sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A DIAMANG de Ernesto de Vilhena

 

Ernesto Jardim de Vilhena


A cena é a memória do que a minha mãe me contou quando, ainda miúdo, passámos pelo edifício do seu primeiro emprego. A minha mãe, nos seus vinte anos, a sair da discreta sede da Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), no 2º andar do número 12 da Rua dos Fanqueiros, na Baixa de Lisboa. Saía sempre tarde, muito depois das seis da tarde, mesmo quando o meu pai, então seu namorado, a ia buscar ao emprego. A culpa, contava ela, era do "comandante Vilhena". Todos os dias, às 18 horas em ponto, os funcionários tinham de formar uma silenciosa fila à porta do seu gabinete. Um a um, tinham de lhe perguntar cerimoniosamente: "O senhor comandante determina alguma coisa?". Só depois de os dispensar com um aceno é que podiam ir para casa. Este ritual, trazido da Marinha, era a causa dos atrasos dela e dos "arrufos" com o meu pai, que não gostava de esperar. Esta pequena memória familiar, quase trivial, era, sem que eu soubesse na altura, a janela para o imenso e implacável mundo de poder que Ernesto de Vilhena construiu.

Para se perceber o colonialismo português do Estado Novo, é preciso olhar para figuras como o Capitão-de-fragata Ernesto Jardim de Vilhena, um oficial de Marinha monárquico que foi ministro da República, administrador colonial e de muitas importantes empresas e bancos, e uma figura central na estrutura económica do regime de Salazar. Nasceu a 4 de junho de 1876, em Ferreira do Alentejo, e era filho de Júlio Marques de Vilhena e de Maria da Piedade Leite Pereira Jardim. O seu nome reflecte a união de duas linhagens influentes da elite portuguesa de então: o apelido "Jardim" provinha da família materna, sendo neto do Visconde de Monte São, enquanto o apelido "Vilhena" ligava-o ao pai, um prestigiado advogado e estadista que serviu como ministro e Governador do Banco de Portugal.

O seu percurso na Armada foi atípico. Em 1895, com apenas 19 anos, Vilhena concluiu o curso da Escola Naval e foi promovido a Guarda-marinha. A promoção a Segundo-tenente ocorreu em 1898 e entre 1902 e 1904 foi nomeado Governador dos territórios da Companhia do Niassa. O sucesso no Niassa catapultou-o para uma nova comissão de serviço: Governador do Distrito da Zambézia (1905-1907). Embora afastado do mar e dos navios, Vilhena manteve-se no quadro permanente da Armada. O sistema de comissão em serviço nas colónias permitia que o tempo de serviço contasse para a antiguidade naval. E para a Marinha, ter oficiais em cargos de governadores era uma forma de projectar influência.

Após as comissões em Moçambique, Vilhena regressou a Lisboa e foi requisitado para os órgãos centrais do poder. Foi deputado em 1907 (e novamente em 1915) e integrou o gabinete do ministro da Marinha e Ultramar entre 1909 e 1910. A passagem pelo gabinete ministerial nas vésperas da implantação da República colocou-o no centro nevrálgico da decisão política. A implantação da República trouxe profundas mudanças nas estruturas militares, mas Vilhena sobreviveu às purgas políticas e, em 1911, já Primeiro-tenente, foi nomeado Governador do Distrito de Lourenço Marques.

No entanto, a instabilidade governativa da Primeira República abreviou a sua comissão. Em maio de 1912, registos oficiais mostram que o Primeiro-tenente Vilhena foi exonerado do cargo. Em julho de 1912, está na Majoria General da Armada. A promoção ao posto de Capitão-tenente terá ocorrido em 1915 e em 1917, num momento em que Portugal estava envolvido na Primeira Guerra Mundial, Ernesto de Vilhena foi nomeado ministro das Colónias. Após a guerra, em 1920, Vilhena atingiu o posto de Capitão-de-fragata. Sendo tradicionalmente o posto de comando de navios de porte significativo, para Vilhena esta promoção marcou a entrada definitiva na alta finança colonial.

A patente de Capitão-de-fragata conferiu-lhe o título social de "comandante", pelo qual seria conhecido até ao fim dos seus dias.[1] Mais do que uma designação militar, tornou-se uma marca de autoridade. Ernesto de Vilhena passou oficialmente à situação de reserva em 1936, o que significa que, durante 16 anos, manteve o vínculo formal à Armada, provavelmente em situações de licença especial ou comissões de serviço público que lhe permitiam gerir a DIAMANG, o Banco Burnay e outras empresas. Na Companhia de Diamantes de Angola, que começou a administrar em 1919, Vilhena instituiu um regime de gestão que replicava a hierarquia e a disciplina de uma unidade militar. O pequeno ritual da Rua dos Fanqueiros era apenas um reflexo da forma como geria a empresa, o mais valioso activo do Império.


A Companhia de Diamantes de Angola era muito mais do que uma empresa mineira.[2] Era o verdadeiro pulmão financeiro do regime, uma máquina de gerar divisas estrangeiras que lubrificava a economia do Estado Novo.[3] Na vasta região da Lunda, no nordeste de Angola, a DIAMANG funcionava como um autêntico "estado dentro do estado", com uma autonomia quase total. Vilhena, a partir de Lisboa, orquestrou um sistema de controlo absoluto para garantir um lucro sem entraves. A base de tudo era o controlo da mão de obra. Havia um sistema duplo: os voluntários, que vinham das redondezas, e os contratados, recrutados à força em toda a colónia. A necessidade de cumprir metas de produção era tão grande que a companhia manipulava deliberadamente os seus próprios critérios de saúde. Utilizava um sistema antropométrico, o índice de Pignet, para avaliar a aptidão dos recrutas, mas fixava o limiar de aceitação num valor que permitia admitir homens classificados como "fracos" ou "muito fracos". O que importava era o número de braços, não o bem-estar dos homens. Para garantir este fluxo constante de trabalhadores e manter a paz, Vilhena aperfeiçoou um sistema de manipulação do poder local. A DIAMANG cooptava os chefes tradicionais, os sobas, usando-os para recrutar os seus próprios homens e reprimir qualquer sinal de revolta. Nas Grandes Festas Anuais, um evento de propaganda cuidadosamente encenado, os sobas mais "cooperantes" eram publicamente recompensados com presentes como o cobiçado "manto mucambo", reforçando a sua lealdade à empresa que, na prática, os tinha subjugado.

Este controlo era cimentado por um paternalismo calculado. A empresa oferecia alguns cuidados de saúde, mantinha lojas com produtos básicos e até comprava os excedentes agrícolas das populações. Mas por trás desta fachada, a realidade era outra. Os registos mostram que os trabalhadores contratados visitavam o hospital três a quatro vezes mais do que os voluntários, muitas vezes com feridas autoinfligidas ou deliberadamente agravadas na esperança desesperada de serem repatriados por motivos médicos. Numa citação reveladora, o próprio Vilhena justificou a recusa em dar melhores condições aos trabalhadores para evitar a sua "destribalização", ou seja, para os manter dependentes e subordinados. Até a cultura foi usada como ferramenta de poder. A criação do famoso Museu do Dundo, embora tenha preservado um espólio etnográfico notável, não servia apenas uma ideologia de guardiã da cultura local. Funcionava também como um palco pragmático para a política de recompensas, onde a honra de ter um retrato fotográfico exposto na sua galeria era mais uma forma de garantir a lealdade dos chefes locais.

A obsessão de Ernesto de Vilhena pela ordem e pela hierarquia, foi o princípio que transformou a DIAMANG numa máquina de extração de riqueza brutalmente eficiente. Foi esta máquina que, durante décadas, forneceu o sustento financeiro para a política colonial de Salazar. A pequena e disciplinada fila de funcionários na Rua dos Fanqueiros, à espera da autorização do comandante para poderem finalmente ir para casa, era o micro reflexo do vasto sistema de controlo que ele implementou a milhares de quilómetros de distância, nas minas da Lunda. Era um espelho da sua visão de mundo: um lugar onde tudo e todos respondiam a uma única autoridade, a sua. Esta figura, hoje quase esquecida, deixou uma marca profunda, tanto nas pequenas memórias da minha família como na grande e conturbada história do colonialismo português.

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[1] Faleceu a 14 de fevereiro de 1967, em Lisboa. Embora fosse um aliado fundamental do Estado Novo, mantinha uma relação complexa com Salazar. Nos seus diários privados, Vilhena descrevia o ditador como um "pacóvio" pelo seu isolamento e desconhecimento do país real. No fim da vida, já fragilizado e com problemas de visão, Vilhena resistiu à pressão de Salazar para abandonar o comando da DIAMANG, retirando-se apenas três meses antes de falecer. Fora do mundo dos diamantes, Vilhena era um obsessivo colecionador de arte. A sua residência na Rua de São Bento, em Lisboa, albergava cerca de 65 mil objetos, incluindo escultura medieval, cerâmica, pratas e livros raros. Investiu a sua fortuna (auferia um salário milionário que Salazar considerava excessivo) na aquisição de antiguidades. Após a sua morte, o Estado aceitou uma doação de mais de 1500 esculturas da sua coleção como pagamento do imposto sucessório da família.

[2] A DIAMANG não foi um projeto exclusivamente português, mas o resultado de uma convergência de interesses financeiros globais. Criada em 16 de outubro de 1917, em sucessão à Pesquisas Mineiras de Angola (PEMA), a sua fundação envolveu grupos financeiros de Portugal (Banco Burnay e Banco Nacional Ultramarino), Bélgica (Société Générale de Belgique), França (Banque de l'Union Parisienne) e Estados Unidos (grupo Ryan-Guggenheim). Esta composição internacional foi fundamental para garantir que a empresa tivesse acesso imediato a capitais de investimento e, principalmente, à perícia técnica que Portugal, como metrópole menos industrializada, não possuía em escala suficiente. A estrutura acionista da DIAMANG em 1929 demonstrava uma interconexão profunda com os principais centros de poder da indústria diamantífera. O conselho de administração incluía representantes da empresa mineira belga Forminière, o presidente do Sindicato de Diamantes de Londres e representantes da Anglo American Corporation. Esta rede de influências garantia que a Diamang não fosse apenas uma produtora periférica, mas um nó central na rede de distribuição global, assegurando que a sua rentabilidade fosse protegida por acordos de comercialização preferenciais e pela estabilidade de preços garantida pelo cartel.


[3] A Companhia de Diamantes de Angola desempenhou um papel vital na sustentação do regime salazarista, funcionando como um pilar fundamental do Estado Novo e o maior motor económico do império colonial português. A sua contribuição para o regime manifestou-se em três vertentes principais: financeira, administrativa e ideológica. Através de sucessivas renovações contratuais (1921, 1937 e 1955), o Estado português recebia directamente 50% dos lucros líquidos da empresa. A DIAMANG era a principal fonte de moeda estrangeira (divisas) para a metrópole, sendo obrigada contratualmente a fornecer libras esterlinas ao fundo cambial angolano, o que garantia estabilidade macroeconómica ao regime. A empresa funcionava como o principal banqueiro do Estado colonial, concedendo empréstimos a juros baixíssimos (1%) para financiar obras públicas, como estradas e barragens hidroelétricas, que o governo, por falta de recursos próprios, não conseguiria realizar. Na vasta província da Lunda, a Diamang operava com uma autonomia quase soberana, exercendo funções que deveriam ser públicas. Ela geria o policiamento, a saúde, a educação e a rede de transportes, permitindo ao regime projectar soberania em territórios onde a burocracia estatal era fraca ou inexistente. A empresa monitorizava de perto o comportamento político dos seus funcionários, colaborando ativamente com a PIDE/DGS a partir da década de 1960 para detectar quaisquer sinais de subversão ou apoio aos movimentos de libertação. A DIAMANG foi utilizada pelo regime para validar a narrativa da "missão civilizadora" portuguesa em África. Através do Museu do Dundo e de vastas publicações científicas, a empresa projectava uma imagem de colonialismo esclarecido e paternalista, tentando contrariar as críticas internacionais sobre o trabalho forçado. Apesar das críticas de figuras como Gilberto Freyre, a administração da DIAMANG esforçava-se por conciliar as suas práticas com os ideais de harmonia racial do regime, servindo de montra para o que Marcello Caetano descreveu como uma obra que "bem merece da Nação".


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Europa entre a desilusão transatlântica e a afirmação estratégica

Contrariando a opinião de muitos comentadores, sou dos que acreditam que a Europa atravessa um momento histórico. O afastamento dos Estados Unidos da América, que muito teimam em não reconhecer como possível, poderá obrigar os europeus a enfrentar o imperativo de tornar a Europa autónoma e relevante no cenário internacional.

O potencial económico da Europa é inegável, mas não cumpre plenamente o seu papel global devido à falta de coesão política e de coragem estratégica. Apesar de um PIB comparável ao dos EUA, de uma base industrial avançada e da importância no comércio mundial, os principais entraves são internos: bloqueios políticos, duplicação de esforços, especialmente na defesa, e ausência de uma política industrial coordenada. Superar esses obstáculos tornou-se uma necessidade urgente.

A defesa é central para essa transformação. Durante décadas, a Europa confiou na proteção dos Estados Unidos, o que permitiu gastos reduzidos e uma abordagem fragmentada ao sector. Hoje, aumentar as despesas militares para, pelo menos, 2% do PIB não deve ser visto como um fardo, mas como o custo necessário para garantir segurança e autonomia. Essa mudança de paradigma é essencial para dissuadir ameaças e fortalecer o estatuto internacional da Europa.

No entanto, a resposta europeia não pode ser apenas reactiva. Para se tornar um terceiro polo credível e atractivo, a Europa deve investir em inovação, digitalização e políticas industriais robustas, capazes de competir com os gigantes tecnológicos dos EUA e da China. Liderar em inteligência artificial, energias renováveis e mobilidade sustentável pode ser o diferencial necessário para criar uma alternativa genuína às demais grandes potências.

O desafio é mais do que técnico ou económico. Trata-se de um teste existencial para a ideia de Europa. A adversidade pode ser o catalisador para romper impasses e transformar a União Europeia de um projeto essencialmente económico e regulador em uma potência política e militar.

O que está neste momento em causa é o futuro da Europa e a sua atitude relativamente aos EUA. O projecto da coligação de vontades para apoiar a Ucrânia será um bom teste. No cenário de fragmentação e decadência da Europa, ela provavelmente morre. Sem uma frente unida, cada país começa a olhar para o seu próprio umbigo. O apoio à Ucrânia torna-se um fardo pesado demais e a "força de paz" retira-se, deixando Kiev à mercê de Moscovo. Na melhor das hipóteses, a coligação sobrevive, mas como um escudo de papel. Faz o mínimo indispensável: treina soldados ucranianos e paga as contas com os juros dos bens russos congelados, mas evita qualquer ação que possa irritar o Kremlin ou a Casa Branca. Será uma paz frágil e sem ambição. No cenário de alinhamento subordinado aos EUA, o mais provável, a coligação transforma-se num instrumento da política externa americana. Os soldados europeus fazem o trabalho perigoso no terreno (boots on the ground), enquanto Washington dita as regras do jogo e fornece apenas as informações e os satélites. Basicamente, a Europa paga e morre, e os EUA decidem. No cenário menos provável de autonomia estratégica da Europa, a coligação pode tornar-se o embrião de um futuro exército europeu. A força multinacional na Ucrânia deixa de ser uma medida de recurso para ser uma demonstração de força. Será a Europa a dizer que trata da sua segurança.

A crise pode ser o ponto de partida para a transformação. A ruptura geopolítica causada pela nova postura dos EUA é difícil, mas oferece uma rara oportunidade para a Europa se afirmar como uma potência autónoma. Se a Europa mobilizar a sua força colectiva, superar as suas divisões internas e agir com determinação, poderá garantir a segurança e influenciar o equilíbrio global de poder. O risco é grande, mas a maior recompensa é o surgimento de uma Europa forte, autónoma e protagonista. O tempo de decidir é agora, e a História não espera pelos indecisos.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Portugal e o fim da ponte atlântica

A guinada brusca da política externa dos Estados Unidos inaugurou um novo tempo, o da "Doutrina Donroe". Pela sua lógica, aliados tornam-se adversários e a cooperação cede à pressão. Assim, o tradicional papel de Portugal como mediador entre Washington e a Europa tornou-se inviável. No novo cenário, Portugal tem de abraçar definitivamente a autonomia europeia. O tempo da ambiguidade acabou e é a hora das escolhas nítidas, determinadas por aquela doutrina.

A "Doutrina Donroe" não é apenas uma mudança de rota. Representa a reescrita das regras do jogo global. Formalizada na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 (NSS), ela é o corolário de Trump à Doutrina Monroe. Converte a Europa, de parceira, em rival estratégica e encerra abruptamente o consenso transatlântico do pós-guerra.

A NSS é uma declaração de guerra política contra a União Europeia. O texto critica as políticas regulatórias europeias e acusa-as de prejudicar a liberdade política. Procura incentivar a resistência nos países europeus, apoiando movimentos populistas e "patrióticos". A mensagem é directa: uma Europa unida já não interessa a Washington. Para os EUA, a Europa passou a ser um rival a ser enfraquecido por dentro.

Dividir a Europa tornou-se o objetivo declarado dos EUA, como ficou claro na intervenção militar na Venezuela. Paris e a liderança da União Europeia condenaram a ação, alegando que ela violava o direito internacional. Já o governo italiano de Giorgia Meloni optou por um apoio indireto, tentando preservar laços com Washington. Os americanos exploram essas fissuras. Premeiam quem colabora e punem economicamente quem defende a autonomia da UE, como França e Alemanha. A tática de "dividir para reinar" paralisa a capacidade de ação conjunta da Europa.

Portugal sente diretamente essa divisão estratégica. Durante anos, a diplomacia portuguesa ancorou-se na ideia da "ponte atlântica". Agora, a "Doutrina Donroe" obriga Lisboa a escolher entre lealdades históricas. Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do país fora da UE, absorvendo quase 5 mil milhões de euros em exportações anuais. Por isso, o dilema é complexo.

A Base das Lajes, nos Açores, simbolizou a aliança entre Portugal e os Estados Unidos. Com a “Doutrina Donroe”, a base pode ser vista como uma forma de cumplicidade. Em 2025, a atividade aumentou, sobretudo com aviões de reabastecimento americanos. No futuro, permitir o uso para operações rejeitadas na Europa, África e América do Sul pode afastar aliados. Recusar pode acarretar retaliações dos EUA.

A pressão dos Estados Unidos é clara e forte. O ex-embaixador americano George Glass exigiu que Portugal se posicionasse "entre os seus amigos e aliados e a China". O tema envolvia o 5G e investimentos em infraestruturas, como o Porto de Sines, e já mostrava o que estava por vir. Com a “Doutrina Donroe”, a exigência de alinhamento total tornar-se-á ainda mais rigorosa. Washington pode cortar a partilha de informações de segurança e a cooperação na NATO caso Lisboa não obedeça.

O regime tarifário imposto pelos EUA em 2025 atingiu os sectores exportadores nacionais e evidenciou a vulnerabilidade da economia do país. Com as novas taxas aduaneiras americanas, o imposto sobre o calçado português nos EUA pode chegar a 30% ou 40%. Sectores como o calçado e o têxtil já alertaram para os riscos elevados de perda de empregos, especialmente no Norte. O sector dos vinhos também depende amplamente do mercado americano. Para competir, os produtores nacionais reduzem as suas margens, o que ameaça muitos negócios. Em contraste, a cortiça ficou isenta de impostos por ser essencial para os vinhos americanos. Isso mostra o lado prático da “Doutrina Donroe”: as concessões só ocorrem quando beneficiam diretamente os interesses dos EUA.

Portugal tem diante de si uma escolha inadiável: abandonar definitivamente as velhas ilusões atlânticas e assumir o desafio de ajudar a construir uma Europa mais autónoma. Qualquer tentativa de agradar a todos é um risco real de desaparecer na irrelevância da História. É o momento de agir com determinação.

A velha aliança atlântica, fundada em valores comuns, acabou. Os EUA agora adotam uma política de força e intervêm diretamente nos assuntos europeus. Combinam pressão externa, como tarifas e coerção, com apoio a movimentos que corroem a Europa por dentro. Washington apoia abertamente forças iliberais, como o Chega em Portugal. O objetivo é transparente: enfraquecer a União Europeia.

Confiar nos EUA, quando estes atacam economicamente a Europa, é uma contradição insustentável. O fracasso do acordo UE-Mercosul escancara essa realidade. O tratado naufragou tanto pela hesitação europeia, marcada pelo proteccionismo agrícola francês, como pela pressão directa de Washington para barrá-lo. Portugal e a Europa perderam a oportunidade de diversificar os mercados. O episódio revela a urgência de uma política externa e económica europeia mais coesa e ativa.
 
Paradoxalmente, a instabilidade americana aumentou o investimento dos EUA em Portugal, visto como um "porto seguro". No entanto, é preciso distinguir o fluxo de capital do alinhamento político. Washington semeia instabilidade geopolítica, enquanto o capital americano se aproveita da estabilidade de países como Portugal. O que dificulta uma resposta política unificada à pressão dos EUA.

O dilema de Portugal é claro: escolher entre submeter-se a uma hegemonia volátil, que trata o país como descartável, ou assumir um papel activo na construção de um futuro europeu soberano. A sobrevivência e a dignidade nacionais exigem coragem para que Portugal supere as suas fragilidades e se torne, com determinação, um pilar sólido de uma Europa unida.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Memórias da terra dos diamantes


Para o meu povo, o tempo não se mede em anos, mas em histórias passadas junto à fogueira. Com a pele enrugada e o olhar voltado para o passado, sinto que é minha vez de contar. É o dever de um soba cuja vida mudou com a chegada da Companhia.

Antes deles, a nossa vida na Lunda era tecida em harmonia com a terra. Os rios eram as veias do mundo. As árvores, os pulmões. Em cada rocha ou clareira sentíamos a presença dos nossos antepassados. Eu recordo o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas. Recordo a corrente fria do rio nos meus pés. Éramos parte da terra, e a terra era parte de nós. No entanto, ela guardava um segredo. Brilhante, duro, nas suas profundezas. Um segredo que viria a mudar o nosso mundo para sempre.

Antes de o brilho dos diamantes ofuscar as nossas tradições, o meu papel como soba era claro. Eu era o guardião do equilíbrio. Competia-me aplicar a justiça, resolver disputas entre famílias e, acima de tudo, manter a ligação sagrada com os espíritos da terra e dos antepassados. O meu povo olhava para mim não com medo, mas com respeito, pois a minha palavra era a continuação da palavra dos que vieram antes de mim.

A minha autoridade vinha das insígnias herdadas: o bastão entalhado da linhagem, o citwamo ca xiki de madeira resistente. Sentar-me nele era sentir o peso dos que me antecederam. O poder emanava da confiança do povo e da bênção dos espíritos. Isso mudou quando um novo poder, vindo de longe, passou a cobiçar a nossa terra.

A Diamang não chegou em silêncio. Chegou com a força dos seus cipaios, os seus polícias africanos, que percorriam as nossas aldeias com uma missão: recrutar homens para o trabalho, para o contrato.
Nós, os sobas, fomos postos numa encruzilhada difícil. Lembro-me das noites sem dormir. O fumo do cachimbo enchia a cubata. A minha mulher dormia enquanto eu pensava nos nomes que teria de dar. Lembro-me do rosto de um rapaz, o filho do meu primo. Forte. Bom caçador. Senti o coração apertar-se ao saber que o seu destino estava agora nas minhas mãos.

Resistir significava punição, prisão, humilhação. Colaborar, enviar os nossos próprios filhos e irmãos para um trabalho duro e distante. A colaboração tornou-se, muitas vezes, a única alternativa para nos livrarmos das retaliações.[1]

Foi nesse tempo que senti o meu poder real a esvair-se. A minha capacidade de proteger a minha gente agora estava limitada pela força da Companhia, e senti que o meu poder, como o de tantos outros sobas, estava em franco declínio. No entanto, nem todos os brancos eram iguais: havia homens do poder e homens das pedras. Um deles, um geólogo ainda jovem, olhava para a terra não com a cobiça do chefe, mas com a curiosidade de um feiticeiro a ler os ossos. Falava pouco, mas os seus olhos compreendiam a linguagem antiga das rochas. Isso eu via.[2]

A verdadeira história desse tempo de dor não está nos relatórios da Companhia, mas nas canções que o nosso povo cantava ao fim do dia. Eram canções de perda, de saudade e de sofrimento. A "Missão de Recolha de Folclore Musical" da própria Companhia guardou, sem saber, a voz da nossa alma ferida. Contavam a história de Muassonhengue, um jovem que partiu para o contrato e, quando regressou, soube que a sua mãe tinha morrido na sua ausência. O seu lamento era o lamento de todos nós: “Ó feiticeiro, que mataste minha mãe, quem me leva à sepultura dela, para eu lá chorar, ó feiticeiro?

Estas canções eram o nosso refúgio, a única forma de contar a nossa verdade. Mas a Companhia não usava apenas a força. A sua arma mais subtil e poderosa não era de ferro, mas de vidro e de madeira: o grande Museu que construíram no Dundo.

Lembro-me da minha primeira visita ao Museu do Dundo. Fui convidado como um chefe honrado. O edifício era um gigante de tijolo no coração da terra. Lá dentro, ar frio; cheiro de pó e silêncio. Os meus passos ecoavam no chão polido. Estranho som, num lugar em que tudo o que era nosso estava mudo. Então vi: nas vitrinas de vidro, sob uma luz pálida, estavam os nossos objetos sagrados. Vi a cadeira do soba Kalundjika, que conheci, rapaz. Lembro a força da sua voz sentado nela… e agora estava ali, fria e vazia, com um papel pequeno com o seu nome, como se fosse uma campa. A nossa alma presa atrás do vidro.

Cadeira que pertenceu ao soba Kalundjika
(recolhida na Campanha Etnográfica ao Tchiboco)

A Diamang usava o Museu para nos oferecer presentes e nos "honrar". Mas cada presente tinha um peso; cada honra era uma forma de controlo. O manto mucambo, recebi-o com grande alegria, sim. Mas ao vesti-lo, senti que me tornava o soba tradicional que eles queriam que eu fosse: obediente, previsível, uma peça colorida no seu jogo. As medalhas eram pesadas e brilhavam ao sol. Sobas como Tchingambo e Samalamba exibiam-nas com orgulho. Mas era um prestígio que vinha deles, não dos nossos antepassados. Cada medalha no meu peito era um elo que me prendia mais a eles do que à minha terra. Deram-me o meu retrato emoldurado para pendurar na minha cubata. Era um feitiço poderoso; nunca um homem do nosso povo se tinha visto assim. Mas era um feitiço deles. A minha imagem, presa à moldura deles, tornava-me um deles, uma peça da sua coleção, para ser olhado, e não para ver.

Junto ao Museu, construíram uma sanzala, uma aldeia-modelo. Ali viviam e trabalhavam os nossos melhores escultores, como o grande Mulumba Canhanga. Diziam que era para "preservar" a nossa arte, mas, na verdade, os artistas eram como peças vivas do Museu, a trabalhar sob o olhar atento e sob o domínio da Companhia.

Uma vez por ano, havia a "Festa Grande". Era um espectáculo de abundância. Nós, os sobas, éramos os convidados de honra, mas era uma honra amarga, pois durante o resto do ano estávamos proibidos de entrar nas minas. Lembro-me do soba de Sombo a queixar-se em voz baixa: "Gostei muito, comi e bebi o quanto quis. Mas dinheiro é o que a Diamang não me dá", enquanto via os seus próprios "súbditos" receberem prémios em dinheiro. Saíamos do Dundo com presentes nas mãos e um peso no coração, pois entendíamos que cada honra que nos era concedida era também um elo na corrente que nos prendia à vontade da Companhia.

Agora, no fim da minha jornada, olho para trás e faço as contas desta vida. A chegada da Diamang foi como uma cheia que arrasta tudo, mas também deixa novas sementes na terra. Perdemos o controlo sobre a nossa terra e as suas riquezas. Perdemos grande parte da nossa autonomia, vendo o nosso poder diminuir até ficar pouco mais do que uma sombra. Perdemos a força de muitos dos nossos jovens, levados para o trabalho forçado, para o contrato de onde voltavam doentes ou não voltavam de todo. Aprendemos a arte difícil da negociação para sobreviver, a dançar uma dança perigosa entre a colaboração e a resistência silenciosa. Aprendemos a usar os símbolos do novo poder, como retratos e medalhas, para manter algum prestígio perante o nosso povo. Acima de tudo, aprendemos a manter viva a nossa verdadeira história.
 
Diziam em Lisboa que a Companhia era uma "empresa de colonização" que nos tratava bem. Líamos essa bondade nos corpos exaustos dos homens que voltavam do contrato e na fome que as rações deles não matavam. A história deles era escrita com tinta em papel; a nossa, com suor na terra e lágrimas nas canções.

Aos mais novos, que leem estas palavras, deixo um pedido. Não olhem para a nossa história com um olhar simples, de julgamento fácil. A vida sob este poder não era preta ou branca; era feita de muitos tons de cinzento. Compreendam as escolhas difíceis que a minha geração teve de fazer.

E lembrem-se sempre de que a nossa cultura não é um objeto morto a ser guardado numa caixa de vidro. É uma chama que arde dentro de nós. Enquanto cantarmos as nossas canções e contarmos as nossas histórias, ela não será aprisionada nem extinta. Ela vive na vossa alma e na vossa voz. Mantenham-na acesa.

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[1] A principal função dos sobas para a Diamang era actuar como mediadores no recrutamento de mão-de-obra, sendo peças essenciais para o fornecimento dos trabalhadores necessários à exploração mineira. Os sobas eram responsáveis pela seleção prévia nas suas aldeias dos homens que seriam entregues aos cipaios para cumprir o trabalho por contrato (trabalho forçado cuja duração variava entre 12 a 24 meses). Os trabalhadores "contratados" vinham geralmente de regiões distantes da Lunda, como Moxico ou Malange, e eram conduzidos em longas marchas a pé até à sede no Dundo. Eram destinados às tarefas mais pesadas e perigosas, como o desmonte de materiais, a remoção do estéril e o transporte manual de cascalho em cestos. Tinham um estatuto social inferior e eram submetidos a uma repressão disciplinar severa, incluindo castigos físicos se falhassem as metas. A partir de 1961, com as mudanças no quadro jurídico, as autoridades administrativas deixaram de receber remunerações por estes serviços, que passaram a ser pagas exclusivamente aos sobas pela sua colaboração directa no angariamento. Além do recrutamento forçado, a Diamang utilizava os sobas para fazer propaganda junto das populações, incentivando os trabalhadores a apresentarem-se espontaneamente ou a permanecerem na empresa como "voluntários" após o término dos seus contratos iniciais. Os “voluntários” ocupavam geralmente os postos de trabalho mais leves ou especializados (mecânicos, carpinteiros). Tinham maior margem de negociação e, em caso de insatisfação, podiam abandonar o serviço com maior facilidade, uma vez que não estavam sob a mesma vigilância que os "contratados". Os sobas funcionavam como representantes da autoridade da companhia nas suas comunidades, sendo incumbidos de aconselhar o seu povo ao trabalho e à disciplina. A sua colaboração era vista como vital para a estabilidade da região e para sustar possíveis revoltas ou resistências. Os chefes tradicionais tiveram um papel determinante no apetrechamento do Museu do Dundo, fornecendo informações etnográficas, identificando objetos e facilitando a aquisição de peças para o acervo. Também eram responsáveis por mobilizar e coordenar os ensaios dos grupos folclóricos que se apresentavam nas festividades da empresa. Os sobas eram instados a vigiar actividades ilícitas, como o contrabando de diamantes, e podiam ser punidos ou presos pela administração colonial caso não cumprissem as metas de recrutamento ou não mantivessem a ordem esperada. Em troca desta colaboração multifacetada, a Diamang mantinha um sistema de recompensas para beneficiar os sobas material e simbolicamente (através de mantos, fardas, medalhas e retratos), garantindo que estes se mantivessem prestigiados perante os seus súbditos, desde que servissem os interesses da empresa.


[2] O geólogo e engenheiro de formação a quem se atribui um olhar sobre a terra comparável ao de um feiticeiro pela sua capacidade de ler a estrutura do solo, foi René Delville. Embora a frase "feiticeiro a ler os ossos" seja uma caracterização lírica comum na historiografia e documentários sobre a Lunda (como em passagens de “Dundo, Memória Colonial”), Delville é considerado um investigador cujas características confirmam essa visão. Delville notabilizou-se na Diamang ao desenvolver a teoria geológica do "Graben Lucapa". Seguindo pistas iniciadas por Freire de Andrade, identificou compartimentos geológicos lineares que se estendiam de Maludi até à fronteira com o Zaire, o que permitiu localizar com precisão jazigos diamantíferos primários e secundários. Devido à sua personalidade reservada e à precisão das suas análises, Delville era conhecido na Lunda pelo nome de Dimoxo, o nome de um pássaro da região que, segundo a crença local, fala pouco, mas só diz a verdade. Foi ele quem sugeriu a toponímia de Lucapa (situada entre os rios Luachimo e Chicapa). René Delville é recordado como um mestre da prospecção que não olhava para a geologia apenas como uma técnica de extração, mas como uma investigação profunda da história da terra.