Meu Caro Diniz,
Forte abraço,
Jorge
Facto de viver, de ter vida; existência. Experiência de vida. Processo psicológico consciente no qual o indivíduo adopta uma posição valorizante, sintética, que não é apenas passiva e emocional, pois inclui também uma participação intelectual activa. O conhecimento adquirido através da experiência vivida. Não é lido, não é contado, é experimentado.
| 3 de Setembro de 2017 |
Em tempo:
Apesar da roupagem, este texto a que dois amigos,
simpaticamente, chamaram conto é, na verdade, o relato de uma experiência
vivida há cinco décadas. A memória desse episódio foi reavivada pelos
acontecimentos recentes, nos quais a lógica da exclusão ressurge entrelaçada
com os esforços de sobrevivência política do presidente dos EUA.
No século XIX, a voracidade da expansão ferroviária nos EUA e da corrida ao ouro na Califórnia, atraiu uma mão de obra que o atavismo xenófobo rapidamente converteu em ameaça.
O que começou por despertar alguma simpatia cristalizou-se, com a Lei Page e a
Lei de Exclusão de 1882, numa desumanização do chinês, retratado como uma
“horda imunda” e um “estrangeiro perpétuo”. Esse bicho-papão racial ressurge
hoje como ameaça sistémica, fundindo o estigma do passado com a actual ansiedade
tecnológica.
A Cimeira de Pequim constitui, para Trump, um exercício de
sobrevivência política. Pressionado pelas eleições intercalares e pela asfixia
energética no Estreito de Ormuz, onde Pequim detém uma influência decisiva
sobre o Irão, Trump procura um quid pro quo transacional que lhe permita
revitalizar a base interna. A agenda curta expõe, porém, a fragilidade desta
estabilização táctica: seja na questão da soja e do fentanil, convertidos
em trunfos mediáticos para o eleitorado do Midwest; seja na tentativa de
assegurar o acesso a minerais críticos que Pequim instrumentaliza como reserva
estratégica; seja ainda na ambiguidade em relação ao Irão e a Taiwan,
em troca da reabertura de rotas comerciais vitais.
O paradoxo é flagrante. Washington tenta excluir a China do ecossistema global (Biosecure Act) ao mesmo tempo que mendiga os seus recursos e a sua influência. A História deixa aqui uma lição que o pragmatismo de curto prazo insiste em ignorar: instrumentalizar o preconceito para mascarar fragilidades internas só acelera a erosão hegemónica. O que hoje vemos é o reflexo do pavor de um declínio que nenhuma barreira legislativa, nem qualquer política de exclusão, conseguirá por si só apagar.
A sala de aula na escola do 1.º ciclo exalava aquele odor
familiar a tintas e papel, uma textura de infância que atravessa gerações, mas
o ar estava carregado de uma electricidade diferente. Havia um contraste quase
mágico entre a nossa gravidade serena de homens da Marinha, cujos rostos
guardam a memória viva de uma ruptura histórica, e a vivacidade inquieta das
crianças, cujos corpos não conhecem a imobilidade do medo.
Estávamos ali para "Semear Abril", numa tentativa
de traduzir o impalpável. No ecrã, a imagem de uma menina, criada pela Rita
Correia, semeando cravos num solo rachado servia de preâmbulo à nossa
"viagem no tempo". O objectivo era entregar-lhes uma "semente de
coragem", explicando que a liberdade não é um estado natural da alma
portuguesa, mas um jardim conquistado com esforço. À medida que o objectivo da
nossa presença se desenhava na curiosidade dos olhos infantis, percebi que a
herança que ali deixávamos não era apenas feita de datas e nomes, mas também de
uma responsabilidade ética que se materializava num ponto da sala, onde a
teoria encontrava o seu sentido mais humano.
Sentado no chão, numa proximidade quase táctil comigo,
estava o João. A sua presença não era uma nota de rodapé nem uma interrupção;
era o centro de gravidade emocional da experiência. O João, com os traços da
trissomia 21 e o recolhimento do autismo, habitava o espaço com uma dignidade
absoluta. As suas mãos ocupavam-se num ritual hipnótico de amassar uma camisola, enquanto se balançava para a frente e para trás, num movimento rítmico que parecia compassar o tempo, como se ele,
no seu silêncio, estivesse a tecer a sua própria cronologia.
Aquele gesto de amassar a camisola era a manifestação de um
Portugal que já não precisa de gritar para existir. Na ilustração que
mostrámos, a menina ostenta a palavra "Sempre" no saco de sementes; o
João é o "Sempre" tornado carne. Ele não perturbava; validava. A
escola moderna, ao permitir que ele ali estivesse, sentado no solo da
democracia, provava que o terreno outrora estéril fora finalmente revolvido. O
João é a prova de que a nossa liberdade não se mede pela eloquência dos que
falam, mas pela segurança com que os que se calam podem ocupar o seu lugar ao
sol.
Para que aquelas crianças entendessem o 25 de Abril de 1974, tivemos de as
levar ao crepúsculo do Estado Novo. Na "Escola do Teu Avô e da Tua
Avó", o regime impunha uma uniformidade cinzenta e cruel. O "Livro
Único" não era apenas um manual; era uma barreira ao pensamento diverso.
Ali, sob o lema de "Deus, Pátria e Família", procurava-se a
"Criança Única". A diferença, como a do João, era vista como uma
falha a esconder em depósitos de esquecimento. Usámos o
rigor da História para lhes falar de um Portugal pré-Abril, onde o tempo e a
justiça eram propriedades de um Estado que punia a individualidade. Crianças
como o João eram, nessa época, sombras por detrás de cortinas fechadas.
A liberdade de o João estar naquela sala é o resultado
prático de se ter "semeado a liberdade" na Constituição do Portugal
de Abril. Ali, o Direito à Educação tornou-se um pilar inegociável.
A inclusão que hoje nos parece natural foi uma escolha política feita contra
resistências, o que torna a presença do João ainda mais preciosa. É a prova de
que a vulnerabilidade deixou de ser motivo de exclusão.
Ao encerrar a sessão, o olhar voltou inevitavelmente para o
João. Ele continuava no seu ritual, aparentemente alheio ao que tínhamos dito,
sendo, porém, ele próprio a justificação viva do 25 de Abril de 1974. Ele é o
cravo que desabrochou 52 anos depois de o solo ter sido rasgado.
O João não precisa de falar para nos dizer que Abril valeu a pena; a sua presença é o seu discurso mais eloquente. A menina que semeia cravos continua a sua faina, pois o solo da liberdade exige rega diária. Saímos daquela escola com a certeza de que a nossa missão de "Semear Abril" é uma responsabilidade colectiva: garantir que o Portugal do futuro seja sempre um lugar onde nenhum João precise de se esconder nas sombras e onde a semente da coragem continue a florescer à luz da inclusão. No silêncio dele, ouvi o grito mais alto da nossa democracia.
A Direcção do Serviço de Armas Navais (DSAN) era o centro nevrálgico da manutenção, desenvolvimento e gestão dos sistemas de armas da Armada. Num período em que a Marinha Portuguesa modernizava a sua frota para responder aos desafios nos teatros de operações africanos e aos compromissos no âmbito da NATO, a DSAN exigia um rigor administrativo e técnico sem precedentes. Foi neste ambiente de precisão e hierarquia que o Oficial da Reserva Naval Jorge Miranda foi colocado após concluir o 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval.
A Reserva Naval (RN) funcionou, involuntariamente por parte do regime de Salazar e Caetano, como um "cavalo de Tróia" da democracia. Ao recrutar os melhores licenciados para servirem como oficiais, a Marinha permitiu que o pensamento liberal e democrático circulasse entre os oficiais de carreira. Jorge Miranda, já então um jurista distinto, trazia consigo o rigor do Direito Público, enquanto Luís Costa Correia possuía a experiência de quem vira a realidade do país e das colónias de perto, imbuído de um espírito democrático que remontava à sua juventude.
Nascido em Setúbal em 1939, Luís Costa Correia representa a linhagem de oficiais da Marinha que souberam distinguir a lealdade à Pátria da obediência cega a um regime caduco. Integrou o Movimento das Forças Armadas (MFA) e teve um papel activo na ocupação da PIDE/DGS no 25 de Abril de 1974, um acto simbólico e prático de desmantelamento do aparelho repressivo. Mas o maior contributo de Luís Costa Correia para a democracia portuguesa ocorreu fora da Marinha, utilizando a disciplina nela aprendida. Como Director-Geral do Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) entre 1975 e 1977, foi ele o arquitecto do primeiro recenseamento eleitoral democrático em Portugal e o organizador das primeiras eleições livres para os novos órgãos de soberania.
Jorge Miranda, nascido em Braga em 1941, percorreu um caminho que o elevou ao estatuto de "Pai da Constituição" de 1976. A sua passagem pela Marinha como oficial da Reserva Naval não foi um mero parêntese na sua vida académica, mas uma experiência fundacional que lhe permitiu compreender a importância da autoridade do Estado submetida à lei. Eleito deputado pelo Partido Popular Democrático (PPD) em 1975, Jorge Miranda foi um dos principais redactores da Constituição de 1976. Uma missão delicada, pois era necessário criar um texto que aceitasse as conquistas sociais da Revolução, mas que as enquadrasse num Estado de Direito democrático clássico, com separação de poderes e garantias de direitos fundamentais. O seu contributo foi essencial na definição da estrutura do sistema político português — o chamado semipresidencialismo — que permitiu um equilíbrio de poderes entre o Presidente da República, o Governo e o Parlamento. Jorge Miranda foi também o defensor acérrimo da fiscalização da constitucionalidade, assegurando que nenhuma lei, por mais popular que fosse no momento, pudesse violar os princípios basilares da dignidade humana.
A fotografia que suscitou este texto é assim o epílogo feliz de uma narrativa de serviço e amizade. O brinde entre Jorge Miranda e Luís Costa Correia celebra os 60 anos passados desde que se conheceram e tudo começou. O facto de terem à mesa a Constituição da República Portuguesa não é um adereço, mas o testemunho do seu trabalho comum: um deu-lhe o espírito e a letra; o outro deu-lhe a base material e a legitimidade do voto.
Na verdade, em Portugal, vivemos prisioneiros de um lugar-comum: CGTP e UGT são imediatamente associadas a braços partidários, enquanto entidades como a CIP ou a CAP desfrutam de uma reputação de neutralidade e competência técnica. Este tema, muitas vezes remetido para a esfera académica como uma “elegante irrelevância”, oculta uma profunda assimetria na forma como vemos a influência política no seio do nosso sistema democrático.
A rotulagem política dos sindicatos resulta, em grande medida, da sua estratégia de acção: ao trazerem o conflito para o espaço público, através de greves e manifestações, tornam-se alvos fáceis de estigmatização e colagem ideológica. Em contraste, o patronato habitualmente prefere a discrição dos gabinetes governamentais e da concertação social, onde exerce influência de forma técnica, silenciosa e longe do escrutínio mediático.*
O discurso empresarial protege-se atrás do véu da “racionalidade económica” e da “competitividade”. Assim, enquanto as reivindicações laborais tendem a ser vistas como ideológicas, as propostas patronais surgem envoltas numa suposta necessidade pragmática ditada pelo mercado. É aí que reside o poder estrutural do capital: a dependência dos governos do investimento privado transforma interesses setoriais em “interesse nacional”.
No campo sindical, a histórica polarização entre o PCP (na CGTP) e o PS/PSD (na UGT) solidificou, no imaginário colectivo, a narrativa das “correias de transmissão” partidárias, tornando mais fácil a ideia de instrumentalização política.
O estudo mais abrangente sobre este fenómeno, de 2023, da autoria de Marco Lisi, João Loureiro e António Dias, analisou as redes de elites entre partidos e grupos de interesse (económicos e profissionais) ao longo de mais de uma década. Os resultados põem em causa o mito da fusão total entre sindicatos, patronato e partidos, e trazem à luz factos surpreendentes: a sobreposição efetiva de lideranças – isto é, a acumulação de cargos de topo simultaneamente em partidos e grupos de interesse – revela-se fraca em Portugal; a verdadeira “cola” entre organizações reside na estabilidade ideológica, mais do que numa integração orgânica formal; se é verdade que existe maior rotatividade de quadros entre sindicatos e partidos de esquerda, o patronato mantém laços técnicos estáveis com a direita.
O partidarismo, conclui-se, é muitas vezes uma questão de encenação e linguagem: enquanto o patronato se apresenta como tecnocrata nos bastidores do poder, os sindicatos politizam-se para mobilizar as bases. Fica, assim, uma dúvida inquietante: conseguiremos restaurar a confiança nas instituições enquanto perdurar esta assimetria de percepção sobre quem, de facto, move os cordelinhos do Estado?
_______________
* A intermediação de interesses em Portugal revela uma forte assimetria entre o poder visível dos sindicatos e o discreto, mas estrutural, do patronato. Este último beneficia do acesso direto ao governo e exerce influência quase-legislativa, muitas vezes na Concertação Social, relegando o Parlamento para um papel secundário. Julgo que para evitar a deslegitimação democrática, é necessário: 1) desconstruir a "camuflagem técnica", sujeitando as propostas patronais ao mesmo escrutínio ideológico das reivindicações laborais; 2) garantir transparência nos contactos entre governo e patronato, institucionalizando mecanismos que revelem o lobbying; 3) reforçar a primazia da soberania parlamentar, evitando que acordos limitem a vontade popular; 4) equilibrar a visibilidade das redes de influência, responsabilizando sindicatos e patronato igualmente. Penso que só com transparência e consulta, e não com substituição legislativa pela tal "dimensão acima dos Governos e dos órgãos de soberania", se combate a opacidade e se protege a democracia.
• Algoritmos que sugerem certas vagas de empregos mais a rapazes do que a raparigas.• Sistemas que classificam alguns grupos como “mais perigosos”, mesmo sem razão.
• Se te faz sentir raiva instantânea → suspeita.• Se usa alguém famoso a dizer algo estranho → suspeita.• Se te deixa cansado e confuso → esse é o objetivo.
Pesquisa temas que normalmente ignoras.Baralha o algoritmo.
Define limites para o telemóvel, não deixes o scroll decidir por ti.
Fala com pessoas que pensam diferente.A diversidade é músculo para o cérebro.