No passado sábado, 6 de junho, uma data que, por razões pessoais, guardo sempre como especial, a baía de Cascais vestiu-se de cerimónia para receber um encontro de embarcações tradicionais do Tejo que ultrapassou em muito a ideia de simples desfile náutico. O que ali se viu foi o fulgor de uma memória ainda viva, uma história que não se resigna ao museu nem ao silêncio.
Estávamos lá, eu e a Catarina, a convite do nosso amigo Carlos Saraiva da Costa, companheiro das sementeiras de Abril e arrais da emblemática canoa Boneca. O motivo não podia ser mais nobre. Íamos celebrar os 100 anos desta senhora das águas, sobrevivente de um tempo inteiro, preservada por Carlos com uma paixão contagiante. Carlos, meu caro, obrigado por esta experiência maravilhosa; sentir o Tejo abraçar o Atlântico a partir do convés de uma destas joias é um privilégio que guardaremos para sempre.
Navegámos a bordo da Salvaram-me, sob o comando do mestre Luís Filipe. É fascinante observar como este mestre, professor de educação musical de profissão, troca as pautas pelas velas e os instrumentos pelos pincéis, compondo sinfonias visuais nos cascos de madeira. Luís Filipe é um dos raros guardiões da pintura tradicional, uma arte que aprendeu de olhos postos nas mãos de mestres como Diogo Gomes. É impossível não reparar na exuberância das decorações, as rosas e malmequeres estilizados, as cores vivas e a caligrafia artesanal que funciona como uma assinatura pessoal. Luís Filipe explicou-nos que esta arte exige um domínio técnico rigoroso e um controlo da respiração quase meditativo para que o traço saia perfeito. Estas pinturas não são meros adornos. São marcas de identidade, sinais de pertença, ecos de um tempo em que o rio se convertia, nas festas da Moita, numa verdadeira feira de vaidades flutuante.
No cortejo seguia também a Gaivina, outra joia do estuário, com a sua dignidade recuperada palmo a palmo. A história da Salvaram-me e a da Gaivina encontram-se nesse ponto essencial onde o amor pelo património se confunde com teimosia, sacrifício e fidelidade. Construída em 1937, a Gaivina, tal como a Salvaram-me, esteve a um passo do desaparecimento. Foi então que o mestre João Gregório, moitense de raiz, a resgatou do abandono e lhe entregou quase sete anos de trabalho, suor e certamente também desalento. Graças a essa obstinação, em julho de 2025 a canoa voltou a tocar as águas do rio, pronta a abrir velas e a mostrar-nos que o património não tem de viver imóvel, encerrado atrás de vitrinas. Pode respirar, mover-se, desafiar o tempo. Pode ser, como ali era, um museu vivo.
Também a Salvaram-me conheceu o risco do desaparecimento e encontrou quem a arrancasse a esse destino. Luís Filipe contou-nos, sem dramatismo, mas com a franqueza de quem conhece o peso real das coisas, como os anos da troika e os cortes impostos pelo governo de Passos Coelho o empurraram para uma vida repartida entre a necessidade e a vocação. Durante a semana, professor de música; ao fim de semana, mestre da Salvaram-me em passeios turísticos. “Dá para as despesas da embarcação”, disse-nos. E nessa frase havia mais verdade do que resignação. Porque a Salvaram-me, tal como a Gaivina e tantas outras, não foi salva apenas por um homem. Foi salva também por essa economia moral da entreajuda a que chamam Paga da Praia, uma rede discreta de solidariedade onde os mestres trocam saberes, braços e tempo, onde umas letras pintadas podem valer uma ajuda na manutenção, e onde o dinheiro nem sempre é a medida do valor. É essa camaradagem funda que ainda sustém os estaleiros, os barcos e, com eles, a alma ribeirinha.
E foi esse código de honra, essa fraternidade sem alarde, que senti de forma mais nítida quando o mestre João Gregório rompeu a solenidade algo cinzenta da cerimónia no pátio do Palacete Seixas. Debaixo das embarcações dos Descobrimentos talhadas na pedra da fachada, como se a memória marítima do país observasse, em silêncio, a persistência destas outras embarcações do Tejo, João Gregório chamou um a um os camaradas que o ajudaram a devolver vida à sua Gaivina. Nesse gesto simples, sem retórica nem aparato, estava talvez tudo. Estava a gratidão, a lealdade, o trabalho partilhado, a consciência de que nenhum barco regressa sozinho à água.
As embarcações tradicionais do Tejo, sejam as ágeis canoas como a Salvaram-me e a Gaivina, os bojudos varinos de proa em colher, as robustas fragatas ou as velozes faluas, constituem o nosso património flutuante. Durante séculos, foram artérias vitais no abastecimento de Lisboa, trazendo das lezírias e das salinas a substância de uma cidade inteira. Hoje, reunidas sob o nome de Marinha do Tejo, continuam a ensinar-nos uma lição que vai muito além da nostalgia. Ensinam-nos que preservar uma embarcação de madeira é preservar saberes, gestos, vocabulários, ofícios, modos de vida. É preservar, no fundo, a resiliência e a dignidade das comunidades ribeirinhas que lhes deram origem.
Obrigado, Carlos, por nos recordares que o Tejo ainda sabe dançar com as vagas e que, às vezes, a memória mais funda é também a mais colorida.
Meu caro,
ResponderEliminarConfesso que li o seu texto com uma lágrima no olho e o coração cheio. As suas palavras tocaram-me profundamente, não apenas pelo elogio, mas sobretudo porque revelam que compreendeu verdadeiramente aquilo que nos move.
Nem sempre quem anda nestas lides do Tejo espera reconhecimento. Fazemo-lo porque gostamos, porque sentimos que é nossa obrigação deixar às gerações futuras um património vivo e não apenas fotografias amareladas, barcos imóveis ou memórias encerradas em vitrinas. Fazemo-lo porque acreditamos que a história deve navegar.
Ao ler o que escreveu, senti que conseguiu ver para além da madeira, das velas, das pinturas e dos cascos. Viu as pessoas. Viu os sacrifícios, as amizades, a entreajuda, as horas de trabalho, as dúvidas, as conquistas e a paixão que continua a manter vivas estas embarcações e os saberes que lhes estão associados.
As suas palavras são também um reconhecimento para todos aqueles que, ao longo dos anos, me ajudaram e continuam a ajudar. Neste mundo ainda existe uma fraternidade antiga, feita de mãos calejadas, de ferramentas partilhadas, de conselhos dados à beira de um casco e de ajuda prestada sem esperar nada em troca.
É o mínimo que podemos fazer perante palavras tão generosas. Por isso, deixo-lhe alguns registos fotográficos das recuperações da Gaivina, da Salvaram-me e da Estrela da Madrugada. Talvez estas imagens consigam mostrar uma pequena parte daquilo que os seus olhos e a sua sensibilidade tão bem souberam descrever.
Gaivina:
https://photos.app.goo.gl/623PoCSqr872QXqj6
Salvaram-me:
https://photos.app.goo.gl/8sTXKhWv99XzohLe7
Estrela da Madrugada:
https://photos.app.goo.gl/6soWHBChPvQUQCe99
Aqui ainda há quem não goste de ver os ferros de calafate pendurados em museus nem os barcos condenados a uma reforma silenciosa. Acreditamos que as embarcações tradicionais nasceram para navegar, que os estaleiros nasceram para trabalhar e que os saberes antigos só sobrevivem quando continuam a ser praticados, transmitidos e vividos.
Espero sinceramente voltar a vê-lo a bordo. Da próxima, partiremos do Cais da Moita, terra do seu amigo de escola. Traga a Catarina, a família e os amigos. Será um enorme prazer recebê-los e conduzi-los por um périplo pelos recantos náuticos da margem sul, pelas histórias escondidas das nossas águas e pelos segredos que o Tejo continua a guardar para quem o sabe ouvir.
Escreveu sobre barcos, mas acima de tudo escreveu sobre pessoas. E isso vale mais do que imagina.
Por fim, e como dizem os petizes de hoje em dia: foi brutal!
Um abraço muito sentido para si e para a Catarina.
Luís Filipe