quarta-feira, 20 de maio de 2026

Carta a um "José Manuel"

 


Meu Caro Diniz,

Tive uma sensação estranha ao ler as suas palavras. Comecei por pensar que falava dos outros, dos que partiram, dos que construíram a vida longe e, de repente, percebi que também falava de mim.

Como sabe, eu nunca emigrei. Fiquei. Mas cresci com vários “José Manuel”. Andaram na escola comigo, jogávamos à bola, fazíamos as mesmas brincadeiras, tínhamos as mesmas referências, os mesmos verões. E depois, quase sem dramatismo, desapareceram. “Foram para a América”, diziam-nos. E isso parecia bastar.

Durante anos, esses nomes ficaram suspensos. Às vezes, reapareciam em conversas soltas: “Acho que já nem fala português”, “veio cá uma vez, mas já é diferente”. Diferente. Era sempre essa a palavra. Não sabia bem o que queria dizer, mas aceitava-a como suficiente.

Hoje, tantos anos depois, ao ler o seu magnífico texto, tive pela primeira vez a sensação de preencher esse vazio. De perceber que esse “diferente” não era uma escolha simples, nem uma história linear de sucesso. Era uma forma de desencontro com a língua, com o lugar, com a própria memória.

O que mais me tocou foi essa ideia de uma vida a meio caminho. Porque, de certa forma, também eu fiquei a meio de alguma coisa. Enquanto eles aprendiam a ser “Joe”, eu continuava a imaginar o “José Manuel” que conheci. E essas duas versões deixaram de coincidir.

Lembro-me de reencontros raros, espaçados, em que já não sabíamos bem como falar. Não por causa da língua, mas por causa do tempo. Como se tivéssemos perdido o fio comum sem darmos por isso. Como se a amizade tivesse ficado guardada numa idade que já não existe.

E, no entanto, ao ler sobre a “ilha invisível” que o Joe transporta, percebi que eu também tenho a minha. Feita do mesmo largo das brincadeiras e das festas, das mesmas vozes, dos mesmos dias, mas incompleta. Porque há sempre alguém em falta.

Talvez seja isso que este seu texto faz melhor: devolve-me essas pessoas, não como eram, mas como se tornaram. E, ao fazê-lo, obriga-me a reconhecer que uma parte da minha própria história continuou sem mim, noutro lugar, noutra língua.

E que talvez nunca a consiga recuperar por inteiro.

Forte abraço,
Jorge

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Os meus netos não podem herdar um país a prazo

 

3 de Setembro de 2017

Sou avô de oito netos das gerações Z e Alfa. Olho para eles e vejo inteligência, curiosidade, preparação e uma espantosa capacidade de se moverem num mundo em mudança. O que me inquieta e revolta é pensar que o país que lhes estou a deixar continua a tratá-los como mão-de-obra descartável e a oferecer-lhes um futuro que não está à altura deles.

A reforma laboral agora em debate parte de um diagnóstico que ninguém de boa-fé pode negar. Portugal perdeu centenas de milhares de jovens, paga mal, oferece vínculos frágeis e transformou a emigração num plano de carreira forçado para demasiados dos seus melhores. Ainda assim, o Governo insiste em chamar modernização ao que, em muitos casos, não passa de uma forma mais polida de prolongar a precariedade.

Reconheço que há medidas úteis. O alargamento do IRS Jovem e os apoios à compra da primeira casa aliviam alguma da asfixia que hoje sufoca quem começa a vida. A aposta na formação contínua também faz sentido, porque um país sem qualificação não é competitivo, é apenas mais injusto. E compreendo até o argumento das pequenas empresas, que muitas vezes vivem encostadas à instabilidade e à falta de escala.

Mas compreender não é aceitar tudo. E é precisamente aqui que esta reforma falha. Alargar os contratos a prazo de dois para três anos, e nalguns casos para cinco, não é um ajuste técnico inocente; é uma escolha política com consequências humanas muito concretas. Significa dizer a uma geração inteira que pode esperar. Esperar para ter estabilidade. Esperar para sair de casa dos pais. Esperar para constituir família. Esperar para viver. E um país que manda os seus jovens esperar está, na verdade, a empurrá-los para partir.

A contradição é gritante e quase insultuosa. O Estado diz aos jovens para ficarem, promete-lhes ajudas para comprar casa, mas aceita simultaneamente que muitos permaneçam sem o vínculo que os bancos exigem, que os senhorios exigem e que a vida adulta exige. Isto não é coerência. É cinismo institucional. É pedir enraizamento a quem se mantém de malas feitas.

Se o tempo adicional servisse realmente para formar, integrar e fixar talento, ainda se poderia discutir o assunto, embora sempre com prudência. Mas em Portugal já vimos demasiadas vezes como estas soluções acabam: com o risco todo do lado do trabalhador e a conveniência toda do lado de quem contrata. Chamar a isso equilíbrio é um abuso de linguagem. Chamar-lhe reforma é, em muitos casos, uma mistificação.

Eu recuso-me a aceitar que os meus netos herdem um país onde tudo é provisório: o emprego, o salário, a autonomia, a esperança. Um país assim não está a preparar o futuro; está a hipotecá-lo. Eu não quero deixar aos meus netos um país onde tudo é temporário. Quero deixar-lhes um país onde valha a pena viver e trabalhar.

domingo, 17 de maio de 2026

A ignorância gourmet

 


Se até ontem não sabia quem era Tucídides, não se aflija. É bem provável que os doutos comentadores do seu canal de notícias favorito também o confundissem com uma sobremesa helénica com pretensões probióticas. A comunicação social contemporânea possui esse dom, ao mesmo tempo admirável e alarmante, de converter um lugar-comum em revelação estratégica com a simples ajuda de um grafismo e de um tom suficientemente grave. Basta que Xi Jinping insinue uma metáfora num banquete oficial para que, na manhã seguinte, o comentário televisivo acorde transformado em autoridade sobre a geopolítica da Antiguidade Clássica.

De repente, ficámos todos cativos da "Armadilha de Tucídides". O comentário fast-food, sempre lesto a parecer profundo, adoptou a expressão sem se dar ao trabalho de ir além da introdução da Wikipédia. O resultado é a habitual confusão conceptual, em que o realismo clássico e o marketing académico contemporâneo são atirados para o mesmo liquidificador mediático.

Convém, por isso, restituir alguma ordem ao teatro. A formulação do historiador grego Tucídides, no século V a.C., centrou-se na psicologia da guerra do Peloponeso e na sua aparente inevitabilidade. Para ele, a guerra resultou do crescimento do poder de Atenas e do medo concreto que essa ascensão suscitou em Esparta. Trata-se de uma reflexão sobre a propensão para o conflito, alimentada por paixões humanas como a honra, o interesse e o medo.
 
Já a formulação do politólogo norte-americano Graham Allison, em 2015, recuperou o nome do historiador para uma metáfora contemporânea com ambição analítica. A sua "Armadilha" é um aviso de que quando uma potência emergente, como a China, ameaça ultrapassar uma potência dominante, como os Estados Unidos, o risco de guerra aumenta significativamente, mas, e este ponto é importante, não é inevitável. Tudo depende, para desilusão dos apaixonados pelo catastrofismo de estúdio, da política, essa arte de decidir antes que o comentário se transforme em destino.

Mas, claro, quem precisa de rigor conceptual ou de contextualização histórica quando a falsa erudição, servida em dose apocalíptica, oferece tão bons dividendos de audiência e tão reconfortante sensação de inteligência instantânea? Continuemos, então, entretidos a fingir intimidade com os gregos antigos, enquanto a máquina mediática prepara, com diligência industrial, a próxima epifania descartável.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Memória de San Francisco

 


Entrei na Chinatown sob um arco vermelho e dourado, como se atravessasse um portal. A ordem vitoriana cedeu aos telhados recurvos e o ar mudou. Primeiro um cheiro espesso a gengibre, chá e peixe seco, misturado com fumo de incenso que saía de uma porta entreaberta. Depois veio o som, uma cadência rápida de vozes, sílabas que se atropelavam, interrompidas pelo tilintar metálico de loiça e pelo arrastar de caixas nas calçadas íngremes. Em 1977, no coração de São Francisco, a América parecia suspender-se ali.

As fachadas erguiam-se em varandas estreitas, lanternas vermelhas oscilavam ligeiramente, e nas montras alinhavam-se patos lacados de pele brilhante, raízes contorcidas, frascos de vidro com conteúdos indecifráveis. Nada ali era decorativo: tudo parecia necessário, funcional, vivido. Pensei então que aquele bairro não nascera por acaso. Lembrei-me das leis que, décadas antes, tinham fechado portas aos chineses, empurrando-os para dentro de limites invisíveis, mas rigorosos. O Exclusion Act de 1882 ainda ecoava, mesmo depois de revogado.

E comparei, inevitavelmente, com os portugueses. Os nossos, homens do mar e da terra vindos sobretudo dos Açores, tinham-se espalhado pela Califórnia como quem encontra terreno familiar: trabalharam, casaram, misturaram-se. As suas marcas ficaram nas festas do Espírito Santo, em algumas igrejas, em apelidos dispersos. A integração fez-se por dissolução lenta.

Aqui, pelo contrário, tudo resistia. Os camponeses chineses, primeiro atraídos para as minas e ferrovias e depois expulsos da mineração por ataques violentos, tinham-se refugiado nas cidades em nichos de serviços que a América branca desdenhava. Assim, esta estética de gueto étnico não nasceu de um exotismo cultural, mas foi a resposta à hostilidade histórica. Cada letreiro em caracteres chineses era uma afirmação; cada loja, uma peça de uma economia própria; cada rosto, a continuidade de uma história que recusava apagar-se. Percebi que a Chinatown não era apenas memória. Era estratégia, era defesa, era comunidade forjada sob pressão.

Ao sair, o cheiro a incenso ficou-me preso à roupa. E pensei que para uns o American Dream tinha o sabor do leite e da terra conquistada no Vale Central; para outros, tinha o som das máquinas de costura e a luz dos candeeiros de rua em becos estreitos, onde a liberdade foi conquistada centímetro a centímetro contra a corrente da lei.

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Em tempo:

Apesar da roupagem, este texto a que dois amigos, simpaticamente, chamaram conto é, na verdade, o relato de uma experiência vivida há cinco décadas. A memória desse episódio foi reavivada pelos acontecimentos recentes, nos quais a lógica da exclusão ressurge entrelaçada com os esforços de sobrevivência política do presidente dos EUA.

No século XIX, a voracidade da expansão ferroviária nos EUA e da corrida ao ouro na Califórnia, atraiu uma mão de obra que o atavismo xenófobo rapidamente converteu em ameaça. O que começou por despertar alguma simpatia cristalizou-se, com a Lei Page e a Lei de Exclusão de 1882, numa desumanização do chinês, retratado como uma “horda imunda” e um “estrangeiro perpétuo”. Esse bicho-papão racial ressurge hoje como ameaça sistémica, fundindo o estigma do passado com a actual ansiedade tecnológica.

A Cimeira de Pequim constitui, para Trump, um exercício de sobrevivência política. Pressionado pelas eleições intercalares e pela asfixia energética no Estreito de Ormuz, onde Pequim detém uma influência decisiva sobre o Irão, Trump procura um quid pro quo transacional que lhe permita revitalizar a base interna. A agenda curta expõe, porém, a fragilidade desta estabilização táctica: seja na questão da soja e do fentanil, convertidos em trunfos mediáticos para o eleitorado do Midwest; seja na tentativa de assegurar o acesso a minerais críticos que Pequim instrumentaliza como reserva estratégica; seja ainda na ambiguidade em relação ao Irão e a Taiwan, em troca da reabertura de rotas comerciais vitais.

O paradoxo é flagrante. Washington tenta excluir a China do ecossistema global (Biosecure Act) ao mesmo tempo que mendiga os seus recursos e a sua influência. A História deixa aqui uma lição que o pragmatismo de curto prazo insiste em ignorar: instrumentalizar o preconceito para mascarar fragilidades internas só acelera a erosão hegemónica. O que hoje vemos é o reflexo do pavor de um declínio que nenhuma barreira legislativa, nem qualquer política de exclusão, conseguirá por si só apagar.

sábado, 9 de maio de 2026

O silêncio do João e a liberdade que floresceu

 


A sala de aula na escola do 1.º ciclo exalava aquele odor familiar a tintas e papel, uma textura de infância que atravessa gerações, mas o ar estava carregado de uma electricidade diferente. Havia um contraste quase mágico entre a nossa gravidade serena de homens da Marinha, cujos rostos guardam a memória viva de uma ruptura histórica, e a vivacidade inquieta das crianças, cujos corpos não conhecem a imobilidade do medo.

Estávamos ali para "Semear Abril", numa tentativa de traduzir o impalpável. No ecrã, a imagem de uma menina, criada pela Rita Correia, semeando cravos num solo rachado servia de preâmbulo à nossa "viagem no tempo". O objectivo era entregar-lhes uma "semente de coragem", explicando que a liberdade não é um estado natural da alma portuguesa, mas um jardim conquistado com esforço. À medida que o objectivo da nossa presença se desenhava na curiosidade dos olhos infantis, percebi que a herança que ali deixávamos não era apenas feita de datas e nomes, mas também de uma responsabilidade ética que se materializava num ponto da sala, onde a teoria encontrava o seu sentido mais humano.

Sentado no chão, numa proximidade quase táctil comigo, estava o João. A sua presença não era uma nota de rodapé nem uma interrupção; era o centro de gravidade emocional da experiência. O João, com os traços da trissomia 21 e o recolhimento do autismo, habitava o espaço com uma dignidade absoluta. As suas mãos ocupavam-se num ritual hipnótico de amassar uma camisola, enquanto se balançava para a frente e para trás, num movimento rítmico que parecia compassar o tempo, como se ele, no seu silêncio, estivesse a tecer a sua própria cronologia.

Aquele gesto de amassar a camisola era a manifestação de um Portugal que já não precisa de gritar para existir. Na ilustração que mostrámos, a menina ostenta a palavra "Sempre" no saco de sementes; o João é o "Sempre" tornado carne. Ele não perturbava; validava. A escola moderna, ao permitir que ele ali estivesse, sentado no solo da democracia, provava que o terreno outrora estéril fora finalmente revolvido. O João é a prova de que a nossa liberdade não se mede pela eloquência dos que falam, mas pela segurança com que os que se calam podem ocupar o seu lugar ao sol.

Para que aquelas crianças entendessem o 25 de Abril de 1974, tivemos de as levar ao crepúsculo do Estado Novo. Na "Escola do Teu Avô e da Tua Avó", o regime impunha uma uniformidade cinzenta e cruel. O "Livro Único" não era apenas um manual; era uma barreira ao pensamento diverso. Ali, sob o lema de "Deus, Pátria e Família", procurava-se a "Criança Única". A diferença, como a do João, era vista como uma falha a esconder em depósitos de esquecimento. Usámos o rigor da História para lhes falar de um Portugal pré-Abril, onde o tempo e a justiça eram propriedades de um Estado que punia a individualidade. Crianças como o João eram, nessa época, sombras por detrás de cortinas fechadas.

A liberdade de o João estar naquela sala é o resultado prático de se ter "semeado a liberdade" na Constituição do Portugal de Abril. Ali, o Direito à Educação tornou-se um pilar inegociável. A inclusão que hoje nos parece natural foi uma escolha política feita contra resistências, o que torna a presença do João ainda mais preciosa. É a prova de que a vulnerabilidade deixou de ser motivo de exclusão.

Ao encerrar a sessão, o olhar voltou inevitavelmente para o João. Ele continuava no seu ritual, aparentemente alheio ao que tínhamos dito, sendo, porém, ele próprio a justificação viva do 25 de Abril de 1974. Ele é o cravo que desabrochou 52 anos depois de o solo ter sido rasgado.

O João não precisa de falar para nos dizer que Abril valeu a pena; a sua presença é o seu discurso mais eloquente. A menina que semeia cravos continua a sua faina, pois o solo da liberdade exige rega diária. Saímos daquela escola com a certeza de que a nossa missão de "Semear Abril" é uma responsabilidade colectiva: garantir que o Portugal do futuro seja sempre um lugar onde nenhum João precise de se esconder nas sombras e onde a semente da coragem continue a florescer à luz da inclusão. No silêncio dele, ouvi o grito mais alto da nossa democracia.