova Escola Secundária de Cascais, onde a bênção das instalações pelo Patriarca de Lisboa figurou no protocolo oficial ao lado do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Ministro da Educação.
 
A presença proeminente de um ritual católico e a ausência de qualquer outra representação confessional ou laica geram inevitavelmente margem para desconfianças sobre a equidistância e a imparcialidade do Estado. Embora se argumente que a bênção constitui um mero gesto de cortesia sociocultural desprovido de força coerciva, a participação dos titulares dos órgãos de soberania confere ao acto um aval institucional que compromete o dever de neutralidade pública.
 
Esta ambiguidade é tanto mais problemática quanto evoca inevitavelmente a ritualidade do Estado Novo, período em que a bênção episcopal e a afixação obrigatória do crucifixo nas salas de aula — imposta pela reforma de Carneiro Pacheco em 1936 — serviam como instrumentos de sacralização do regime autoritário e de submissão do ensino à dogmática católica.
 
A sobrevivência formal deste ritual nos actos do Estado contemporâneo cria uma penumbra simbólica que pode ser lida como uma continuidade com a praxe salazarista. Num tempo em que grupos extremistas reactivam discursos saudosistas da ditadura e procuram reabilitar narrativas autoritárias, a tolerância de ambiguidades confessionais na esfera escolar enfraquece a barreira de protecção democrática.
 
A laicidade estrita afirma-se, assim, não como um gesto de hostilidade contra a religião, mas como a única garantia de que o espaço escolar permanece invulnerável a tentativas de instrumentalização ideológica ou tradicionalista.
 
Erradicar categoricamente qualquer ritual ou presença confessional dos actos oficiais e do espaço físico da escola pública é a medida mais sensata e necessária para assegurar que a instituição educativa se mantenha rigorosamente neutra, universal, inclusiva e plenamente comprometida com a igualdade de todos os cidadãos.